A Iniciativa Liberal admitiu, mais de 20 dias depois, a existência de duas queixas internas de assédio no partido, após ter omitido deliberadamente essa informação durante a fase final da campanha para a primeira volta das eleições presidenciais. A direção liberal reconheceu agora os casos num comunicado, mas sem fornecer detalhes relevantes, procurando desvalorizá-los e sublinhando que não visam João Cotrim de Figueiredo, segundo o ‘Observador’.
Durante a campanha, quando Cotrim Figueiredo ainda era candidato, a direção da IL e vários dirigentes foram questionados repetidamente por jornalistas sobre a existência de outras denúncias, além das que envolviam o antigo líder liberal. Em todas as ocasiões, optaram por negar ou omitir a existência de quaisquer casos, mesmo quando a pergunta foi colocada de forma direta.
A cronologia revela que a direção do partido tinha conhecimento de pelo menos uma queixa envolvendo Inês Bichão desde os primeiros dias da polémica. A 13 de janeiro, um dia depois de uma publicação da antiga assessora ter sido tornada pública, Cotrim Figueiredo foi confrontado com o facto de as denúncias de assédio circularem internamente há cerca de dois anos, respondendo que nunca lhe teria sido comunicado qualquer caso.
Nesse mesmo dia, após contactos do ‘Observador’ e de outros órgãos de comunicação social, a Iniciativa Liberal emitiu uma resposta oficial em que rejeitava o tema, afirmando que não iria “alimentar uma campanha suja” em contexto eleitoral. Poucas horas depois, uma carta assinada por 30 mulheres em defesa de Cotrim Figueiredo foi tornada pública, sublinhando, ainda assim, que situações dessa natureza deveriam ser analisadas com seriedade e justiça. Pelo menos uma dirigente da Comissão Executiva, que já tinha sido confrontada com queixas internas, subscreveu a missiva.
Ataques à comunicação social e omissões internas
No dia seguinte, Mariana Leitão, atual líder do partido, atacou publicamente os jornalistas num comício no Porto, acusando a comunicação social de tratar como factos matérias graves “sem denúncias ou provas”. À data, a dirigente sabia da existência de duas queixas internas, uma das quais apresentada por Inês Bichão, ainda que não dirigida contra Cotrim Figueiredo, mas optou por não esclarecer a situação.
A 15 de janeiro, Inês Bichão emitiu um comunicado público sobre o caso. Nesse mesmo dia, Cotrim Figueiredo admitiu publicamente a possibilidade de existirem queixas internas, embora reiterando que não eram dirigidas a si. Pouco depois, a Iniciativa Liberal divulgou um comunicado a garantir que nunca tinha existido qualquer queixa, formal ou informal, contra o candidato presidencial, voltando a omitir a existência de denúncias relativas a outros dirigentes.
Também Rui Rocha, ex-presidente da IL, interveio publicamente, afirmando nunca ter recebido qualquer queixa relacionada com Cotrim Figueiredo durante o seu mandato. Tal como a atual direção, não fez qualquer referência a outras denúncias internas, apesar de uma delas envolver Inês Bichão e remontar, segundo a própria, a 2023.
Questionada diretamente pelo ‘Observador’ sobre a existência de queixas relativas a outros membros do partido, a direção liberal respondeu apenas que o assunto deveria ser tratado em tribunal, acusando os envolvidos de participarem numa “campanha coordenada de difamação”. A resposta evitou, mais uma vez, esclarecer se existiam denúncias que não envolvessem Cotrim Figueiredo.
Admissão tardia e versão oficial da IL
Só quase três semanas depois a Iniciativa Liberal veio admitir formalmente que, “desde a sua fundação”, foi confrontada por duas situações dessa natureza. No comunicado, a direção explica que a primeira originou um processo formal, entretanto arquivado, sem esclarecer as razões dessa decisão. Quanto ao segundo caso, afirma que a denúncia não identificava factos nem apresentava evidências e que, apesar das tentativas de contacto, a autora não terá dado seguimento ao processo.
Segundo a versão oficial, foi ainda realizada uma averiguação independente, com recurso a “suporte jurídico externo”, que concluiu não existirem provas da veracidade da situação relatada. A IL não esclarece, contudo, como foi garantida essa independência nem que tipo de apoio jurídico foi utilizado. O Observador identifica este segundo caso como sendo a denúncia apresentada por Inês Bichão.
Paralelamente, a Iniciativa Liberal anunciou a nomeação do advogado Paulo Saragoça da Matta para avançar judicialmente, numa iniciativa que surge após Inês Bichão ter afirmado que os factos foram reportados internamente em 2023. O partido insiste que foi alvo de “suspeitas infundadas e danosas” e admite avançar com ações judiciais contra quem considera responsável pela divulgação do caso.













