IA, Demografia e Talento: O triplo desafio do Mercado Laboral

Opinião de Raul Neto, CEO da Randstad Portugal

Executive Digest
Janeiro 2, 2026
14:56

Estamos a chegar ao fim do ano de 2025 e é normal que, nas organizações, se faça uma avaliação dos aspetos mais marcantes do ano e se definam as prioridades para o ano seguinte, considerando os principais desafios identificados. E um tema destacou-se claramente: inteligência artificial.

A palavra Agente, de agente de Inteligência Artificial (IA), figurou na short-list da Porto Editora como candidata a “Palavra do ano 2025”. O facto é ilustrador da centralidade que a IA ganhou nas nossas vidas, em particular no mundo do trabalho. O último Barómetro da Executive Digest revelou que a maioria dos líderes empresariais preveem investir mais em IA no próximo ano, no sentido de acelerar a transformação tecnológica das organizações.

O VERDADEIRO MOTOR DO CRESCIMENTO SÃO AS PESSOAS E AS COMPETÊNCIAS

Quando há menos de uma década se perspetivava o futuro do trabalho, o rápido avanço da robotização e da IA eram vistos como uma ameaça. Basta recordar a visita do robot Sophia em 2017, anunciando que ia roubar os nossos empregos.

Chegados a 2025, o mercado laboral português mostra-nos outra realidade. A taxa de desemprego regista de forma consistente valores historicamente baixos, em torno dos 6%, a população ativa bate recordes e o emprego tem vindo sempre a crescer de forma continuada.

Ao contrário dos maiores receios, o mercado de trabalho em Portugal está a crescer, mas esse crescimento é limitado pela falta de recursos humanos disponíveis. A escassez que hoje enfrentamos não resulta de estarmos perante ciclos económicos favoráveis. É maioritariamente uma consequência direta de três movimentos estruturais que se acentuaram em 2025.

O primeiro é demográfico. Por cada 10 profissionais que saem para a reforma, entram menos de sete jovens no mercado de trabalho. Portugal é hoje uma das sociedades mais envelhecidas da Europa, e esta pressão traduz-se na diminuição da “reserva de inativos” com potencial para trabalhar.

O segundo é comportamental e geracional. As novas gerações permanecem cada vez menos tempo nas organizações e procuram experiências de carreira rápidas, horizontais e alinhadas com os seus valores. O relatório da Randstad sobre a Geração Z mostrou que um jovem permanece, em média, apenas 1,1 anos num emprego.

O terceiro é um movimento cultural. 2025 foi o ano em que o equilíbrio entre vida pessoal e profissional superou o salário como principal critério na escolha de um emprego. Como mostrou o Workmonitor 2025 da Randstad, a flexibilidade, a pertença e a segurança no emprego tornaram-se fatores decisivos num mercado onde os profissionais sabem que têm alternativas.

A URGÊNCIA DA QUALIFICAÇÃO E REQUALIFICAÇÃO

Quer então dizer que nos equivocamos nos receios sobre o impacto da IA? Não necessariamente. Somente a transformação tecnológica está a expor fragilidades profundas na nossa capacidade de preparar a força de trabalho para o futuro.

A revolução digital, a automação e agora a inteligência artificial, que evoluem num ritmo exponencialmente mais acelerado, impõe a exigência de qualificar e requalificar massivamente os colaboradores. O upskilling e o reskilling deixaram de ser um benefício opcional e tornaram-se pilares estratégicos da competitividade.

De acordo com o Workmonitor 2025 da Randstad, 44% dos trabalhadores não aceitariam um emprego sem oportunidades de desenvolvimento de competências, e 41% estariam dispostos a sair da empresa caso não tivessem acesso a programas de formação.

Em simultâneo, muitos setores estão a sofrer transformações tão profundas que as competências de ontem já não servem para os empregos de amanhã. E se é certo que, como em todas as revoluções, veremos algumas funções que irão desaparecer, mas que outras serão criadas, e só podemos concluir que a tecnologia não destrói o trabalho, mas somente o transforma! E isso exige uma atualização constante dos trabalhadores, mesmo entre os mais qualificados.

TALENTO QUE O PAÍS NÃO PODE DESPERDIÇAR

O desfasamento existente entre as competências disponíveis e as competências necessárias é um problema real, mas não podemos sonegar uma outra evidência: temos um problema de falta de pessoas.

O retrato demográfico do país não deixa margem para dúvidas. Portugal é hoje o 2.º país mais envelhecido da União Europeia, com 38% da população acima dos 55 anos, valor que poderá atingir 46% já em 2050.

Neste contexto, o talento sénior deixa de ser apenas uma questão de inclusão e torna-se um ativo estratégico que as empresas não podem ignorar. É muito importante para manter a competitividade a longo prazo, a valorização dos trabalhadores com mais de 55 anos, com políticas de formação, requalificação, flexibilidade e aprendizagem intergeracional.

A segunda âncora estrutural para enfrentar a escassez de profissionais é a imigração, e aqui o estudo da Randstad “Mitos e Realidades sobre a Migração e o Mercado de Trabalho” é claro: como já acontecia noutros países europeus, Portugal depende hoje criticamente dos trabalhadores estrangeiros.

A população imigrante triplicou em 10 anos, superando um milhão de residentes. E este crescimento não é apenas demográfico, é funcional. Os estrangeiros ocupam maioritariamente setores onde a escassez de profissionais é mais severa, como a agricultura ou a hotelaria, desempenhando funções que muitos portugueses já não procuram.

Do ponto de vista económico, o contributo dos trabalhadores migrantes é inequívoco. Em 2024, os imigrantes geraram um saldo líquido positivo de 2.958 milhões de euros para a Segurança Social. O estudo da Randstad também clarifica uma perceção errada. Os imigrantes não são menos qualificados: 31,6% têm ensino superior, acima da média europeia, mas muitos estão colocados em funções abaixo das suas competências devido a barreiras de integração e reconhecimento das suas qualificações.

O FUTURO DO TRABALHO É HOJE

É neste contexto que discutimos a reforma laboral em curso, ainda sem conhecer qual será o seu desenho final. A proposta do Governo “Trabalho XXI” é extensa nas alterações previstas na legislação laboral, mas poderá ser exígua para lidar com os desafios do “futuro”, que já são os desafios do presente.

O futuro do trabalho não é um cenário longínquo. Está aqui, já chegou, e exige escolhas estratégicas. A reforma laboral só será eficaz se partir desta evidência simples: não estamos a tentar antecipar o futuro, estamos a tentar responder ao presente. E o presente pede políticas corajosas, que incentivem a flexibilidade e a modularidade, capazes de sustentar um mercado de trabalho que hoje cresce, sim, mas que só continuará a crescer se conseguirmos garantir aquilo que mais falta nos faz: pessoas e competências.

Nota: O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 237 de Dezembro de 2025

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