Como a exclusão das Mulheres nos testes de segurança coloca as suas vidas em risco
Durante muito tempo, a ciência e a indústria desenvolveram produtos, tecnologias e medicamentos com base no chamado “homem médio”. Esta abordagem, longe de ser neutra, teve e continua a ter, consequências sérias para a saúde e a segurança das mulheres. Quando as mulheres são sistematicamente excluídas dos processos de investigação e testagem, os riscos que enfrentam permanecem invisíveis, simplesmente porque não é possível avaliar aquilo que não se conhece.
A área farmacêutica é um dos exemplos mais evidentes desta realidade. Ao longo de décadas, os ensaios clínicos foram maioritariamente realizados com participantes masculinos. Esta exclusão das mulheres foi justificada por diferentes argumentos. Em muitos contextos, normas sociais e culturais profundamente enraizadas limitaram a participação feminina, uma vez que a decisão de participar em estudos dependia, por vezes, da autorização dos maridos ou da família. Ao mesmo tempo, argumentos científicos, hoje ultrapassados, sustentavam que as variações hormonais das mulheres tornavam os resultados mais difíceis de interpretar, aumentando os custos e a complexidade dos estudos.
A estes fatores somavam-se preconceitos persistentes sobre o papel social das mulheres, frequentemente vistas como pouco interessadas ou pouco adequadas à investigação científica e médica. Estas escolhas, muitas vezes justificadas como técnicas ou éticas, criaram um vazio de conhecimento com impactos diretos na vida das mulheres. Quando os medicamentos, dispositivos médicos ou equipamentos de segurança são concebidos com base em corpos masculinos, as mulheres ficam expostas a riscos que não são antecipados nem devidamente avaliados, como dosagens inadequadas, efeitos secundários inesperados ou maior vulnerabilidade em situações de acidente.
Um dos exemplos mais elucidativos de como a ciência ignorou durante décadas as diferenças entre homens e mulheres é o paracetamol, um dos medicamentos mais utilizados em todo o mundo. Durante muito tempo, a sua dose padrão foi definida sem uma análise sistemática das diferenças biológicas entre sexos, partindo do princípio de que o fármaco era igualmente seguro e eficaz para homens e mulheres. Mas estudos mais recentes demonstraram, no entanto, que as mulheres tendem a metabolizar o paracetamol mais lentamente, o que pode levar à sua acumulação no organismo e aumentar o risco de toxicidade hepática, sobretudo em situações de uso frequente ou prolongado. Paradoxalmente, há também evidência de que o paracetamol pode ser menos eficaz no alívio da dor em mulheres, levando muitas a aumentar a dose ou a frequência de toma.
No domínio da tecnologia médica e do diagnóstico, doenças como as cardiovasculares continuam a ser mal diagnosticadas nas mulheres, em grande medida porque os sintomas considerados “típicos” foram definidos a partir de padrões masculinos. Como resultado, sinais frequentes nas mulheres são desvalorizados ou interpretados como atípicos, atrasando o diagnóstico e o tratamento. Paralelamente, os dispositivos médicos e protocolos clínicos testados maioritariamente em homens revelam taxas mais elevadas de erro, menor eficácia ou maior incidência de complicações quando aplicados a mulheres.
A exclusão das mulheres manifesta-se também fora dos laboratórios, em contextos onde a segurança deveria ser garantida para todos. Por exemplo, nos testes de colisão automóvel, os manequins utilizados continuam a basear-se no corpo masculino padrão, sem considerar as diferenças biomecânicas fundamentais. Como resultado, as mulheres têm 73% mais probabilidade de sofrer ferimentos graves em acidentes rodoviários, apesar de utilizarem cinto de segurança. Embora existam avanços recentes, a adoção de manequins femininos realistas continua a ser lenta.
Esta desigualdade repete-se nos equipamentos de proteção individual: capacetes ou coletes de segurança são concebidos com base no tal “homem médio” e nem a adaptação de diferentes tamanhos resolve diferenças anatómicas relevantes, como o formato do tórax ou a distribuição da massa corporal. Isto compromete a eficácia da proteção e aumenta os riscos para as mulheres, sobretudo em setores como a construção, a indústria ou os serviços de emergência.
Esta lógica estende-se a áreas aparentemente neutras, como o design de equipamentos e infraestruturas. Os teclados, ferramentas, instrumentos de trabalho ou mobiliário são frequentemente concebidos para mãos, forças e estaturas médias masculinas. Por exemplo, as mulheres têm mais dificuldades em alcançar certos botões ou manusear confortavelmente dispositivos grandes, mesmo um simples telemóvel. Esta padronização gera desconforto, reduz a eficiência e aumenta o risco de lesões musculoesqueléticas nas mulheres, sobretudo em contextos profissionais onde o uso prolongado destes equipamentos é inevitável.
Estes exemplos demonstram que, quando o corpo masculino é tratado como norma universal, as necessidades das mulheres são sistematicamente ignoradas. Promover uma ciência, uma tecnologia e um planeamento mais inclusivos exige reconhecer estas assimetrias e integrá-las desde as fases iniciais de conceção, garantindo que a segurança, a funcionalidade e o bem-estar são direitos efetivamente partilhados por toda a população.




