Em busca da oportunidade a não perder

Por Jorge Rebelo de Almeida, presidente do Conselho de Administração do Vila Galé Hotéis

Depois da dramática crise que nos assolou nos últimos anos, a recuperação aconteceu mais rapidamente do que os mais optimistas esperariam.

Mérito do Governo? Sem dúvida! Pois tem sabido gerir com engenho e arte a conjuntura, restabelecendo um clima de confiança onde antes existia crispação acentuada.

Mérito do Presidente da República? Indiscutível! Superou todas as expectativas. Incansável, criativo, preparado, disponível, com intervenções discretas, mas também eficazes.

Mérito das empresas? Ainda que muitos procurem escamotear a sua acção, a verdade é que são as grandes obreiras da recuperação económica.

O desemprego está a baixar. Este ano, as empresas vão ter sérios problemas de encontrar pessoal adequado às suas necessidades. Já em 2017 sentimos dificuldades na Agricultura, na Hotelaria e, sobretudo, na Construção Civil.

Os trabalhadores estão já a ver melhorias na sua situação económica, sem que tenha havido qualquer alteração legislativa em matéria laboral que se não justifica nesta fase, podendo mesmo ter efeitos perversos.

Também os sindicatos com um papel cada vez mais próximo da irrelevância, correm atrás do prejuízo tentando colher louros de uma situação a que quase são alheios e procuram apenas colocar-se em “bicos dos pés” para darem nas vistas, com mais estragos do que benefícios para os trabalhadores e para a estabilidade.

Com vários indicadores a apresentarem resultados surpreendentes e altamente positivos, a Economia a crescer e um clima de confiança estabelecido transversalmente a toda a sociedade, com o Turismo em lugar de grande destaque. A nível do curto prazo, pode-se dizer que a situação está boa e recomenda-se. E a nível de médio/longo prazo?

E se surge uma nova crise, estamos preparados para a enfrentar? Se os juros subirem, a nossa dívida disparará e vamos ter novos apertos?

Para estas questões, as respostas já não são tão entusiasmantes. Mesmo para uma empresa optimista e viciada em novos projectos e investimentos como é o caso da Vila Galé, registamos algumas nuvens sombrias.

Acima de tudo, gostaríamos que uma conjuntura altamente favorável, com protagonistas políticos especialmente dotados para a geração de consensos na condução do País, fosse aproveitada para tomar medidas de fundo que nos encaminhassem para uma posição ascendente no quadro europeu e com uma real melhoria da qualidade de vida dos portugueses. Temos de ter ambição e ousadia para fazer mais e melhor.

A reforma da Administração Pública Central e Local é essencial, mas não tem de ser dramática nem abrupta. Deve ser programada de forma escalonada, tendo em vista uma maior eficácia e uma redução da despesa pública inútil.

Promover a meritocracia não é contra os trabalhadores. Pelo contrário, é em prol da valorização profissional e pessoal dos mesmos, recuperando-lhes a dignidade, o brio e a auto-estima.

A reorganização administrativa do País com redução do número de municípios e freguesias não é contra ninguém. É apenas contra a irracionalidade, contra o desperdício e definitivamente a favor da eficácia e da melhor funcionalidade.

A simplificação administrativa é um trabalho sem fim pois por cada medida simplificadora surgem logo três novas para complicar, o que obriga a uma intervenção contínua. Todas essas acções e outras mais reformas podem ser implementadas com sensatez, equilíbrio, rigor e transparência, como o Primeiro-Ministro demonstrou já ter capacidade para realizar.

A verdade é que as dificuldades e morosidade nos licenciamentos continuam a ser dos constrangimentos mais ferozes na captação de novos investimentos.

Continua a faltar um programa de captação de investimento nacional e estrangeiro com incentivos fiscais para esses projectos de crucial importância para o País. Continuamos à espera do surgimento de um plano de desenvolvimento do extraordinário potencial do interior do País, repetidamente esquecido.

Se razões de solidariedade e coesão nacional não chegarem para justificar esse plano efectivo, a motivação de aproveitar um enorme potencial desse interior, que também o Turismo está a descobrir e mostrar e os impactos na Economia global, serão certamente razões mais do que suficientes.

A redução da carga fiscal deve ser no essencial aproveitada para realizar investimentos e/ou reinvestimentos de lucros, em projectos de relevante interesse nacional.

Poderá o País “aguentar” mais algum esforço nesta matéria desde que esses impostos sejam canalizados para investimentos públicos reprodutivos ou para reduzir o colosso da dívida pública.

Para malbaratar em despesa pública improdutiva é que não! Vamos aproveitar com garra esta conjuntura pois não sabemos quando poderá repetir-se outra oportunidade.

Este artigo foi publicado na edição de Março de 2018 da revista Executive Digest.

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