Por Rodrigo Silva, Sector Lead – Defesa Segurança e Mar, Esri Portugal
Nos últimos anos, a inteligência geoespacial (GEOINT) deixou de ser apenas uma ferramenta técnica para se tornar num pilar estratégico na segurança e defesa global. Trata-se de uma disciplina que vai muito além da criação de mapas digitais: combina satélites, drones, sensores remotos, inteligência artificial e a análise crítica de dados para transformar informação em conhecimento para a ação.
Vivemos numa era em que a velocidade e a qualidade da informação definem a capacidade de resposta de governos, empresas e organizações regionais e mundiais. O GEOINT, ao integrar dados provenientes de múltiplas fontes — de imagens de satélite a publicações em redes sociais —, permite compreender fenómenos complexos e antecipar cenários. É por isso que este setor tem crescido rapidamente. De acordo com a Fortune Business Insights, o mercado global de análise de imagens geoespaciais foi avaliado em 10,93 mil milhões de euros em 2022 e deverá atingir 101,0 mil milhões de euros até 2030, com uma taxa anual de crescimento composta (CAGR) de 32,1 %
No entanto, é importante compreender que o GEOINT não é apenas tecnologia e software. É também uma forma de pensamento crítico. Os profissionais desta área não se limitam a processar dados: eles analisam padrões, avaliam hipóteses, fazem previsões e apresentam conclusões que podem influenciar decisões de grande impacto político, militar ou social. É aqui que a ética assume um papel crucial. Muitas ferramentas SIG já incorporam funcionalidades que reforçam a transparência e a rastreabilidade dos dados, mas cabe aos analistas garantir que as informações sejam usadas de forma justa, respeitando direitos individuais e evitando abusos.
A guerra na Ucrânia trouxe o GEOINT para o centro do debate público. Desde a invasão russa, imagens de satélite e dados de drones têm sido decisivos não apenas no campo militar, mas também na diplomacia e na formação da opinião pública. Empresas como a Maxar Technologies e a Planet Labs revelaram movimentações estratégicas de tropas antes mesmo do início dos combates, permitindo respostas mais rápidas por parte das forças ucranianas e dos aliados ocidentais. Essa utilização da informação geoespacial transformou a perceção da guerra moderna, onde a geografia digital se tornou uma arma tão poderosa quanto os tanques e os drones.
Mais do que apoiar operações militares, o GEOINT desempenhou um papel vital na chamada guerra da informação. A NATO e organizações independentes, como a Bellingcat, usaram ferramentas geoespaciais, para provar os ataques a civis e os crimes de guerra, como foi o caso de Bucha, na Ucrânia, cruzando imagens de satélite com conteúdos partilhados nas redes sociais. Essa capacidade de produzir provas verificáveis fortaleceu a narrativa internacional de apoio à Ucrânia e desafiou a propaganda russa, mostrando como geodados objetivos podem moldar as políticas globais.
Esta experiência também evidenciou o papel dos drones e de sensores em tempo real. Os UAVs (Unmanned Aerial Vehicles) foram usados para identificar alvos estratégicos, mas também para monitorizar corredores humanitários e avaliar a destruição de áreas civis. A combinação destes dados, integrados em plataformas SIG, permitiu coordenar evacuações e operações humanitárias com maior precisão. É factual que informação geoespacial não é apenas relevante para militares: ela salva-vidas quando aplicada à proteção de comunidades em risco.
Apesar dos avanços, ainda existem desafios. Muitos países enfrentam custos elevados de investimento, falta de estandardização de dados e escassez de profissionais qualificados. Não basta investir em tecnologia: é essencial apostar na formação e criar políticas públicas que equilibrem inovação e impacto social. O GEOINT só alcançará o seu potencial máximo se houver indivíduos capacitados para transformar dados complexos em decisões que aumentem a resiliência das sociedades e a eficácia das instituições.
A guerra na Ucrânia demonstrou que, na era da informação, quem controla os dados controla o futuro. Investir em GEOINT, com apoio de plataformas de Informação Geográfica, não é apenas uma opção tecnológica. É uma questão de soberania, segurança e justiça. Os países que compreenderem isto estarão mais bem preparados para enfrentar desastres naturais, ameaças globais e crises geopolíticas num mundo em constante transformação.




