A Conferência de Segurança de Munique arranca esta sexta-feira e volta a colocar frente a frente líderes políticos e militares num encontro que é frequentemente descrito como o “Davos da Defesa”. As expectativas para a relação União Europeia–EUA são de continuidade mais do que de rutura: depois do discurso hostil do vice-presidente americano JD Vance no ano passado e da publicação das estratégias americanas de Segurança Nacional e de Defesa Nacional, um analista antecipa “poucas surpresas” na linha política de Washington em relação à Europa.
O que é a Conferência de Segurança de Munique e para que serve
A Conferência de Segurança de Munique, que decorre até domingo, é um fórum anual onde chefes de Estado e de Governo, ministros, parlamentares e especialistas discutem segurança internacional, defesa e geopolítica. Este ano, o ponto de partida do debate será o relatório “Sob Demolição”, divulgado pela própria conferência, que enquadra o momento atual como uma fase de “política destrutiva” e aponta para a erosão da ordem internacional do pós-1945, historicamente moldada pelos Estados Unidos.
O que pode significar para a Europa e para a relação com os Estados Unidos
Emil Archambault, investigador associado no Conselho Alemão de Relações Internacionais, considera que a política americana em relação à Europa já foi clarificada pelos documentos estratégicos recentes, pelo que não são esperadas grandes novidades. Ainda assim, admite que a presença de uma delegação americana numerosa abre espaço para “aprofundar as relações” com atores americanos para lá do poder executivo, sublinhando o papel do Congresso como contrapeso e a importância de os europeus manterem diálogo com senadores e estados.
É precisamente aí que alguns especialistas veem a utilidade prática da conferência. Stephan Bierling, professor de Relações Internacionais na Universidade de Regensburg, descreve o encontro como uma das últimas oportunidades para que congressistas com mentalidade transatlântica possam reunir-se com europeus com visão semelhante. Já Klaus Brummer, professor de Ciência Política na Universidade Católica de Eichstätt-Ingolstadt, antecipa que não haverá “alterações imediatas”, defendendo que os efeitos positivos, se existirem, tenderão a aparecer a médio e longo prazo, à medida que os europeus consolidem contactos com políticos que possam vir a ocupar cargos de topo numa era pós-Trump.
O “alerta” do discurso de Vance e a guerra cultural transatlântica
Para Brummer, o discurso de JD Vance em Munique, em 2025, foi um “alerta” por abrir uma nova linha de tensão: além das divergências sobre desafios externos, passou a estar em causa a crítica americana às políticas internas dos Estados europeus, nomeadamente em temas como migração e a alegada repressão de liberdades políticas. Essa dinâmica, defende, alimenta uma espécie de “guerra cultural”, mostrando que as diferenças transatlânticas já não se limitam ao plano estratégico. Bierling vai mais longe e interpreta a intervenção de Vance como o anúncio de um “divórcio transatlântico” assente em valores considerados irreconciliáveis, ideia que, na leitura do especialista, ganhou peso ao longo dos últimos 12 meses.
O relatório “Sob Demolição” e a pressão para mais autonomia europeia
O novo Índice de Segurança 2026, intitulado “Sob Destruição”, reforça este clima ao classificar os Estados Unidos como “um risco mais sério do que no ano anterior”, dando continuidade a uma tendência já evidenciada no relatório publicado após a eleição de Donald Trump. O documento sustenta que a ordem internacional liderada por Washington desde 1945 está em processo de destruição e identifica Trump como o mais poderoso entre os que “destroem regras e instituições existentes”.
O relatório descreve uma perceção de volatilidade na abordagem americana à segurança europeia, referindo o recuo gradual de Washington, o apoio vacilante à Ucrânia e a retórica ameaçadora sobre a Gronelândia como fatores que aumentam a sensação de insegurança na Europa. A conclusão, no texto, é a de que os países europeus se estão a preparar para maior autonomia, com uma recomendação concreta: acelerar investimentos em capacidades críticas onde a Europa permanece “criticamente dependente” dos Estados Unidos, como defesa aérea, mísseis, drones, transporte estratégico, informações e cibersegurança.
Mais adiante, o relatório também aponta para o impacto da coerção económica americana, descrevendo o uso de tarifas e ameaças de acesso ao mercado como instrumento central de política externa económica, e alerta ainda para consequências globais de cortes no apoio ao desenvolvimento, que podem agravar instabilidade política e fluxos migratórios.
Quem vai estar em Munique e porquê importa
A conferência será aberta pelo chanceler alemão Friedrich Merz. A delegação americana será liderada pelo secretário de Estado, Marco Rubio, acompanhado por cerca de 50 membros do Congresso. Entre os participantes constam ainda a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e líderes como Emmanuel Macron, Keir Starmer e Donald Tusk. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, deverá chefiar a delegação de Kiev, num contexto em que a guerra e a arquitetura de segurança europeia continuam no centro do debate. Portugal será representado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel.
O presidente da conferência, Wolfgang Ischinger, enquadra o encontro num tempo de instabilidade e “profunda incerteza” associada à política de Donald Trump, afirmando que a ordem internacional está a ser “despedaçada” e que já há elementos destruídos ou em risco de o ser. Ischinger deverá passar a presidência da Conferência de Segurança de Munique ao antigo líder da NATO, o norueguês Jens Stoltenberg.
Segurança, manifestações e operação policial internacional
São esperados mais de mil participantes de 120 países e cerca de uma centena de ministros dos Negócios Estrangeiros e da Defesa. Paralelamente, deverão ocorrer 21 manifestações até domingo, incluindo duas contra o regime iraniano, segundo declarações do vice-chefe da polícia de Munique, Christian Huber, citado pela AFP. O espaço aéreo sobre a cidade será encerrado a aeronaves, incluindo drones, durante o evento, e a segurança contará com uma “operação policial internacional” com contributos de França, Áustria, Suíça e Países Baixos, além do dispositivo alemão, também mobilizado pelos carnavais no país. A polícia prevê elevada participação numa manifestação no sábado contra o regime do Irão e os opositores à conferência convocaram outra iniciativa para o mesmo dia, que poderá reunir até 4.000 participantes.














