Por Rui Duarte Silva, Consultor de Soluções na Critical Software
A discussão sobre o euro digital deixou, há muito, de ser um exercício académico: entrou definitivamente no campo das decisões estratégicas que vão moldar o sistema financeiro europeu nas próximas décadas. Para Portugal — uma economia aberta, fortemente dependente de pagamentos digitais e com um setor bancário ainda em processo de ajustamento —esta não é uma conversa distante de Bruxelas ou Frankfurt. É um debate que toca diretamente a soberania monetária, a competitividade dos bancos e a forma como cidadãos e empresas irão pagar, poupar e transacionar no futuro.
À primeira vista, pode parecer que o euro digital é apenas mais um instrumento de pagamento. Na realidade, é uma resposta estrutural a uma tendência que se acelera: a progressiva privatização do dinheiro no espaço digital. Hoje, grande parte das transações eletrónicas já depende de infraestruturas privadas globais, desde redes de cartões até carteiras digitais controladas por grandes plataformas tecnológicas. Acrescem as chamadas stablecoins, emitidas por entidades privadas, que replicam o valor do euro, mas escapam ao controlo direto da política monetária europeia.
Num cenário sem euro digital, o risco é claro: a Europa passa a depender, para algo tão fundamental como o dinheiro, de intermediários cujo centro de decisão está fora do espaço europeu. Isso levanta questões de soberania, de proteção de dados e de concorrência. Quem controla a carteira digital controla a relação com o cliente, o acesso à informação e, em última instância, a confiança.
É neste contexto que o euro digital surge menos como uma opção tecnológica e mais como uma infraestrutura pública essencial, comparável às redes de pagamentos ou às próprias notas e moedas. O Banco Central Europeu tem sido claro ao preferir um modelo de intermediação: o euro digital seria emitido pelo BCE, mas distribuído por bancos e prestadores de serviços de pagamento. Ou seja, os bancos continuariam a ser o ponto de contacto com cidadãos e empresas, responsáveis pelo onboarding, pela conformidade regulatória e pela experiência do utilizador.
Esta escolha protege o papel dos bancos, mas não o garante. A introdução do euro digital altera profundamente o equilíbrio atual. Por um lado, pode haver uma migração parcial de depósitos para moeda digital do banco central, com impacto nos custos de financiamento das instituições. Por outro, a pressão sobre as receitas tradicionais de pagamentos tende a aumentar, num contexto em que as transações básicas poderão tornar-se quase gratuitas.
Para a banca portuguesa, já confrontada com margens reduzidas e forte concorrência, isto coloca uma questão incómoda: aceitar o euro digital como um custo inevitável de conformidade ou encará-lo como uma oportunidade de reposicionamento estratégico.
A resposta fará toda a diferença. Num sistema onde a infraestrutura é comum e as regras são definidas pelo Eurosistema, o valor deixa de estar no controlo do produto e passa para a qualidade do serviço. Operar carteiras digitais de forma eficiente, integrar pagamentos do euro digital nos sistemas das empresas, oferecer soluções seguras de pagamentos online e offline ou usar dados.
Há também um risco que não deve ser subestimado. Se os bancos não investirem atempadamente na experiência do utilizador, esse espaço poderá ser ocupado por grandes plataformas tecnológicas que, mesmo num modelo regulado, dominam a interface com o cliente. Nesse cenário, as instituições financeiras ficariam reduzidas a fornecedores de liquidez e infraestruturas invisíveis — um papel pouco atraente e estrategicamente frágil.
O euro digital será introduzido de forma gradual, com projetos-piloto previstos para os próximos anos. Isso dá tempo, mas não justifica inação. Pelo contrário: as decisões tomadas agora em termos de investimento tecnológico, organização interna e comunicação com os clientes irão determinar quem lidera e quem segue.
Para Portugal, há ainda um potencial adicional. Um sistema de pagamentos digitais europeu, público e interoperável, pode reduzir custos para empresas, facilitar o comércio eletrónico e reforçar a inclusão financeira. Mas esses benefícios só se concretizam se houver bancos preparados, capazes de transformar uma obrigação regulatória numa proposta de valor clara para a economia.
O euro digital não é apenas sobre dinheiro em formato digital. É sobre quem define as regras do jogo, quem controla a relação com o cliente e quem captura o valor num mundo cada vez mais sem numerário. Ignorar essa realidade seria um erro estratégico. Aproveitá-la pode ser a diferença entre relevância e irrelevância no sistema financeiro europeu do futuro.




