Entre mansões e casas de jogo: Primo de Sócrates ergue império no Brasil

Uma investigação revela novos contornos sobre a atividade empresarial de José Paulo Pinto de Sousa, primo pelo lado paterno de José Sócrates, numa teia que cruza Brasil, Angola e Portugal.

Revista de Imprensa
Fevereiro 27, 2026
9:15

Uma investigação revela novos contornos sobre a atividade empresarial de José Paulo Pinto de Sousa, primo pelo lado paterno de José Sócrates, numa teia que cruza Brasil, Angola e Portugal. Em Dourados, no estado brasileiro de Mato Grosso do Sul, o familiar do antigo primeiro-ministro possui uma mansão de dois pisos situada na rua Iguaçu, num dos bairros mais exclusivos da cidade, além de interesses numa construtora — a Metrus — e numa casa de apostas localizada em Amanbai, a escassos 50 quilómetros da fronteira com o Paraguai, zona referenciada pelas autoridades como corredor estratégico do narcotráfico.

Segundo o jornal Sol, a investigação traça o percurso financeiro que levou José Paulo a constituir, em maio de 2008, a Metrus, Lda., dedicada à construção e compra e venda de terrenos, apesar de não possuir experiência prévia no setor. Detentor de 45% do capital, assumiu a posição de sócio maioritário, acompanhado pelo irmão António Pinto de Sousa (10%), pelo advogado Jorge Manuel Vieira (15%), por Gonçalo Nuno Araújo (15%) e pelo brasileiro Vilson Antunes (15%), este último descrito como executor das operações societárias e também seu parceiro na lotérica Antunes & Sousa Limitada, aberta em 2006. Quatro meses antes da criação da Metrus, a fortuna acumulada numa offshore suíça de José Paulo transitara para Carlos Santos Silva, empresário amigo de Sócrates, com a estipulação de que, em caso de morte deste, 80% dos fundos regressariam ao primo.



A Metrus construiu dois condomínios em Dourados, entre eles o edifício Luanda, mas os relatos de compradores apontam atrasos, vendas abaixo do valor de mercado e alterações societárias controversas. Em 2018, Jorge Vieira reforçou o capital da empresa com 1,449 milhões de reais, diluindo outros sócios e assumindo o controlo efetivo, acompanhado por Vilson Antunes, que terá representado alguns acionistas com procurações falsas. A empresa encerrou atividade em novembro de 2025, sem declaração formal de falência, facto que gerou perplexidade entre proprietários. Jessika Pagliarini, administradora do condomínio, questiona: «Como é que alguém vem de tão longe para construir apenas dois condomínios e depois vai embora? Isto só pode ser dinheiro sujo!».

Paralelamente, a investigação revisita os negócios da família Pinto de Sousa em Angola, nomeadamente a exploração de salinas em Benguela através da sociedade António Pinto de Sousa, Lda. (APS). Carlos Santos Silva alegou perante o Ministério Público ter investido um milhão de euros nessas operações e recebido posteriormente nove milhões da ESCOM, empresa do Grupo Espírito Santo, pela aquisição de 70% da APS. Contudo, os registos empresariais não confirmam a sua participação formal, e as datas dos pagamentos não coincidem com a narrativa apresentada. Para o Ministério Público, parte dessas verbas poderá ter servido para sustentar transferências consideradas ilícitas no âmbito da Operação Marquês, envolvendo também Hélder Bataglia.

No Brasil, a abertura da lotérica em Amanbai e transferências provenientes da offshore suíça — incluindo 62 mil euros enviados em 2006 para uma empresa automóvel em Dourados — suscitam suspeitas adicionais. Bernardo Mota, especialista em branqueamento de capitais com 21 anos na Unidade de Informação Financeira brasileira, explica um possível mecanismo conhecido como “dólar cabo”, sistema de compensação cambial informal que permite movimentar valores entre países sem transferência direta de moeda estrangeira, facilitando a ocultação da origem dos fundos. “O princípio do branqueamento de capitais é distanciar o capital do nome de quem o possui”, sublinha.

O paradeiro e o papel de Vilson Antunes permanecem envoltos em silêncio. Confrontado com alegações sobre procurações falsas e a sociedade na casa de jogo, afirmou: “Não sou mais sócio da Metrus, vai ter de procurar a empresa lá [em Portugal]. Eles eram irmãos. A empresa tinha um projeto. Concluído o projeto, não havia mais nada para fazer. Se há uma pessoa prejudicada, aí vai ter de procurar os sócios e agir na justiça”. A investigação descreve ainda moradas consideradas de fachada e a dificuldade em obter esclarecimentos numa região marcada por forte presença do tráfico. Entre Angola, Brasil e Portugal, a teia financeira mantém zonas opacas, enquanto familiares diretos, como Maria Barros Pinto de Sousa, viúva de António, questionam o destino dos valores gerados: “Como é que o Zé Paulo conseguiu enganar o próprio irmão? Sempre lhe disse que a empresa tinha falido. Nunca nos deu um tostão. Para quem foi esse dinheiro?”.

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