Fidelidade: Antecipar para proteger

O ESG está a ganhar peso nas decisões de investimento, subscrição e gestão do risco. Na Fidelidade, a sustentabilidade é encarada como uma ferramenta de transformação do negócio e de preparação para um contexto de maior incerteza climática

Executive Digest

A decrescente frequência de fenómenos climáticos extremos, a pressão para cumprir metas de descarbonização e a evolução do enquadramento regulatório estão a transformar o sector segurador. Neste contexto, os critérios ESG assumem um papel cada vez mais relevante na avaliação do risco, nos investimentos e na subscrição.

João Mestre, director de Sustentabilidade da Fidelidade, e Rui Esteves, director geral técnico da Fidelidade e co-coordenador do Impact Center for Climate Change (ICCC), explicam como a seguradora está a integrar estes desafios na sua actividade e de que forma o ESG está a influenciar decisões concretas de negócio.

O ESG passou, nos últimos anos, de compromisso estratégico para critério operacional. Onde sente que essa mudança é hoje mais visível dentro da Fidelidade?

João Mestre (JM): A mudança é hoje mais visível nas áreas em que a sustentabilidade passou a influenciar decisões concretas de negócio, e não apenas o posicionamento institucional. Essa evolução observa-se sobretudo nas três dimensões que estruturam o nosso plano de transição climática: operações, investimentos e subscrição.

O ESG está a entrar em processos como a avaliação de risco, o desenvolvimento de produtos e o reporte. Um exemplo concreto é o Fidelidade Drive, que incentiva uma condução mais segura e eficiente. Na gestão dos portefólios de ações e obrigações integrámos critérios ESG, incluindo objectivos de redução da intensidade carbónica, e na gestão do portefólio imobiliário esse compromisso traduz-se na melhoria da eficiência energética e na obtenção de certificações ESG como BREEAM ou LEED.

Continue a ler após a publicidade

Estas acções são coerentes com a ambição pública do Grupo de reduzir emissões ao longo de toda a cadeia de valor e de alcançar a neutralidade carbónica até 2050.

Que áreas do negócio sentiram maior transformação prática com a integração de critérios ESG: investimento, subscrição, operações ou relação com clientes?

JM: A transformação mais estrutural está nos investimentos e na subscrição, porque é aí que se concentra a actividade core do nosso Grupo e onde temos maior capacidade de influência e responsabilidade, nomeadamente na redução da pegada de carbono dos dois portefólios. Nas operações, a mudança é mais directa e controlável, pela actuação sobre edifícios, energia, frota e viagens. A relação com clientes está também a evoluir, embora numa lógica mais progressiva e de construção conjunta.

Continue a ler após a publicidade

No domínio dos investimentos, destaca-se a integração formal de critérios ESG na análise e na tomada de decisão, conforme definido na nossa Política de Investimento Sustentável, que estabeleceu, entre outras medidas, a aplicação de exclusões e limites de exposição a sectores mais controversos ou intensivos em carbono, bem como a análise de riscos de sustentabilidade ao nível dos activos.

A Fidelidade identifica a mitigação e adaptação às alterações climáticas como temas estratégicos. De que forma a crescente frequência de fenómenos climáticos extremos já está a influenciar decisões concretas de pricing, subscrição ou desenvolvimento de produtos?

Rui Esteves (RE): A crescente frequência de fenómenos climáticos extremos já está a influenciar decrescente mucisões concretas na Fidelidade em qualquer um desses três tópicos.

Esse contexto traz dois níveis de desafios: incorporar de forma mais rigorosa a situação actual dos riscos físicos relacionados com eventos meteorológicos e introduzir nas modelações dos comportamentos desses riscos os cenários das alterações climáticas, obtendo-se assim o que poderemos esperar em vários prazos. O primeiro desafio é consequência de já estarmos a observar um peso maior das perdas relacionadas com eventos extremos e o segundo desafio resulta de sabermos que o futuro irá ser diferente do passado, mesmo do mais recente.

No pricing, há uma evolução para modelos mais sensíveis ao risco climático, incorporando, em seguros patrimoniais, informação mais detalhada sobre o comportamento do risco nos diversos locais, por exemplo, para inundações e incêndios. Isto permite maior diferenciação tarifária e alinhamento com a variabilidade crescente dos eventos extremos, tornando os preços mais ajustados ao risco real.

Continue a ler após a publicidade

Na subscrição e na gestão de carteira, observa-se um reforço significativo da selectividade e do controlo técnico. Questionários de risco mais detalhados e a recolha de informação adicional permitem uma aceitação mais selectiva e uma melhor avaliação da exposição e das vulnerabilidades a eventos extremos. O caminho será automatizar o cruzamento de informação dos locais que estão a ser propostos para contratação de seguro com camadas de informação sobre risco e assim ter resultados mais imediatos para facilitar as decisões de subscrição.

Ao nível do desenvolvimento de produto, a resposta passará por adaptar a oferta a um contexto de risco crescente, incluindo soluções que promovem comportamentos mais resilientes e decisões que conduzam à redução das vulnerabilidades. É importante ter em consideração que os produtos disponibilizados já garantem as consequências dos eventos meteorológicos mais extremos, o que nos coloca num bom ponto de partida, mas há ainda que desenvolver ofertas que facilitem a redução de um protection gap muito elevado.

Quando mais de 95% das emissões dependem de entidades externas, até que ponto conseguem realmente controlar o próprio percurso Net Zero?

JM: Num grupo segurador, a maior parte das emissões está associada a investimentos, clientes, activos segurados e cadeia de valor, pelo que o controlo é necessariamente indirecto em muitas dimensões. O percurso para a neutralidade carbónica não se faz apenas por controlo directo, mas sobretudo pela capacidade de inf luência, pelos critérios de selecção que aplicamos, pelo engagement com contrapartes e pelo apoio à transição. A ambição do Grupo assenta em metas públicas para operações, investimentos e subscrição, precisamente para ref lectir essa responsabilidade ao longo da cadeia de valor.

Ao nível dos seguros, conseguimos orientar comportamentos através da introdução de incentivos à adopção de práticas mais sustentáveis. O Fidelidade Drive é disso exemplo: recompensa quem conduz de forma mais responsável, o que se traduz numa menor pegada de carbono. Nos investimentos, temos privilegiado activos verdes, como imóveis com as melhores certificações de sustentabilidade (LEED e BREEAM) ou green bonds.

A pressão para cumprir metas Net Zero pode levar, no futuro, a mudanças mais exigentes na política de subscrição e investimento?

JM: A Fidelidade definiu metas explícitas de Net Zero também para a subscrição, com objectivos intermédios de redução da intensidade de emissões na carteira segurada. Isto implica que a subscrição deixa de ser neutra face ao perfil climático dos clientes e passa a ser um instrumento activo de transição.

Na prática, essa pressão tende a traduzir-se, ao longo do tempo, em políticas mais exigentes, nomeadamente através da integração sistemática de critérios ESG na avaliação de risco, com classificação dos clientes segundo o seu impacto ambiental e eventual escalonamento de decisões para níveis superiores de aprovação. Verifica-se também uma utilização crescente de ESG scoring e de informação sobre as emissões dos clientes nos processos de aceitação e renovação de riscos, bem como uma potencial evolução para exclusões ou restrições em sectores mais intensivos em carbono, uma tendência já observada na área dos investimentos e que poderá, progressivamente, estender-se à subscrição.

Mais do que uma ruptura, o movimento é de reforço gradual da exigência, combinando influência sobre clientes, incentivos à transição e selectividade acrescida, de forma a alinhar a carteira segurada com a trajectória Net Zero, sem comprometer a sustentabilidade comercial.

O engagement com empresas participadas e clientes já está a traduzir-se em mudanças mensuráveis ou continua a ser sobretudo um trabalho de sensibilização?

JM: Esta é uma área ainda em desenvolvimento, tanto na Fidelidade como no sector. O nosso foco tem sido posicionar a Fidelidade como parceiro na transição, apoiando clientes e participadas com soluções de prevenção, adaptação e conhecimento, em que o ICCC é um exemplo claro. Nos investimentos, o engagement foi identificado como uma das potenciais alavancas assumidas no plano de transição para apoiar a descarbonização da carteira.

Trata-se, em síntese, de um processo em evolução, em que a prioridade é avançar de forma responsável, assegurando uma transição justa, sem comprometer a inclusão e a protecção dos clientes.

A formação em sustentabilidade está a mudar apenas o conhecimento interno ou já está a influenciar decisões concretas de negócio?

JM: O objectivo da formação não é apenas aumentar conhecimento, mas apoiar melhores decisões de negócio. Em 2025, promovemos formação específica em estratégia de sustentabilidade dirigida à Comissão Executiva e aos Executives, com foco na compreensão dos desafios, riscos e oportunidades ESG e na construção de resiliência de longo prazo. Foi uma iniciativa particularmente relevante por alinhar a liderança e acelerar a transformação interna, assegurando que a sustentabilidade é entendida não como um tema técnico, mas como um factor efectivo de orientação estratégica e de tomada de decisão ao mais alto nível.

Em paralelo, todos os colaboradores do Grupo recebem formação em sustentabilidade, complementada com formações específicas nas áreas de expertise mais relevantes para a sua actividade. Acreditamos que esta aposta está já a contribuir para transformar conhecimento em decisão, reforçando a capacidade do Grupo de integrar a sustentabilidade de forma cada vez mais consistente e informada no seu negócio.

Os reconhecimentos e ratings internacionais reforçam a credibilidade da estratégia ESG da Fidelidade, mas também aumentam o escrutínio. Que desafios e responsabilidades acrescidas resultam dessa exposição?

JM: Os reconhecimentos são consequência do trabalho que é feito, e não um fim em si. Reforçam a credibilidade, mas elevam também a exigência de consistência entre ambição, execução e reporte. Maior visibilidade implica mais escrutínio sobre metodologias, perímetros, dados, progresso e coerência da comunicação, o que exige prudência na linguagem e rigor na demonstração de resultados.

Estes reconhecimentos têm sido valorizados pelos nossos stakeholders e funcionam como um sinal externo de credibilidade e de consistência na forma como integramos a sustentabilidade no negócio. Ao mesmo tempo, actuam como um incentivo adicional para continuar a evoluir: elevam o nível de exigência interna e reforçam o compromisso de fazer mais e melhor, com maior rigor e transparência.

Ao mesmo tempo, esses reconhecimentos actuam como um incentivo adicional para continuar a evoluir, elevando o nível de exigência interna e reforçando o compromisso de fazer mais e melhor, com maior rigor e transparência.

Como é que a Fidelidade está a equilibrar a necessidade de acelerar metas ESG com as exigências de competitividade e rentabilidade do negócio?

JM: Na Fidelidade não enquadramos sustentabilidade e rentabilidade como objectivos opostos, mas como dimensões que têm de ser geridas em conjunto. Integrar ESG é também uma forma de antecipar risco, proteger valor e preparar o negócio para mudanças económicas, regulatórias e sociais. Mais do que isso, a sustentabilidade representa uma enorme oportunidade de negócio para um Grupo como o nosso, e estamos proactivamente a desenvolver ofertas que procuram contribuir para os principais desafios da sociedade.

O foco incide nas áreas core do negócio – investimentos e subscrição –, evitando medidas sem impacto real ou de execução pouco realista. Existe um esforço deliberado de equilibrar ambição com a realidade dos mercados e dos clientes, ajustando o ritmo de integração ESG aos diferentes níveis de maturidade, sem comprometer competitividade ou o acesso à protecção.

De que forma temas como envelhecimento da população, longevidade ou inclusão financeira estão hoje a influenciar a estratégia ESG da Fidelidade?

JM: São temas estruturais para o negócio segurador e parte integrante da forma como a Fidelidade entende o seu papel social. A longevidade, em particular, surge como tema central na estratégia global do Grupo, agregando desafios tão diversos quanto o envelhecimento, a saúde, a literacia e a resiliência financeira.

A resposta tem passado pelo desenvolvimento de soluções diferenciadas por segmento, das quais destaco produtos orientados para a longevidade e a saúde, como a SOFIA, programas de promoção de estilos de vida saudáveis, como o Multicare Vitality, e iniciativas que reforçam a resiliência financeira dos clientes ao longo da vida, como o MySavings.

Na sua visão, que temas acredita que vão redefinir a agenda ESG no sector segurador nos próximos anos e onde sente que a Fidelidade quer assumir um papel mais activo?

JM: Identifico quatro temas que irão marcar a agenda: a adaptação às alterações climáticas, a natureza e os recursos, a longevidade, e o reforço da protecção financeira e da resiliência das pessoas e empresas num contexto de maior incerteza. No sector segurador, ganharão peso não só a mitigação, mas sobretudo a adaptação, a prevenção, a resiliência e a redução do protection gap.

A Fidelidade quer ter um papel activo nestas três frentes: como investidor responsável, como segurador que integra a sustentabilidade no core do negócio e como agente de conhecimento e sensibilização. A transformação terá de ser ambientalmente ambiciosa, mas também socialmente equilibrada e ajustada às realidades das diferentes geografias onde o Grupo opera.

Em mercados como Angola, onde o desafio principal ainda passa por alargar o acesso a protecção e a inclusão financeira, não faria sentido aplicar o mesmo grau de exigência que em mercados mais maduros como o Chile, onde já existem condições para avançar com maior rapidez na integração de critérios ESG e na descarbonização – sob pena de excluir clientes ou agravar desigualdades.

Este artigo faz parte do Caderno Especial “ESG”, publicado na edição de Junho (n.º 243) da Executive Digest.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.