Inovação na blocalização

Opinião de Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Executive Digest

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

A saúde (farmacêutica, médica e saúde) são no seu conjunto, a área em Portugal, que mais patentes europeias apresenta. Em paralelo com as tecnologias de informação. Curiosamente é a região norte do nosso país que mais se destaca, com 36.2% dos pedidos, confirmando a imagem empreendedora desta região. E continua-se a confirmar o crescimento de pedidos de patentes no instituto Europeu de Patentes (IEP) por empresas e inventores portugueses que aumentaram 7.6% em 2022, ao contrário dos países da UE, em que os pedidos caíram -0.5%. Foram 312 pedidos de patente segundo o IEP Patent Index 2022. A academia foi o principal motor destes pedidos, com 60% dos pedidos originários deste segmento. O que reforça a necessidade da academia estar integrada com o mundo empresarial, de forma a potenciar a utilização prática da inovação concebida. Algo muito relevante foi o crescimento no setor da biotecnologia (+11,0%) que também continuou a crescer, mais que o benchmark.
No entanto os 5 principais países de origem de pedidos de patente continuam a ser os EUA (25% total de pedidos), a Alemanha, Japão, China e França. Ou seja as grandes economias mundiais. Mas em relação aos pedidos de patentes per capita, a Suíça foi novamente líder, seguida por alguns países nórdicos. Portugal encontra-se na posição 28, ainda muito pouco visível neste ranking e em consequência, pouco visível no impacto económico que daí advém. Portugal tem de se tornar num país líder na produção de inovação e pedidos de patente (per capita) para se tornar um país de economia de valor acrescentado.
Acrescido pelo problema de eu entender que a globalização falhou! Escrevi um dia que a globalização falhou porque os valores, os interesses, os ideais e a visão do mundo não é a mesma para todos. Para um mundo global não basta ter linhas aéreas que viajam para todo o lado, internet e informação acessível a todos, redes sociais comuns, conhecimento partilhado de forma massiva, corporações com espaços comerciais iguais em todas as cidades do mundo… na minha terra adotiva, Viseu, usa-se uma perífrase que retrata bem este espírito: “deita-te com cães, acordas com pulgas”. Portanto a blocalização já está a substituir a globalização. Ou seja a interação e integração em blocos económicos, políticos, sociais e culturais (como Europa e Norte de África; ou América do Norte e alguns países da América do centro e sul, Reino Unido; o Ásiatico com o bloco entre Japão, Coreia do Sul, Austrália e outros países asiáticos; A China e seus países de influência; os não alinhados como Brasil e India). De fora ficam a Rússia, a Turquia, o médio oriente (que está desde sempre instável por questões religiosas e étnicas) bem como outros países menos relevantes geo-estrategicamente no mundo de hoje. Países que utilizam a política económica como estratégia de chantagem política. E mesmo que não o façam, os blocos não podem interagir ou fazer acordos com outros blocos e países cujos princípios e valores são radicalmente opostos. Países que não respeitem os valores defendidos pela ONU não podem interagir com o bloco Europeu. Nem os seus cidadãos e suas empresas.
Portanto, a forma como vemos o mundo, mudou. Passou da globalização á blocalização em vários blocos bem definidos e mais um de não alinhados. A europeização (ou transnacionalidade) e as alianças estratégicas é um deles. O mundo tornou-se mais pequeno, muito por força da pandemia de Covid, da invasão da Ucrânia, da tensão no estreito de Taiwan, da loucura nuclear da Coreia do Sul, da chantagem de produção e preços do barril de petróleo, da especulação em torno de commodities alimentares e pela menoridade de alguns ditadores. Mas também pelo facto da civilização não os ter impedido de coexistir num mundo global. É uma nova “guerra fria” sim, mas para defesa do nosso modo de vida. Voltaire já dizia “o senso comum não é tão comum assim” e para ser global tinha de ser comum e um valor valioso para todos!
Daí a importância da reindustrialização da Europa na indústria pesada bem como no fabrico que exportou para a Ásia. Mas manter sempre a aposta na inovação e desenvolvimento como factor distintivo do restantes blocos. Inovação essa que se reflecte no pedido de patentes anualmente. A I&D serve para autonomizar os blocos e dinamizar as economias. E quando olhamos para o pedido de patentes dos 30 mais relevantes países (por milhão de habitantes) em 2022, concluímos que: o bloco Europeu representou 80% das 5.461 patentes pedidas; o bloco Asiático (Coreia do sul, Austrália, NZ, Japão) cerca de 10%; os Anglófonos (EUA, UK, Canadá, etc) apenas 8%; a China e países de influência cerca de 2%; a África 0% (fonte IEP 2022).
Em conclusão e a verificar-se a minha visão futura do mundo blocal, o futuro estará na Europa que apenas tem de se autonomizar em termos da produção energética (com a economia verde), reindustrializar a Europa em termos de bens essenciais e inovar para não ficar dependente das commodities que vêm de outros blocos, como o Africano ou dos não alinhados.
Talvez seja bom relembrar a célebre frase de Hemingway que confirma esta minha visão do mundo: “E quem estará ao meu lado nas trincheiras? E isso interessa? Mais do que a própria guerra”!



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