O professor da Universidade de Stanford Mehran Sahami considera, em entrevista à Lusa, que as gigantes tecnológicas (big tech) podem ser mais poderosas do que os governos e que gostaria de ver da IA uma maior prosperidade humana.
Questionado sobre se as ‘big tech’ estão a tornar-se mais poderosas que os atuais governos, o académico admite que sim.
“Quer dizer, de certa forma, podem ser mais poderosos do que os governos”, o que levanta “algumas questões diferentes” e “uma delas diz respeito às infraestruturas públicas”, afirma o professor e titular da cátedra Tencent do Departamento de Ciências da Computação da Universidade de Stanford, que foi orador convidado na sessão comemorativa dos 50 anos da licenciatura em engenharia informática da NOVA FCT.
Por exemplo, “se agora esta tecnologia está nas mãos de algumas empresas privadas, o que pode ser feito através do governo” é dizer que “o queremos fazer é criar uma versão pública desta infraestrutura”, aponta.
“Vamos investir em vários servidores, vamos investir na tecnologia. Essencialmente, vamos criar os nossos próprios modelos de linguagem que estarão sob o controlo do governo ou de um consórcio de pessoas que podem ser eleitas democraticamente”, prossegue.
Neste caso, “podem tomar decisões sobre que tipo de coisas o modelo [IA] faz, com que dados é treinado e coisas do género, onde existe um recurso democrático”.
Atualmente, se um responsável de uma dessas empresas tomar uma decisão “sobre modelos que não lhe agradam, não tem grande escolha”.
Contudo, “se tivéssemos alternativas, que são modelos que têm um nível de responsabilidade, onde as pessoas são eleitas democraticamente para exercer essa responsabilidade e, se fizerem algo que não gosta”, existiria “a oportunidade de votar para as tirar do poder e eleger pessoas de quem gosta”.
Portanto, “existem alternativas, mas isso exige que digamos: ‘Sim, é isto que queremos’ e invistamos recursos nisso, implementemos processos democráticos. Acho que é possível fazer isso”, salienta.
Caso contrário, “dependemos apenas das escolhas das empresas privadas”, adverte Mehran Sahami.
Para o antigo cientista de investigação sénior na Google, existem opções e alternativa que pode ser criada para devolver o poder às mãos do povo “é apenas uma questão de vontade política para realmente o fazer”.
Instado a comentar o que gostaria de ver com a inteligência artificial (IA), responde perentoriamente que é um “maior florescimento humano”, que as pessoas possam usar a tecnologia para “aprender mais e melhor” e que possam usá-la para ampliar as suas capacidades e o que podem potencialmente fazer.
Ou seja, usar a IA para “aprofundar assuntos específicos para os compreender melhor, para poder fazer a ponte entre diferentes culturas, se quiserem realmente compreender um lugar ou uma cultura diferente”, prossegue.
“E para obtermos maior clareza sobre os nossos próprios valores: O que é importante para nós? Acho que muitas vezes as pessoas não pensam nisso”, reflete Mehran Sahami.
O que a IA fez foi, de certa forma, criar um espelho e questionar: “O que é que queres que a tua sociedade seja? Pode programar-me para ser o que quiser. O que é que realmente quer? E essa é uma questão profunda, mas acho que é uma questão a que nós, enquanto seres humanos, precisamos de responder”, sublinha.
“Acho interessante que a tecnologia nos esteja a levar a refletir sobre a nossa humanidade, mas penso que, se o fizermos, em última análise, o objetivo é alcançar uma maior prosperidade para todos”, reforça.
Na sua visão, a grande questão “é como é que a IA e a humanidade podem coexistir de uma forma positiva para a humanidade”.
Há dificuldades iniciais como a perda de emprego e o desemprego, diz, admitindo um desemprego “ainda maior”.
Mas outra direção possível “é a forma como podemos capacitar as pessoas para utilizar a IA para fazer coisas novas que não tínhamos imaginado antes, para criar novos empregos e ajudar os seres humanos a prosperar de diferentes formas”.
Por isso, “penso que a coexistência para tornar a humanidade melhor como resultado da IA é o seu maior desafio”, remata.






