Liderar e gerir conhecimento em momentos de transição

Opinião de Joana Resende, CEO Grupo Century 21 Arquitectos

Executive Digest
Outubro 16, 2025
10:15

Por Joana Resende, CEO Grupo CENTURY 21 Arquitectos

O setor imobiliário português vive uma fase de clara tensão estrutural. Entre políticas públicas que não se traduzem em resultados concretos, desequilíbrios entre oferta e procura, e uma perceção crescente de inacessibilidade à habitação, o ambiente de atuação tornou-se mais exigente e imprevisível. Neste cenário, a mediação imobiliária exige mais do que experiência comercial. Exige também compreensão sistémica e rigor técnico.

Com efeito, a questão da habitação não é apenas social. É económica, política e organizacional, e nos últimos anos, a atividade de mediação tem-se tornado um elo crítico entre particulares, investidores e entidades financeiras, funcionando muitas vezes como tradutora das limitações e falhas do sistema.

Não obstante, o setor ainda carrega fragilidades internas que amplificam essas dificuldades, nomeadamente a formação débil dos seus players em áreas-chave como direito imobiliário, fiscalidade ou economia da habitação. Isto gera assimetrias de conhecimento, práticas desiguais e uma perceção pública que continua a associar a profissão à instabilidade ou à informalidade.

E é precisamente neste contexto que a liderança assume um papel determinante.

Liderar uma empresa de mediação hoje, é antes de tudo, gerir conhecimento. É criar estrutura num setor que historicamente viveu da intuição. O líder deixou de ser apenas o gestor de objetivos comerciais, e é o responsável por construir cultura técnica, fomentar aprendizagem contínua e garantir que as suas equipas dominam o enquadramento legal e económico em que operam.

Na minha própria experiência, ao longo dos últimos dez anos, passei de liderar uma equipa de cinco pessoas para um grupo de cerca de duzentos profissionais. E essa evolução mostrou-me que o verdadeiro fator de crescimento não está apenas na dimensão, mas na qualificação. Equipas bem formadas são mais estáveis, mais éticas e mais sustentáveis, e num mercado sujeito a oscilações constantes, é o conhecimento (e não o entusiasmo momentâneo) que assegura consistência nos resultados.

Considero que a liderança eficaz no imobiliário exige três pilares fundamentais. Em primeiro lugar, a formação técnica contínua, para garantir rigor nas operações; em segundo, uma estrutura organizacional clara, para alinhar processos e responsabilidades;

e por fim, uma cultura profissional, que valorize a transparência e o cumprimento de boas práticas.

Um líder que garanta estes três pilares na sua organização, sabe que o desempenho financeiro é uma consequência, e não o ponto de partida.

Sabemos que o setor da habitação continuará a exigir políticas públicas consistentes, mas a transformação também depende da forma como cada empresa deste setor se organiza internamente.

E quando a liderança se centra na competência, a mediação imobiliária deixa de ser vista como um espaço de improviso e passa a ser reconhecida como uma atividade económica estruturada, com impacto direto na estabilidade do mercado e na confiança dos consumidores.

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