A Europa está a assistir ao surgimento de um ecossistema de inovação militar cada vez mais comparado a um verdadeiro “Silicon Valley da defesa”. De acordo com um relatório do Goldman Sachs citado pelo ‘El Economista’, o Velho Continente conta atualmente com mais de 380 startups dedicadas a tecnologias militares avançadas, numa nova vaga de inovação que está a transformar o setor da Defesa.
Segundo a publicação espanhola, estas empresas estão concentradas sobretudo em áreas como inteligência artificial, drones, sistemas autónomos e guerra eletrónica, tecnologias consideradas críticas para os conflitos modernos. O crescimento tem sido particularmente acelerado na última década: o investimento passou de apenas 2 milhões de dólares (cerca de 1,8 milhões de euros) em 2016 para cerca de 1,1 mil milhões de dólares (aproximadamente 1,02 mil milhões de euros) em 2025.
Este salto representa um aumento de cerca de 500 vezes no financiamento destinado a startups de defesa, refletindo uma mudança profunda nas prioridades estratégicas e tecnológicas da Europa.
Guerra na Ucrânia acelerou inovação militar
O relatório citado pelo ‘El Economista’ sublinha que a guerra na Ucrânia e o agravamento das tensões geopolíticas aceleraram a necessidade de inovação tecnológica no setor militar. Muitos Governos e forças armadas consideram que os tradicionais ciclos de aquisição de equipamentos são demasiado lentos para responder às exigências operacionais atuais.
Neste contexto, as startups ganharam protagonismo. Ao contrário das grandes empresas tradicionais de defesa, estas pequenas empresas conseguem desenvolver soluções tecnológicas com maior rapidez, permitindo às forças armadas integrar novas capacidades de forma mais ágil.
Gigantes do setor, como Safran, Rheinmetall e Saab, já começaram a estabelecer parcerias ou a adquirir startups para incorporar rapidamente tecnologias emergentes, como sistemas de inteligência artificial, sensores avançados e plataformas autónomas.
Capital de risco impulsiona novo ecossistema
Grande parte do financiamento destas empresas provém de fundos de capital de risco e de private equity, embora investidores estratégicos e fundos públicos estejam também a assumir um papel crescente no desenvolvimento deste novo ecossistema tecnológico.
Ainda assim, o relatório citado pelo ‘El Economista’ aponta vários desafios à consolidação deste “Silicon Valley europeu da defesa”. Entre os principais obstáculos estão a fragmentação dos mercados europeus e a complexidade dos processos de contratação pública, que podem dificultar a rápida expansão destas tecnologias.
Outro aspeto central desta transformação é a crescente importância do software e da análise de dados no setor militar. Mais de 60% do investimento destina-se atualmente a sistemas de inteligência, vigilância e reconhecimento, conhecidos como tecnologias ISR, que permitem recolher e processar grandes volumes de informação no campo de batalha.
Startups não substituem gigantes da defesa
Apesar da rápida ascensão das startups, os especialistas do Goldman Sachs consideram improvável que estas venham a substituir as grandes empresas tradicionais do setor.
Segundo a análise citada pelo ‘El Economista’, os grandes grupos industriais continuam a ter vantagens estruturais na conceção, produção, certificação e manutenção de plataformas militares complexas, como aviões de combate, navios ou sistemas de armamento pesado.
No entanto, as startups destacam-se em áreas dominadas pelo software, como a fusão de dados, as redes digitais, a autonomia dos sistemas e os ciclos rápidos de atualização tecnológica. Nestes domínios, conseguem inovar e adaptar-se muito mais rapidamente do que os grandes fabricantes.
Por isso, o cenário mais provável para o futuro do setor passa por uma integração cada vez maior entre startups e grandes empresas, criando parcerias tecnológicas que permitam acelerar a inovação e reforçar a competitividade europeia face ao modelo tecnológico militar dos EUA.













