À medida que a guerra na Ucrânia entra no quinto ano, uma pergunta impõe-se: até quando resistirá o chamado “consenso de Putin”? É essa a questão central de uma análise publicada pelo ‘The Conversation’, que procura perceber se o apoio dos russos ao Kremlin é sólido — ou apenas aparente.
As sondagens continuam a mostrar números robustos. A popularidade de Vladimir Putin mantém-se acima dos 80% desde 2022, e entre 60% e 70% dos inquiridos dizem apoiar a “operação militar especial”. À superfície, o regime parece politicamente estável.
Mas os autores alertam: em contexto autoritário e em tempo de guerra, as sondagens podem dizer menos do que aparentam.
Responder de forma crítica pode implicar riscos legais, num país onde leis contra a “desinformação” e a “descredibilização do exército” preveem penas severas. Nestas circunstâncias, o silêncio ou a resposta socialmente aceitável tornam-se comportamentos racionais.
O que sustenta o “consenso”?
Durante anos, muitos analistas descreveram o sistema de Putin como assente num contrato social informal: estabilidade económica e relativa liberdade na vida privada em troca de lealdade política.
A guerra alterou esse equilíbrio. A Rússia enfrenta sanções prolongadas, exclusão de mercados europeus e um aumento significativo da despesa militar. A economia não colapsou, mas cresce sob pressão.
Ainda assim, o apoio visível não desapareceu.
O artigo do ‘The Conversation’ sugere que a ideologia pode ter um peso maior do que se supunha no Ocidente. A narrativa de restaurar a grandeza russa e reafirmar influência global encontra eco numa parte da sociedade.
Mas isso significa entusiasmo genuíno?
Apoio ativo ou resignação?
Os sinais contradizem uma mobilização massiva. Os centros de recrutamento não estão inundados de voluntários. O Estado recorre a incentivos financeiros elevados, publicidade agressiva e, em alguns casos, mobilização coerciva.
Paralelamente, centenas de milhares de homens deixaram o país para evitar a conscrição.
Os símbolos pró-guerra continuam a dominar o espaço público, mas o apoio privado parece mais discreto. Muitos russos optam por aquilo que alguns sociólogos descrevem como “emigração interna”: afastamento da política e concentração na esfera pessoal.
A distância entre propaganda e quotidiano
Há também um desfasamento cultural. Em vez de uma explosão de patriotismo nas preferências culturais, os tops musicais e literários mostram interesse por temas íntimos, existenciais ou críticos do autoritarismo.
Tudo isto sugere que o “consenso de Putin” pode ser mais passivo do que fervoroso.
A grande incógnita é o tempo. Enquanto os custos da guerra forem diluídos — com mobilização limitada e ocultação de perdas — o consenso pode manter-se. Mas se os impactos económicos e humanos se tornarem mais visíveis, o equilíbrio poderá alterar-se.
A história não se repete necessariamente. Mas à medida que o conflito avança para o quinto ano, a questão permanece em aberto: o apoio que sustenta o Kremlin é convicção profunda — ou apenas adaptação a um sistema onde discordar tem um preço?







