Explicador: Porque é que Vladimir Putin é quem mais ganha com a guerra no Irão?

A escalada militar no Médio Oriente, desencadeada pelos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, está a provocar efeitos que vão muito além da região.

Pedro Gonçalves

A escalada militar no Médio Oriente, desencadeada pelos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, está a provocar efeitos que vão muito além da região. Um dos beneficiários indiretos deste novo conflito pode ser a Rússia e, em particular, o presidente Vladimir Putin.

A subida acentuada dos preços do petróleo após os ataques às infraestruturas energéticas iranianas pode trazer um alívio significativo para a economia russa e facilitar o financiamento da guerra na Ucrânia. Ao mesmo tempo, a nova crise geopolítica cria um contexto internacional que pode favorecer Moscovo em vários planos.



Como a subida do petróleo favorece a Rússia
Antes da nova escalada no Médio Oriente, a Rússia enfrentava uma situação económica cada vez mais pressionada pelo impacto prolongado da guerra na Ucrânia.

O orçamento russo para este ano foi elaborado com base num preço de referência de cerca de 59 dólares por barril para o crude Urals, o principal tipo de petróleo exportado pelo país. No entanto, em janeiro, as receitas energéticas registaram o valor mais baixo desde 2020, agravando um cenário já marcado por receitas fiscais abaixo das expectativas.

Neste contexto, os ataques de Israel a instalações petrolíferas iranianas provocaram uma rápida subida dos preços internacionais do petróleo. O crude de referência ultrapassou os 100 dólares por barril, atingindo o nível mais elevado desde o verão de 2022, quando os mercados reagiram à invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia.

Para Moscovo, este aumento representa uma oportunidade económica num momento particularmente sensível. O petróleo e o gás continuam a ser as principais fontes de receita do Estado russo, pelo que um preço mais elevado no mercado internacional reforça diretamente as finanças do Kremlin.

Economia russa enfrentava decisões difíceis
Sem esta subida do preço do petróleo, o governo russo poderia ter sido obrigado a tomar decisões difíceis sobre as suas despesas.

Segundo Sergey Vakulenko, investigador sénior do Carnegie Russia Eurasia Center, o cenário económico não era de colapso iminente, mas exigia escolhas complexas.

“Não estava perto de um colapso”, afirmou. “Mas o governo enfrentava escolhas difíceis, tinha de cortar despesas, aumentar impostos e até considerar alguma redução no gasto militar.”

De acordo com o analista, parar a guerra na Ucrânia nunca esteve verdadeiramente em cima da mesa, mas já se tornava claro que Moscovo teria de fazer alguns ajustes financeiros.

Conflito no Médio Oriente muda cenário económico
A situação alterou-se rapidamente quando os Estados Unidos e Israel atacaram o Irão. A resposta de Teerão e o alargamento do conflito à região provocaram perturbações no transporte marítimo através do Estreito de Ormuz, uma das rotas energéticas mais importantes do mundo.

Estas interrupções fizeram disparar os preços do petróleo, criando um contexto mais favorável para países exportadores como a Rússia.

Vladimir Milov, antigo vice-ministro da Energia da Rússia e atualmente crítico do Kremlin no exílio, considera que Moscovo recebeu uma ajuda inesperada.

“De repente, Moscovo recebeu este presente”, afirmou. “Tiveram a sua linha de vida.”

Segundo Milov, muitos responsáveis russos encaram atualmente a situação com grande satisfação.

Rússia pode vender petróleo a preços mais elevados
Outro fator que pode favorecer a Rússia prende-se com o impacto das sanções ocidentais.

Nos últimos anos, Moscovo tem sido frequentemente obrigada a vender o seu petróleo com desconto nos mercados internacionais devido às restrições impostas pelos países ocidentais. No entanto, num contexto de escassez ou incerteza no mercado global, esse desconto pode diminuir.

Os principais compradores de petróleo russo, nomeadamente a Índia e a China, poderão aumentar as compras para garantir o abastecimento, o que pode permitir à Rússia vender a preços mais elevados.

Além disso, Washington tomou recentemente decisões que podem facilitar essas transações. Na sexta-feira passada, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos concedeu uma autorização temporária de 30 dias que permite à Índia comprar petróleo russo, com o objetivo de “permitir que o petróleo continue a fluir para o mercado global”.

No dia seguinte, o secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, afirmou que os Estados Unidos poderiam mesmo “retirar sanções a outro petróleo russo”, uma mudança significativa face à política do ano anterior, que penalizava países que comprassem energia russa.

Kremlin aproveita o momento para reforçar narrativa
O Kremlin tem procurado tirar partido da situação para reforçar a imagem da Rússia como fornecedor energético fiável.

O porta-voz presidencial Dmitry Peskov afirmou que o país continua a desempenhar um papel central no abastecimento energético internacional.

“A Rússia foi e continua a ser um fornecedor fiável tanto de petróleo como de gás”, declarou, acrescentando que a procura por produtos energéticos russos aumentou.

Também Kirill Dmitriev, conselheiro do Kremlin, comentou publicamente o impacto da crise energética. Numa série de publicações na rede social X, afirmou que “o tsunami de choque petrolífero está apenas a começar” e criticou a decisão da Europa de reduzir a dependência da energia russa, classificando-a como “um erro estratégico”.

Entretanto, comentadores próximos do Kremlin partilharam análises que apontam para a possibilidade de os preços do petróleo atingirem valores ainda mais elevados. Um artigo do Wall Street Journal citado nesses comentários sugeria que o preço do crude poderia mesmo chegar aos 215 dólares por barril.

Benefícios dependem da duração da crise
Apesar destas vantagens potenciais, vários especialistas alertam que ainda é cedo para considerar que a Rússia saiu vencedora da situação.

O impacto económico positivo dependerá sobretudo da duração da crise no Médio Oriente. Se os preços elevados do petróleo se mantiverem apenas durante algumas semanas ou meses, o efeito será limitado.

Vladimir Milov considera que seria necessário um período prolongado de preços elevados para produzir um impacto significativo na economia russa.

Segundo o antigo responsável energético, para que o benefício seja realmente relevante, os preços atuais teriam de manter-se durante cerca de um ano. “Um ou dois meses de preços altos certamente ajudam, mas não vão salvar a economia”, afirmou.

Sergey Vakulenko partilha uma avaliação semelhante. Na sua opinião, uma subida temporária do petróleo apenas servirá para adiar decisões económicas difíceis que Moscovo poderá ter de tomar mais tarde.

Guerra também pode ter impacto militar indireto
A guerra no Médio Oriente pode ainda beneficiar a Rússia de outra forma indireta.

À medida que o conflito se intensifica, os Estados Unidos têm vindo a utilizar parte dos seus arsenais militares na região. Isso pode reduzir a disponibilidade de armamento que tem sido fornecido à Ucrânia para enfrentar a invasão russa.

Segundo relatos de vários meios de comunicação, a Rússia terá também fornecido ao Irão informações de inteligência destinadas a ajudar Teerão a identificar navios e aeronaves militares norte-americanas.

A morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, num ataque aéreo conjunto dos Estados Unidos e de Israel poderá ter fragilizado a imagem da Rússia como defensora dos seus aliados. Ainda assim, para Vladimir Putin, o resultado final pode acabar por compensar esse custo político se a crise no Médio Oriente acabar por reforçar a economia russa e enfraquecer o apoio ocidental à Ucrânia.

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