Os elevados níveis de contaminação por nitratos no rio Lima, devido ao despejo de resíduos das produções industriais agro-pecuárias e agrícolas na zona de Galiza, estão a ter impactos no troço português do rio, avança o jornal espanhol “Público”, que teve acesso a um documento do Ministério da Transição Ecológica (MTE) de Espanha, que o assume.
Trata-se de uma «contaminação que se exporta para Portugal», escreve o jornal, apontando que as autoridades espanholas têm «tolerado um crescimento desordenado e louco» do sector agro-alimentar e como a Convenção de Albufeira, que procura mediar os caudais dos rios que Espanha e Portugal dividem e regular a qualidade das suas águas, não tem conseguido atingir os objectivos na origem da sua criação.
Na semana passada, o MTE espanhol publicou um decreto com uma revisão da regulamentação do sector suíno, que impõe condições técnicas e documentais às quintas de produção intensiva. Esta posição surge na sequência da divulgação de um documento da Confederação Hidrográfica do Minho-Sil, tutelada pelo MTE, que concluiu, com base em dados de um estudo de 2018, que «os nitratos presentes no Lima são consequência da aplicação de purinas de origem animal no terreno e que, por filtração, a contaminação chega aos caudais». «São especialmente as actividades agro-pecuárias na zona do Lima e do Minho-Alto as que maior impacto produzem» acrescentou, recomendando que a massa de água da barragem de As Conchas, na Galiza, seja declarada como «afectada por nitratos de origem agrária».
Aquele entidade admite também que a situação está a provocar eutrofização, ou seja, o crescimento excessivo de plantas aquáticas que perturbam o ecossistema, afectando a biodiversidade e a qualidade da água, assim como a proliferação de cianobactérias, microorganismos aquáticos «potencialmente problemáticos pela possibilidade de que se gerem toxinas que as tornem perigosos».
Por outro lado, os produtores pecuários estão preocupados com os encargos que possam vir a ter no futuro. Um elemento do Movimento Ecologista Galego, Manuel García, está a ser processado por uma das grandes empresas agro-pecuárias de Galiza, depois de ter denunciado a situação na televisão. A empresa quer agora um milhão de euros de indemnização.
Mas a situação não é recente. O “Público” recorda que, em 2014, a Sociedade Galega de História Natural (SGHN) chegou a conclusões idênticas e já dava conta de que existiam «depósitos de mais de 600 toneladas de resíduos numa parcela de apenas dois hectares». Na altura, atribuiu a situação à «má gestão dos resíduos orgânicos das quintas industriais», aos «níveis mais altos de contaminação» por nitratos já detectados na zona e à eutrofização e presença de cianobactérias na barragem de As Conchas.
A SGHN avançava que a descarga de resíduos estava a aumentar desde 1989, produzindo níveis de contaminação que «equivalem aos de uma população de 1.400.000-1.600.000 pessoas», ou seja, «metade de toda a população da Galiza concentrada em apenas 1% da sua superfície».










