Se e antes da pandemia não sabíamos ainda a apetência dos vários públicos quanto a entregas formativas neste momento há claramente três segmentos: os claramente presenciais, os claramente online e os que pretendem flexibilidade e poderem, de quando em vez, poder participar via online. Em entrevista à Executive Digest, José Crespo de Carvalho, presidente do ISCTE Executive Education explica quais os principais desafios da instituição para o futuro.
Há cerca de dois meses, o sentimento de muitas escolas de negócios era o de que a procura por parte das empresas em programas de formação executiva iria aumentar em 2021. Esta perspectiva está a verificar-se?
Não se verificou um acréscimo. Antes uma estabilização. No entanto há muitos pedidos de propostas e há muitas reuniões. Há decisões adiadas. Mas a pouco e pouco estamos a entrar num processo mais controlado da pandemia, assim se espera, que nos pode dar a todos mais tranquilidade e investimento. Adicionalmente, em termos internacionais seria excelente vermos acalmia na Índia e abertura das portas na China pois são dois mercados onde estamos e continuamos a investir.
Quais as tendências de oferta e procura que estão agora a ser introduzidas nos programas de formação de executivos? Cada vez mais à medida e direccionada?
Pelo lado da oferta, uma transição para o digital de forma inexorável. Pelo lado da procura uma transição igualmente para o digital. Dito isto, se antes não sabíamos ainda a apetência dos vários públicos quanto a entregas formativas neste momento há claramente três segmentos: os claramente presenciais, os claramente online e os que pretendem flexibilidade e poderem, de quando em vez, poder participar via online.
Por outro lado, vê-se um cliente empresarial muito preocupado com questões de higienização e distanciamento quando estamos em presencial o que é bom para nós dado que investimos muito nesta área. Ampliámos espaços, criámos condições de mobiliário individual, colocámos mais tecnologia em sala de aula e temos o edifício quase desde início com certificação COVID-out, entretanto já recertificado.
O cliente individual está mais preocupado também com questões de segurança e de higienização. No global e em termos de temas e formatos vê-se um grande interesse por formatos menos convencionais – não obstante a pandemia – e por temas menos correntes. Não obstante, continua a haver procura por temas transversais de gestão o que indicia também uma necessidade de preparação para a decisão e a autonomia no pós-pandemia.
É evidente também, em termos de clientes individuais, uma procura pela necessidade de se valorizarem em período de crise para que, quando as coisas estiverem mais calmas, possam aproveitar as oportunidades que irão surgir.
No global, parece claro que esta procura por formação é crítica já que depois da tempestade são precisos igualmente marinheiros para conduzir embarcações entretanto danificadas.
Têm vindo a ser reforçadas áreas como a gestão de crises, cenários para lidar com a incerteza, e a resiliência emocional?
Claro que sim. Há vários avanços em matérias mais convencionais no sentido de conseguir introduzir novas componentes. Se por exemplo já era muito importante a questão do risco em gestão de projectos neste momento tornou-se igualmente crítica em gestão da cadeia de abastecimento e nas decisões de stock e capacidade.
Voltaram a ser importantes instrumentos de teoria da decisão e software de análise multicritério. Igualmente importante foi a grande subida em termos de necessidades de liderança, de componentes de resiliência e genericamente de competências brandas. E isso verifica-se nas várias dimensões de vários programas.
Os professores têm também acelerado a sua adaptação a novos modelos pedagógicos e de aprendizagem?
Muitíssimo. Os docentes têm feito um enorme esforço para se tornarem mais digitais, encontrando novas aproximações pedagógicas e novos mundos na componente visual e na gamificação. Entanto, é interessante ver que muitas das iniciativas que resultaram no campo digital estão também a migrar para a sala de aula adaptadas. Ou seja, os dois mundos, digital e de sala de aula, estão a contagiar-se em termos de inovação e isso é fantástico.
Atendendo às grandes mudanças que estão a acontecer nas empresas, sobretudo na faixa etária dos 40, o vosso perfil de formandos mudou?
O nosso perfil de formandos está sempre em mutação. E não há apenas um perfil. Há muitos perfis e cada vez haverá mais. Há os muito digitais, há os pouco digitais, há os remotos, há os não remotos, há os que trabalham de qualquer lado, há os que trabalham ainda presencialmente, há os nómadas – digitais ou não – e há muitos com perfis híbridos. Isto cruzado com os que procuram novas oportunidades e um shift de carreira e os que procuram subir nas suas organizações ou criar as suas oportunidades de negócio.
Quais são as vossas estratégias de comunicação para fazer chegar as vossas acções de formação ao público- alvo?
Praticamente tudo digital. Usando várias aproximações e várias redes. Temos também os eventos, de variados tipos, desde os inspiracionais aos mais técnicos, mas que são também uma belíssima forma de comunicação.
Como é que as universidades devem olhar hoje para a questão da sustentabilidade, visto que é muito mais do que o ambiente, e numa altura em que várias instituições estão a apostar em programas relacionados com esta área?
Estamos a olhar de forma absolutamente profissional para o tema. Vamos lançar um MBA em Sustainability, posso dizê-lo em primeira mão, e que já está acreditado internacionalmente pela AMBA e nos posiciona como pioneiros em Portugal na área. De resto todo o ISCTE está muito forte nesta área. Em breve sairemos para o mercado com este produto que terá o seu intake em Janeiro de 2022.
O desenvolvimento de cursos online permitiu que muitos formandos fora dos grandes centros urbanos começassem a frequentá-los. Isso também se sente com as empresas? Ou seja, têm cada vez mais empresas fora da vossa zona de influência a procurar-vos para acções de formação ou outro tipo de parcerias?
Completamente. De fora dos grandes centros e de fora de Portugal com expressão para uma participação em grande nível de portugueses residentes em vários mercados europeus. As empresas de fora dos grandes centros urbanos têm também sido uma agradável surpresa em termos de formação e que, noutros tempos, não estavam no circuito formativo. Ou seja, a pandemia abriu uma série de novos mercados não existentes até à data e principalmente com o online.
A questão das grandes escolas felizmente não se coloca porque a maioria tem preços muito pouco competitivos para cursos com presença permanente de docentes e com diplomas, por exemplo, de pós-graduação. Dito isto, há muitos MOOCs por aí, no mercado. Nacionais e internacionais. Mas não é essa a nossa área e nós fazemos questão de acompanhar e trabalhar próximo dos nossos participantes em tudo. Trata-se de serviço que não queremos dispensar.
Se as pessoas começarem a ter formatos mais híbridos de trabalho, em que estão menos tempo presencialmente no escritório, consideram que a vossa instituição, através da formação, pode ser uma espécie de aglutinador das diferentes áreas das empresas e das pessoas?
Claro que sim. Já o somos em algumas empresas. E temos tido programas para empresas onde as pessoas nem tão pouco se conheciam antes da formação. Outro mercado inexplorado e que veio por via da crise pandémica.
Com todas as incertezas, o que estão à espera que seja o resto do ano de 2021?
Estamos à espera de crescer. Aliás, a esta altura do ano posso dizer que estamos e vamos crescer mais. Não parámos de crescer na pandemia porque conseguimos uma adaptação enorme. Não vamos querer parar de crescer uma vez que conseguimos perceber rápido algumas das novas dimensões da oferta que devíamos fazer para públicos mais convencionais e mais emergentes.
As incertezas trazem, efectivamente, dúvidas. Mas há uma coisa que sei e temos por adquirido. Nos períodos de crise, para além de conter custo é fundamental não parar de investir. Parar de investir é sair da crise morto.
Dito isto, continuamos a investir e apesar de todas as incertezas temos uma estrutura muito leve, muito flexível, composta por pessoas muitíssimo dedicadas e muito pouco rotativas e que trabalham por paixão. Mais ainda, são muito permeáveis a formação e continuam sempre a querer crescer.
As incertezas dão-nos força e adrenalina e nos momentos de crise fazem-se grandes organizações. Esta organização deu tantas provas disso mesmo nos vários passados de crise que já teve que nem tão pouco o leitor imagina. Faz parte também do nosso ADN. Crise, adaptação, crescimento, investimento e passagem ao próximo ciclo. Somos muitíssimo resilientes.
Este artigo faz parte do Caderno Especial “MBA, Pós-graduações & Formação de Executivos”, publicado na edição de Maio (n.º 182) da Executive Digest.




