Inteligência Artificial: Cuidados de saúde no limiar de uma transformação importante

Opinião de Anton Nakhodkin, Co-fundador da NYSON Capital e Managing Director da SOMAÍ Pharmaceuticals

Executive Digest
Março 26, 2025
13:14

Por Anton Nakhodkin, Co-fundador da NYSON Capital e Managing Director da SOMAÍ Pharmaceuticals

A Inteligência Artificial (IA) está prestes a revolucionar os cuidados de saúde na próxima década, abrindo possibilidades que outrora só existiam na ficção científica. IA refere-se a sistemas computacionais capazes de aprender, raciocinar e tomar decisões — tarefas tradicionalmente atribuídas à inteligência humana. Tal como avanços do passado, como a vacina de Edward Jenner e a penicilina de Alexander Fleming, transformaram a medicina, a IA promete redefinir os cuidados de saúde de formas sem precedentes. Desde a cirurgia de precisão até ao diagnóstico assistido e à telemedicina, a sua integração já está a melhorar os resultados clínicos e a otimizar os fluxos de trabalho médicos. Neste artigo, iremos explorar de que forma as práticas tradicionais estão a ser positivamente revolucionadas pela IA.

 

Revolução na Sala de Operações

A IA está a transformar os procedimentos cirúrgicos ao melhorar a precisão, a segurança e a eficiência — desde o planeamento pré-operatório até à tomada de decisões em tempo real no bloco operatório. Sistemas suportados por IA analisam dados dos pacientes, ajudando os cirurgiões a desenvolver planos de tratamento personalizados, prever resultados pós- operatórios e minimizar riscos. Uma das contribuições mais significativas da IA reside na cirurgia robótica assistida. Sistemas robóticos impulsionados por IA, como o Sistema Cirúrgico da Vinci, aumentam a destreza manual ao fornecer orientação em tempo real, estabilizar movimentos e possibilitar técnicas minimamente invasivas. Estes avanços reduzem complicações, aceleram a recuperação e melhoram os resultados para o doente.

Um exemplo pioneiro é a cirurgia LASIK com recurso a IA, que utiliza algoritmos de aprendizagem automática para avaliar a topografia da córnea, prever resultados cirúrgicos e adaptar o procedimento a cada paciente. A 7 de novembro de 2024, na Focus Clinics, em Londres, um procedimento LASIK assistido por IA restaurou e melhorou a visão de Patrícia Gonçalves, uma portuguesa de 31 anos considerada legalmente cega até então. A operação não só recuperou a sua acuidade visual, como conseguiu alcançar 20/16, ultrapassando o padrão habitual de 20/20 — um feito possibilitado pela capacidade da IA em analisar e efetuar ajustes com uma precisão além das capacidades humanas.

 

Diagnósticos “Clarividentes”

A IA está a revolucionar os diagnósticos, aumentando a precisão, a rapidez e a acessibilidade na deteção de doenças. Ferramentas suportadas por IA analisam imagiologia médica, biossinais e históricos clínicos para detetar padrões muitas vezes impercetíveis para os profissionais de saúde. Um exemplo notável é o CerebraAI, que está a transformar os cuidados de emergência no contexto de acidentes vasculares cerebrais (AVC). Os exames de

Tomografia Computorizada sem Contraste (TCSC), amplamente disponíveis em muitos serviços de urgência, falham por vezes na deteção de AVC isquémico agudo. A ferramenta de IA generativa da CerebraAI analisa rapidamente estes exames, identificando anomalias subtis e fornecendo aos radiologistas indicações claras e acionáveis. Ao potenciar ao máximo as TCSC, esta inovação permite diagnósticos de AVC mais rápidos e fiáveis, garantindo que os doentes recebam tratamento em tempo útil.

A IA está igualmente a reformular o diagnóstico oncológico ao possibilitar a deteção precoce de tumores e análises mais rigorosas através de algoritmos de aprendizagem automática. A mamografia assistida por IA, como o sistema desenvolvido pela Google DeepMind para deteção de cancro da mama, demonstrou superar radiologistas na identificação de tumores em fases iniciais. Já o Paige AI, uma ferramenta de análise de patologia baseada em IA, aumenta a precisão em biópsias e deteta cancros que poderiam passar despercebidos. Esta tecnologia é particularmente transformadora para clínicas locais que usem diagnósticos apoiados por IA, permitindo que pacientes em áreas remotas recebam avaliações potencialmente salvadoras sem terem de se deslocar grandes distâncias.

Para além disso, a IA está a reduzir erros de diagnóstico — um dos principais fatores de erros clínicos e atrasos no tratamento. O IBM Watson Health, por exemplo, ajuda médicos a comparar sintomas, históricos médicos e resultados de imagiologia com extensas bases de dados, melhorando a precisão diagnóstica. Ferramentas com IA podem ainda sinalizar os primeiros sinais de doença de Alzheimer, analisando exames cerebrais e avaliações cognitivas muito antes de os sintomas se manifestarem. Ao diminuir a margem de erro humano e fornecer informação rigorosa, apoiada em dados, a IA garante que os pacientes recebam tratamento correto e atempado.

 

Médicos na Palma da Mão

Assistentes virtuais de saúde com IA estão a transformar os cuidados médicos ao oferecer apoio personalizado, melhorar o acesso e otimizar resultados clínicos. Estes sistemas inteligentes auxiliam os pacientes através de conselhos médicos adaptados, lembretes de medicação e respostas imediatas a questões de saúde. Integrando-se com registos de saúde eletrónicos e dispositivos vestíveis, os assistentes baseados em IA monitorizam sintomas, acompanham doenças crónicas e detetam potenciais riscos de forma precoce.

Um exemplo inovador é o trabalho da SOMAI Pharmaceuticals, que desenvolveu um chatbot com IA concebido para simplificar o complexo panorama das prescrições médicas. Este assistente inteligente ajuda os doentes a identificar as opções de medicação mais adequadas, compreender melhor os tratamentos prescritos e receber orientações personalizadas. Ao facultar informação clara e adaptada a cada paciente, o chatbot capacita as pessoas para tomarem decisões informadas e chegarem às consultas médicas mais preparadas. Para além de fornecer dados essenciais sobre medicação e condições de saúde, esta ferramenta agiliza o processo de tratamento, reduzindo atrasos e assegurando cuidados atempados e adequados. À medida que a saúde virtual se expande, as soluções baseadas em IA estão a colmatar lacunas de acesso aos serviços médicos, especialmente para quem vive em locais remotos ou com acesso limitado a cuidados de saúde. Clínicas que utilizam ferramentas de diagnóstico suportadas por IA podem fornecer avaliações e recomendações sem necessidade de deslocações, garantindo intervenções oportunas e reduzindo desigualdades nos cuidados de saúde.

Com o crescimento populacional mundial e a procura crescente de cuidados médicos, a telemedicina, apoiada por assistentes virtuais de IA, torna-se essencial. Estas plataformas estão a revolucionar a interação entre pacientes e profissionais de saúde, permitindo consultas remotas, monitorização de tratamentos e cuidados contínuos. Esta mudança vai além da conveniência — visa criar um sistema de saúde mais eficiente, escalável e inclusivo, onde conselhos médicos de qualidade estejam ao alcance de todos, independentemente da localização.

A integração da IA nos cuidados de saúde marca o início de uma nova era, oferecendo um potencial sem precedentes para melhorar resultados clínicos, aumentar a eficiência e redefinir práticas médicas. Desde o diagnóstico e a cirurgia até à telemedicina e ao planeamento de tratamentos, a IA está a revolucionar a forma como se prestam cuidados. No entanto, é fundamental reconhecer que a IA não substitui os médicos; constitui, antes, uma ferramenta poderosa que complementa a sua especialização. Ao automatizar tarefas rotineiras, analisar vastos conjuntos de dados e fornecer informações clínicas em tempo real, a IA permite que os profissionais de saúde se concentrem no que mais importa — o cuidado ao paciente.

A adoção da IA em saúde já é ampla, com cerca de 80% das organizações de saúde nos Estados Unidos a recorrerem a tecnologias de IA, segundo um relatório da International Data Corporation e da Microsoft. À medida que a IA continua a evoluir, o seu impacto irá estender-se para além do diagnóstico e do tratamento, influenciando áreas como a medicina personalizada, a descoberta e desenvolvimento de fármacos e a otimização de processos administrativos. Estas inovações podem melhorar a prestação de cuidados, reduzir custos, mitigar o desgaste dos profissionais de saúde e tornar os serviços de saúde mais acessíveis a populações carenciadas.

Contudo, este potencial traz também responsabilidade. Garantir um acesso equitativo às inovações movidas a IA será crucial para evitar disparidades e assegurar que os benefícios alcancem todas as comunidades, e não apenas as regiões tecnologicamente mais desenvolvidas. Encontrar um equilíbrio entre o progresso tecnológico e as considerações éticas será imprescindível para fomentar a confiança, salvaguardar a privacidade de dados e manter a vertente humana da medicina. À medida que o setor da saúde abraça a IA, a ênfase deverá manter-se na colaboração — usar a IA para apoiar, e não substituir, a experiência e a compaixão dos profissionais de saúde. Deste modo, a IA pode ajudar a reformular a medicina para as próximas gerações, construindo um sistema de saúde mais inteligente, eficiente e centrado no paciente.

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