Explicador. Do protecionismo ao internacionalismo autoritário: o que Trump trará para 2026?

As tarifas foram o instrumento mais visível dessa transformação. Apresentadas como uma resposta à desindustrialização dos Estados Unidos e à ascensão da China, acabaram por cumprir uma função distinta da anunciada

Francisco Laranjeira
Dezembro 26, 2025
11:49

A chegada de Donald Trump à Casa Branca marcou uma rutura clara com a ordem económica internacional que vigorava há décadas. Durante a campanha presidencial, prometeu mudanças profundas e, segundo o ‘El Confidencial’, não perdeu tempo a colocá-las em prática, dando início a um período turbulento que redefiniu relações comerciais, alianças estratégicas e equilíbrios de poder à escala global. Assim, o que esperar do presidente americano para 2026?

As tarifas foram o instrumento mais visível dessa transformação. Apresentadas como uma resposta à desindustrialização dos Estados Unidos e à ascensão da China, acabaram por cumprir uma função distinta da anunciada. A recuperação da capacidade industrial americana ficou confinada a setores muito específicos, como o armamento e a tecnologia, enquanto o protecionismo se transformou sobretudo numa ferramenta de negociação bilateral. Nas mãos de Trump, as tarifas deixaram de servir a proteção clássica da indústria nacional e passaram a funcionar como alavanca para abrir mercados estrangeiros às empresas americanas.

Este modelo teve impactos assimétricos: os parceiros tradicionais dos EUA, em particular a União Europeia, foram dos mais penalizados. Concessões na compra de armamento e energia, aliadas a exigências de menor regulação para empresas tecnológicas e financeiras americanas, agravaram as fragilidades económicas de um continente já pressionado pela estagnação e pela incerteza estratégica.

A China, pelo contrário, revelou-se muito menos vulnerável. Washington enfrentou dificuldades em competir com Pequim em múltiplas áreas e acabou por recuar em várias frentes negociais. A tentativa de isolar a China através de pressão sobre países terceiros produziu resultados limitados. O excedente comercial chinês ultrapassou 920 mil milhões de euros nos primeiros 11 meses de 2025, um dado que reforça a ideia de que o objetivo de conter a potência asiática não está a ser alcançado.

Um mundo em transição, mais do que um fracasso

Perante estes resultados, a estratégia de Trump pode parecer contraditória. Não reindustrializou de forma abrangente os Estados Unidos nem travou o avanço chinês. Ainda assim, mais do que um fracasso, este processo reflete, segundo o ‘El Confidencial’, a transição para um sistema internacional em mutação, marcado pela consolidação de duas grandes potências e pela expansão das suas esferas de influência.

A China apresenta-se como defensora da ordem comercial internacional, mas absorve uma fatia desproporcionada dos benefícios do comércio global, colocando em causa a sustentabilidade desse sistema. Os Estados Unidos, por seu lado, procuram impor regras mais favoráveis aos seus interesses, mas sem romper totalmente com as instituições existentes, já que um confronto direto com Pequim enfraqueceria a sua rede de aliados.

Do liberalismo autoritário ao internacionalismo autoritário

Esta lógica não é apenas económica. O texto recupera o conceito de liberalismo autoritário, formulado nos anos 1930 por juristas como Carl Schmitt e Herman Heller, para explicar a visão subjacente à ação política de Trump. A ideia central passa por reforçar o Estado e as instituições, não para alargar direitos ou responder a exigências sociais, mas para criar condições favoráveis às elites económicas e restaurar autonomia estratégica.

Essa visão reaparece décadas depois em relatórios como A Crise da Democracia, da Comissão Trilateral, e ajuda a enquadrar políticas como a desregulação, os cortes de impostos, a redução do setor público e a deportação de imigrantes. No plano externo, esta abordagem traduz-se num internacionalismo autoritário, que não rejeita as instituições globais, mas procura remodelá-las a favor dos interesses americanos.

A NATO, a Organização Internacional do Trabalho e o sistema comercial internacional são exemplos dessa reconstrução interna, enquanto o direito internacional é ignorado quando se torna um obstáculo, seja em ações militares ou em instrumentos financeiros ligados ao dólar.

Rússia, Europa e a nova geopolítica dos recursos

A reconfiguração da relação com a Rússia foi um dos maiores choques para a Europa. Depois de pressionar os aliados a reforçar o apoio à Ucrânia, a administração Trump avançou para negociações diretas com Moscovo, afastando os parceiros europeus. Os contactos incluíram planos para projetos conjuntos na exploração de minerais no Ártico e propostas de utilização de ativos russos congelados na Europa em investimentos liderados pelos Estados Unidos.

Estes acordos têm uma lógica estratégica clara: garantir acesso a recursos essenciais, como elementos de terras raras, e reduzir a dependência russa da China. Ao mesmo tempo, colocam a Europa numa posição secundária, sujeita a decisões tomadas fora do seu controlo.

Petróleo, América Latina e a guerra económica

O petróleo surge como peça central desta estratégia. Controlar o acesso a esta matéria-prima significa influenciar preços e condicionar rivais económicos. Se a relação com a Rússia for estabilizada, restariam como focos de tensão o Irão e a Venezuela, num contexto em que Washington procura reafirmar a sua influência na América Latina após anos de avanço chinês.

A disputa entre Estados Unidos e China decorre em múltiplos planos, mas é na economia que se joga o essencial. A China afirma-se como potência industrial assente no capital público, enquanto os Estados Unidos dependem da centralização do capital privado e do papel do dólar como moeda de refúgio. Ambos necessitam de recursos financeiros para sustentar os seus modelos, pressionando aliados e países intermédios.

2026 como ano decisivo para aliados e blocos

Num mundo descrito como multipolar, apenas duas potências reúnem simultaneamente poder económico, tecnológico e militar. Países intermédios tentam equilibrar-se entre Washington e Pequim, mas com margens de manobra limitadas. Segundo o ‘El Confidencial’, a pressão sobre aliados deverá intensificar-se, criando piores condições económicas e um futuro mais incerto para muitos deles.

O ano de 2026 será determinante para perceber se os Estados Unidos optarão por oferecer uma saída negociada aos seus parceiros, em especial europeus, ou se aprofundarão uma estratégia de alinhamento forçado que terá repercussões em todo o sistema internacional.

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