Explicador: Quem é o príncipe herdeiro Reza Pahlavi, porque mobiliza protestos no Irão e que visão tem para o país?

Reza Pahlavi, herdeiro do antigo trono persa e filho do último xá do Irão, voltou a ganhar protagonismo internacional após apelos públicos que estiveram na origem de uma escalada recente de protestos em várias cidades iranianas.

Pedro Gonçalves
Janeiro 12, 2026
11:42

Reza Pahlavi, herdeiro do antigo trono persa e filho do último xá do Irão, voltou a ganhar protagonismo internacional após apelos públicos que estiveram na origem de uma escalada recente de protestos em várias cidades iranianas. Em exílio há quase cinco décadas, o antigo príncipe herdeiro afirma-se hoje como uma das figuras centrais da oposição ao regime da República Islâmica, defendendo uma transição pacífica para um sistema democrático e secular baseado na vontade popular.

Os protestos intensificaram-se esta semana depois de um apelo lançado por Reza Pahlavi, difundido por canais de televisão por satélite em língua persa e plataformas digitais no estrangeiro, que incentivou manifestações em todo o país contra o regime iraniano.

Nascido a 31 de outubro de 1960, Reza Pahlavi chegou ao mundo num momento de grande simbolismo nacional. A sua vinda foi celebrada com multidões que se estenderam por quilómetros entre o hospital e o palácio real, numa altura em que o então xá Mohammad Reza Pahlavi finalmente tinha um herdeiro masculino elegível, à luz da Constituição, para lhe suceder no trono.

O nascimento de Reza Pahlavi representou o culminar das expectativas do xá, após dois casamentos falhados, primeiro com a princesa Fawzia do Egipto e depois com Soraya Esfandiary. O terceiro casamento, com Farah Diba, deu-lhe o tão aguardado sucessor.

No entanto, o curso da história viria a alterar-se de forma irreversível. Em 1978, com apenas 17 anos, Reza Pahlavi deixou o Irão para frequentar uma escola de aviação militar nos Estados Unidos. Pouco depois, a Revolução Islâmica ganhou força, levando o seu pai a abandonar o país em 1979. Menos de um mês depois, o regime monárquico colapsou e o xá morreu no exílio menos de dois anos mais tarde.

O juramento do príncipe herdeiro após a queda da monarquia
Com a morte do último xá, a responsabilidade simbólica passou para o seu filho mais velho. No dia em que completou 21 anos, Reza Pahlavi declarou a sua “disponibilidade para aceitar as suas responsabilidades e compromissos como rei legal do Irão”. Contudo, face às circunstâncias do país, adiou o juramento constitucional até que, segundo afirmou, existissem condições legitimadas por “confirmação divina”.

Ainda assim, jurou “pela bandeira tricolor do Irão e pelo Corão” agir sempre como “um fator de coesão nacional”, marcando o início de um novo capítulo da sua vida no exílio, que se prolonga há mais de 45 anos.

Formação académica e ligação às forças armadas
Após deixar o Irão, Reza Pahlavi completou formação como piloto militar nos Estados Unidos, ficando habilitado a pilotar aviões de combate. Mais tarde, iniciou estudos em ciência política na Universidade de Massachusetts, interrompendo-os para estar com a família no Cairo durante a doença do pai. Viria a concluir a licenciatura por correspondência através da Universidade da Califórnia do Sul.

Numa entrevista posterior, revelou que durante a guerra Irão-Iraque escreveu, através da embaixada suíça no Cairo, aos chefes do Estado-Maior das Forças Armadas iranianas, oferecendo-se para servir como piloto de combate, num gesto que descreveu como um “dever nacional e patriótico”. A carta nunca obteve resposta.

A afirmação como figura central da oposição iraniana
Após a morte do último xá, Reza Pahlavi tornou-se a figura mais visível da oposição monárquica no exílio, chegando a afirmar que tinha criado um governo no exílio. Apesar de períodos de menor visibilidade política, nunca abandonou totalmente a arena pública.

Contrariamente às expectativas de muitos apoiantes monárquicos, tem sublinhado repetidamente que não procura necessariamente a restauração da monarquia. O seu objetivo declarado é a queda do regime atual e a realização de um referendo nacional que permita aos iranianos escolher livremente o seu sistema político. Esta posição provocou divisões entre os seus apoiantes, afastando tanto monárquicos tradicionais como setores mais radicais.

Ainda assim, a sua influência tem crescido, sobretudo entre uma população maioritariamente nascida após a queda do xá. Reza Pahlavi tornou-se um símbolo do período pré-Revolução Islâmica, num contexto em que o regime atual é criticado pelo fracasso em assegurar progresso económico e social sustentado. Comparações frequentes entre o desempenho económico do Irão sob a monarquia e sob a República Islâmica contribuíram para uma perceção mais favorável do filho do antigo xá.

Um vazio de liderança na oposição no exílio
Paralelamente, nenhuma outra figura ou grupo no estrangeiro conseguiu afirmar-se como alternativa credível ao regime iraniano. A organização mais estruturada fora do país, os Mojahedin-e Khalq, enfrenta forte rejeição popular devido à sua ideologia religiosa, à imposição do uso do hijab às mulheres e à colaboração com Saddam Hussein durante a guerra Irão-Iraque.

Outras iniciativas surgiram de forma pontual, mas falharam em consolidar apoio maioritário. Após o movimento “Mulher, Vida, Liberdade”, em 2022, foi criada a Aliança para a Democracia e a Liberdade no Irão, que reuniu várias figuras da oposição, incluindo Reza Pahlavi, mas o projeto colapsou rapidamente devido a divergências internas.

Apesar destes fracassos, os apelos de Reza Pahlavi a manifestações contra a República Islâmica continuam a gerar forte adesão popular, com slogans de apoio à sua liderança a ecoarem a partir do interior do Irão.

A visão de Reza Pahlavi para o futuro político do Irão
Segundo as suas declarações públicas, Reza Pahlavi rejeita qualquer regresso a uma “monarquia absoluta” ou a um sistema hereditário. Defende antes uma transição para um modelo de governação baseado na livre escolha dos cidadãos.

Embora reconheça a herança histórica da sua família, afirma não ambicionar poder político nem cargos oficiais, sublinhando que o seu papel é facilitar um processo em que os iranianos decidam livremente o seu futuro. Para Reza Pahlavi, qualquer novo sistema deve resultar de eleições livres, respeitar os direitos humanos e assegurar a separação entre religião e política.

Defende uma transição pacífica, rejeitando a violência e privilegiando a desobediência civil, e tem apelado às forças armadas, incluindo os elementos de base da Guarda Revolucionária, para que se coloquem ao lado do povo. A forma final do regime, seja uma monarquia parlamentar ou uma república, deverá, segundo insiste, ser definida através de um referendo livre.

Apesar das divergências sobre o modelo político ideal, muitos manifestantes parecem hoje convergir em torno de Reza Pahlavi como principal rosto da oposição ao regime iraniano, adiando a decisão sobre a forma de governação para um momento posterior à queda da atual República Islâmica.

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