Igualdade de género ou meritocracia?

Opinião de Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Executive Digest

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Confesso que não sou um fã das quotas de género, nomeadamente na política e nas empresas. Julgo que inevitavelmente as mulheres, por força das suas características e competências, vão-se “impôr” e atingir este objectivo de forma natural. O risco, bastante elevado diga-se, é de forçar este momento com quotas e desrespeitar as mulheres ao colocá-las nas funções apenas para “decoração”. E ninguém (homem ou mulher) merece isso. Como entendo que será inevitável que as mulheres serão maioritariamente as decisoras e gestoras (basta olhar para as universidades) entendo que a igualdade vai-se colocar ao inverso, no médio prazo. Mas em algumas áreas, nomeadamente na justiça, isso já acontece. 70% das juízas são mulheres. E são-no por mérito próprio, pois as faculdades de direito têm maioritariamente alunas e o bastante exigente CEJ (centro de estudos judiciários) verifica a entrada de mais potenciais juízas. Vemos mulheres extremamente competentes em tudo o que fazem. Mas então não é isso que acontece na política e nas empresas? Não é o decurso normal da sociedade que já foi uma sociedade masculina? Pelos vistos não. Fiquei surpreendido com os argumentos que o poder judiciário utiliza para justificar este desiquilibrio, nomeadamente nas palavras da Presidente da Associação das Juízas Portuguesas:



-“Uma discrepância estatística não é uma desigualdade. O facto de ela existir não signica que os homens tenham alguma desvantagem

no acesso à magistratura”. Então mas se isso é verdade na justiça, também não o é na política e nas empresas?

Mas a justificação da juíza a esta dúvida é verdadeiramente surpreendente pois “recorda que há diferenças entre a classe política e a dos magistrados que faz com que a lei da paridade se destine a uns e não a outros: os segundos entram na profissão exclusivamente por mérito”. Ou seja na magistratura o mérito é o critério, na política (e nas empresas) pode-se inferir (a conclusão é minha) que não. O “tachismo” existe. Portanto um incompetente pode gerir o país mas nunca um tribunal. 

Confesso que apenas confirmou a minha opinião que não devem existir quotas. 

Não existem de facto, neste momento, evidências incontestáveis de que o género dos juízes seja um factor que influencia a forma como decidem. Porém, a manter-se este cenário, corre-se o risco de se ter “uma justiça de mulheres sobre homens”, pois a maioria dos arguidos são do sexo masculino. 

O mesmo pode acontecer na política e nas empresas, por isso se criaram as quotas, para que estas reflictam aquilo que é a sociedade. Que todos os pontos de vista e posições estejam devidamente integradas nestas organizações. Mas pelos vistos isso deve acontecer em todas as áreas da sociedade menos na magistratura. Pois na magistratura existe meritocracia, o que não acontece no resto da sociedade… mais uma vez o corporativismo a funcionar, muito parecido com o corporativismo totalitário de Platão com base nas classes. A magistratura deve ser uma elite social que não segue as regras da nossa sociedade?

Até concordo com a posição de não existirem quotas; mas em todas as áreas, não apenas na política e nas empresas. E se existirem, as mulheres que o exigiram, têm que aceitar que os homens também o exijam na situação contrária. 

Como diria John Kennedy, “Todos temos talentos diferentes, mas todos gostaríamos de ter iguais oportunidades para desenvolver os nossos talentos.” Como? Através da equidade, não discriminação e da justiça social; a sociedade sempre encontra o seu caminho.

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