Irão. Xiitas lamentam morte de Khamenei: “Eles queriam a guerra… e vão ter anos de conflito”

Entre bandeiras do Hezbollah, do movimento Amal e do Irão, muitos exibiam retratos de Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah morto em 2024, e do próprio Khamenei. “É como se tivessem assassinado o Papa”

Francisco Laranjeira
Março 2, 2026
12:45

Milhares de habitantes dos subúrbios do sul de Beirute, bastião da comunidade xiita, reuniram-se em manifestações de luto após a confirmação da morte do líder iraniano Ali Khamenei, relata o ‘El Mundo’. Ao som de cânticos religiosos e batendo ritmicamente no peito, a multidão evocava o ambiente do Ashura, cerimónia que recorda a morte de Hussein na Batalha de Karbala, um dos episódios centrais do xiismo.

Entre bandeiras do Hezbollah, do movimento Amal e do Irão, muitos exibiam retratos de Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah morto em 2024, e do próprio Khamenei. “É como se tivessem assassinado o Papa. Khamenei era o nosso Papa”, afirmou Ahmad Hannan, de 36 anos, citado pelo ‘El Mundo’, acusando Estados Unidos e Israel de terem escolhido “a guerra”.



Também Zahra Qayali, de 23 anos, declarou que a morte do líder não acabará com a resistência. “Seremos todos mártires. Terão de nos matar a todos”, afirmou.

A morte de Khamenei provocou manifestações de luto em várias partes do mundo xiita. No Líbano, a notícia foi recebida com disparos de metralhadora para o ar e expressões espontâneas de indignação. Para o Hezbollah, Khamenei era mais do que um aliado político e militar: era uma autoridade religiosa central, um marja, cujas decisões e orientações espirituais têm caráter vinculativo para os fiéis.

O jornal espanhol refere que um influente clérigo iraniano apelou à vingança contra os responsáveis pelo ataque. Líderes regionais alertaram para o risco de uma nova fase de confrontação prolongada com Washington e Telavive. Walid Jumblatt considerou que o ataque marca o início de “uma longa guerra com consequências inimagináveis”.

A posição futura do Hezbollah é vista como determinante para o Líbano, num contexto em que Israel tem mantido ataques contra membros do grupo apesar do cessar-fogo assinado em 2014. O sucessor de Nasrallah, Naim Qassem, classificou o ataque como um “crime supremo” e prometeu enfrentar a agressão.

Ainda assim, o presidente libanês, Josef Aoun, tentou minimizar a possibilidade de escalada, afirmando ter recebido garantias de que Israel não pretende agravar a situação no Líbano. Nos subúrbios xiitas de Beirute, porém, prevalece a desconfiança em relação a qualquer declaração norte-americana ou israelita.

A morte de Khamenei desencadeou também protestos violentos no Iraque, Paquistão, Bahrain e Nigéria. Em Bagdad, milhares marcharam em direção à embaixada dos EUA, sendo travados pelas forças de segurança com gás lacrimogéneo. No Paquistão, confrontos junto ao consulado americano em Karachi provocaram pelo menos nove mortos.

No Iraque, fações paramilitares apoiadas por Teerão intensificaram ataques contra interesses americanos, enquanto bases dessas milícias foram alvo de bombardeamentos. Drones atingiram ainda imediações do aeroporto de Erbil, onde estão destacados militares dos EUA.

Contudo, as reações não foram uniformes. Segundo o ‘El Mundo’, vídeos provenientes do Irão mostraram também celebrações em Teerão por parte de grupos que associam Khamenei à repressão interna. Algumas pessoas saíram à rua para lançar fogo de artifício e celebrar a morte do líder, revelando divisões profundas dentro do próprio país.

Num Médio Oriente já marcado por tensões persistentes, a morte do ayatollah poderá abrir uma nova etapa de instabilidade, com repercussões ainda difíceis de prever.

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