O Irão confirmou que retoma esta terça-feira, em Genebra, uma segunda ronda de negociações nucleares com os Estados Unidos, dissipando as informações avançadas por meios de comunicação norte-americanos que apontavam para um encontro iminente entre as duas partes.
A confirmação foi feita pelo vice-ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Majid Takht-Ravanchi, numa entrevista concedida à BBC em Teerão. O responsável adiantou que as conversações terão continuidade esta terça-feira e deixou um recado direto a Washington: “A bola está no campo dos EUA” e, “se agir com sinceridade”, será possível alcançar um acordo.
Takht-Ravanchi sublinhou que qualquer entendimento deverá centrar-se exclusivamente no chamado “dossier atómico”, afastando a hipótese de alargar o diálogo a outras matérias sensíveis.
O diplomata rejeitou a exigência de “enriquecimento zero” defendida por Washington, mas admitiu a possibilidade de “examinar compromissos” relativamente ao programa nuclear iraniano. Essa abertura, porém, está condicionada a uma negociação paralela sobre o levantamento das sanções impostas ao país.
Para Teerão, a suspensão total do enriquecimento de urânio constitui uma “linha vermelha” e representaria uma violação dos direitos reconhecidos pelo Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP).
Questionado sobre a eventual retirada do país de mais de 400 quilos de urânio enriquecido a 60%, um nível próximo dos 90% considerados necessários para utilização militar, Takht-Ravanchi afirmou que “ainda é cedo para antecipar resultados” no atual estágio do diálogo.
Possível diluição de urânio dependente do fim das sanções
Dias antes, o responsável pela Organização de Energia Atómica do Irão, Mohammad Eslami, tinha admitido que o Irão poderá diluir o urânio enriquecido a 60%, desde que os Estados Unidos eliminem todas as sanções em vigor.
A posição iraniana mantém-se, assim, ancorada numa lógica de reciprocidade: concessões no plano nuclear em troca de alívio económico e financeiro.
O vice-ministro reiterou ainda que o Irão não aceitará negociar a sua capacidade de mísseis balísticos, tema que Washington pretende incluir no quadro das discussões.
“Quando fomos atacados por israelitas e norte-americanos (na guerra de 12 dias, em junho), os nossos mísseis foram decisivos; como poderíamos aceitar renunciar à nossa capacidade defensiva?”, declarou.
A referência diz respeito ao conflito de 12 dias entre Teerão e Telavive, no qual os Estados Unidos participaram com bombardeamentos contra instalações nucleares iranianas.
Pressão de Washington e declarações de Trump
As declarações do responsável iraniano surgem depois de o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter afirmado, na sexta-feira, que uma mudança de regime no Irão seria “o melhor que poderia acontecer”. O chefe de Estado norte-americano anunciou ainda o envio de um segundo porta-aviões para o Médio Oriente, como forma de pressão para forçar um entendimento.
Trump tem reiterado que prefere uma solução diplomática para o impasse nuclear, mas advertiu que considera a hipótese de ações militares caso não seja alcançado um acordo.
Irão e Estados Unidos retomaram contactos indiretos a 6 de fevereiro, com mediação de Omã. Esse encontro marcou a primeira reunião desde a guerra de 12 dias entre Teerão e Telavive.
Ambas as delegações classificaram essa primeira ronda como “positiva” e comprometeram-se a voltar a reunir-se “em breve”, apesar das divergências profundas quanto ao programa de mísseis iraniano e ao apoio de Teerão a grupos regionais como o Hezbollah e o Hamas, que Washington procura conter e que o Irão continua a defender.






