Ucrânia: Estará Putin a cometer os mesmos erros de Hitler, Lyndon ou Saddam?

Oficiais militares ocidentais garantem que o presidente russo está envolvido na tomada de decisões no campo de batalha ao nível de “um coronel ou brigadeiro”

Francisco Laranjeira

É a guerra de Vladimir Putin – ou pelo menos é assim que o Ocidente a caracteriza. Não apenas a decisão de invadir a Ucrânia foi tomada pelo presidente russo mas oficiais militares ocidentais agora dizem que Putin está envolvido na tomada de decisões no campo de batalha “ao nível de um coronel ou brigadeiro” enquanto a ofensiva de Donbass no leste da Ucrânia vai-se desenrolando.

Em parte, não é uma observação muito surpreendente, segundo revelou o jornal britânico ‘The Guardian’. Qualquer ideia de que o presidente russo, como comandante chefe, não estaria envolvido nos planos de batalha, sobretudo quando a guerra na Ucrânia não corre de feição, seria impossível de acreditar. Os regimes autocráticos tendem a não favorecer a descentralização militar.

Mas também chega a um ponto de fracasso militar embaraçoso. Uma manobra para cercar as forças ucranianas na semana passada resultou em quase 500 mortos e na perda de mais de 70 veículos blindados após a tentativa de atravessar o rio Siverski Donets, que ocorreu não sob o manto da escuridão mas em plena luz do dia. Portanto, se a afirmação ocidental for verdadeira, Putin teria aprovado o plano de batalha. A tomada de decisão ao “nível de coronel ou brigadeiro” implica um comando no nível de brigada de dois ou mais batalhões, o movimento de 1.500 ou mais soldados: exatamente o tipo de força que tentou e falhou atravessar o rio estratégico.

No entanto, as alegações sobre Putin vão ainda mais longe, o que traz à mente a ideia de um líder político impaciente ou que deixou de confiar nos seus generais – basta recordar a queda de Adolf Hitler, que nos últimos estágios da II Guerrra Mundial, conforme descrito pelo biógrafo Ian Kershaw, recusou-se a atender aos apelos dos generais para retiradas táticas no leste e insistiu em contra-ofensivas excessivamente otimistas, como nas Ardenas no inverno de 1944/5.

Mas não faltam exemplos. Nos estágios iniciais da guerra do Vietname, o presidente dos EUA Lyndon Johnson e a sua administração iniciaram uma campanha de bombardeamentos contra o Vietname do Norte comunista em 1965 chamada ‘Rolling Thunder’, que definia os alvos que poderiam ser atacados para evitar ofender a China ou a Rússia soviética. A estratégia confusa foi uma tentativa de quebrar a determinação de Hanói, bombardeando alvos menores e um passo numa guerra crescente que os EUA acabariam por perder.

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No período que antecedeu a guerra final do Iraque, o ditador do país, Saddam Hussein, decidiu que a força aérea do país não deveria participar da guerra. A crença era que a força aérea iraquiana não seria adversária para os invasores ocidentais e que seria melhor guardar para um futuro pós-guerra sob a sua liderança que nunca aconteceu, após a captura de Bagdad.

Mas, apesar de todas as histórias de intromissão, a relação entre liderança política e comando militar sempre foi complexa e por vezes tensa. O professor Sir Lawrence Freedman, do King’s College London, garantiu que as decisões militares em tempo de guerra são “intensamente políticas” e que cabe às lideranças políticas “estabelecer objetivos, pressionar comandantes seniores e fazer perguntas”.

O objetivo, argumentou Freedman, é garantir que haja “um diálogo entre políticos e militares” e para que os líderes não anulem objeções legítimas ou tentem microgerenciar os planos de batalha num momento em que deveriam concentrar-se em questões diplomáticas ou políticas mais amplas.

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À medida que a guerra na Ucrânia se aproxima da sua décima segunda semana, surge a questão se o líder russo tem tempo para se concentrar em tudo – envolvido na tomada de decisões táticas numa ofensiva no Donbass que está a parar – mas também no impacto que mais fracassos militares teriam no seu poder.

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