O preço do gás natural na Europa poderá disparar para cerca de 90 euros por megawatt-hora (MWh) caso o conflito no Médio Oriente se prolongue e afete o transporte de energia no estreito de Ormuz.
A projeção é avançada numa análise da consultora Independent Commodity Intelligence Services (ICIS) citada pelo ‘Jornal de Negócios’, que aponta para um cenário em que as cotações podem praticamente triplicar face aos níveis registados no final de fevereiro.
O gás de referência europeu negociado no TTF — o principal “hub” de Amesterdão — encerrava a sessão de 27 de fevereiro pouco abaixo dos 32 euros por MWh. Num cenário de perturbação prolongada do fornecimento, esse valor poderá ultrapassar os 90 euros por MWh, refletindo o impacto da guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irão e os riscos associados ao transporte de energia na região do Golfo.
A ICIS utilizou o seu modelo de análise Gas Foresight para simular um bloqueio de três meses no estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes do mundo para o comércio energético. Nesse cenário, as entregas contratadas de gás natural liquefeito (GNL) do Qatar para a Europa seriam interrompidas até ao final de maio e os volumes disponíveis no mercado “spot” sofreriam uma redução de cerca de 131 terawatts-hora (TWh) durante um período de 90 dias.
Segundo a análise citada pelo ‘Jornal de Negócios’, durante esse período os preços médios do gás TTF poderão situar-se em torno dos 86 euros por MWh, com picos acima dos 90 euros. Na passada sexta-feira, as cotações rondavam já os 52 euros por MWh, refletindo a crescente tensão nos mercados energéticos.
Estreito de Ormuz é ponto crítico do mercado energético
Os analistas sublinham que o estreito de Ormuz desempenha um papel central no comércio global de energia. Cerca de 20% do gás natural liquefeito e 25% do petróleo transportado por mar passam por esta rota estratégica.
Jamie Stewart, diretor de conteúdos energéticos da ICIS, alerta que qualquer restrição prolongada naquele corredor marítimo poderá alterar profundamente o equilíbrio do mercado mundial de GNL e intensificar a concorrência entre a Europa e a Ásia pelas cargas disponíveis.
Mesmo que as exportações do Catar sejam retomadas após uma eventual interrupção, os especialistas admitem que os preços da energia poderão manter-se acima dos níveis considerados normais durante vários meses, sobretudo num contexto em que a Europa depende cada vez mais do gás natural liquefeito para garantir o abastecimento.
Preços podem aliviar ao longo do verão
A ICIS admite, contudo, que os preços possam começar a recuar gradualmente caso o fluxo de exportações seja restabelecido. Segundo as projeções citadas pelo ‘Jornal de Negócios’, o preço médio do gás TTF poderá situar-se em cerca de 65 euros por MWh em maio, descendo para aproximadamente 40 euros em junho e para cerca de 34 euros em julho.
Mesmo assim, estes valores permaneceriam cerca de 10% acima do cenário de referência considerado pelos analistas, em que o conflito no Médio Oriente teria uma duração curta e não provocaria perturbações significativas no comércio energético global.
Ásia também enfrenta risco energético
Os efeitos da crise energética poderão estender-se para além da Europa. Uma análise da Oxford Economics, também citada pelo Jornal de Negócios, alerta que a Ásia enfrenta um “duplo choque energético” com a guerra no Irão.
Segundo a economista Louise Loo, o aumento dos preços do petróleo penaliza diretamente os países importadores de energia, enquanto eventuais perturbações no estreito de Ormuz representam um risco adicional para o fornecimento de gás natural liquefeito.
A especialista alerta ainda que uma interrupção dos fluxos de GNL provenientes do Golfo poderá obrigar muitas empresas energéticas a recorrer ao mercado “spot”, aumentando os custos de importação e pressionando o fornecimento de eletricidade em vários países asiáticos.
Enquanto o desenrolar do conflito permanece incerto, os mercados energéticos continuam a acompanhar de perto a evolução da situação no Golfo, conscientes de que qualquer perturbação prolongada poderá ter efeitos significativos nos preços da energia e na economia global.





