Economia mundial mantém-se de pé, a “dobrar sem quebrar”, descrevem os analistas

A economia mundial continua a revelar capacidade de resistência, mas o cenário mantém-se delicado. Embora o impacto imediato da guerra comercial global tenha sido menos severo do que inicialmente temido, os economistas alertam que os verdadeiros efeitos poderão surgir com atraso.

André Manuel Mendes
Novembro 14, 2025
10:06

A economia mundial continua a revelar capacidade de resistência, mas o cenário mantém-se delicado. Embora o impacto imediato da guerra comercial global tenha sido menos severo do que inicialmente temido, os economistas alertam que os verdadeiros efeitos poderão surgir com atraso. Nem mesmo o recente boom do investimento em inteligência artificial (IA) consegue ocultar a fragilidade estrutural do atual equilíbrio económico.

“A economia mundial demonstrou uma resiliência notável no terceiro trimestre, com o Produto Interno Bruto (PIB) global a expandir-se ligeiramente acima do potencial esperado, apesar de uma série de obstáculos políticos e económicos. Contudo, a transição para uma nova ordem geopolítica e geoeconómica permanece incompleta, deixando o sistema vulnerável a choques tanto externos como internos. Os mercados financeiros estão imersos num clima de elevada incerteza”, afirma Hans-Jörg Naumer, Diretor de Mercados Globais de Capitais e Análise Temática da Allianz Global Investors (AllianzGI)

As elevadas expectativas em torno dos ganhos de produtividade impulsionados pela tecnologia contrastam com o risco crescente de um ciclo de sobre-investimento. Em paralelo, começam a surgir dúvidas quanto à sustentabilidade das valorizações recorde das gigantes da IA, que ainda não demonstraram lucros proporcionais ao seu valor de mercado. Antes de o otimismo em torno de um possível acordo para evitar o shutdown do Governo norte-americano ter animado as bolsas, o setor tecnológico já pressionava negativamente o desempenho dos mercados.

Nos Estados Unidos, surge agora uma divergência invulgar: enquanto o investimento em infraestruturas de IA e produção de semicondutores dispara, alimentando a produção industrial, o mercado laboral dá sinais claros de abrandamento. Historicamente, a evolução do emprego tem sido um indicador mais fiável da trajetória económica, razão pela qual esta discrepância está a ser analisada de perto.

Na zona euro, apesar das pressões externas, começam a surgir sinais ténues de melhoria. Uma política orçamental mais expansionista, o aumento do investimento em defesa e a resiliência do mercado de trabalho estão a dar algum suporte ao crescimento. A médio prazo, um reforço do investimento interno poderá reduzir a dependência europeia das exportações. Contudo, persistem riscos relevantes, como a crise orçamental em França e a contínua paralisia política nos Estados Unidos.

Na Ásia, a China enfrenta novamente a perda de dinamismo após uma breve recuperação. O setor imobiliário continua a ser um dos principais pontos fracos, agravado por elevados níveis de endividamento e por um abrandamento estrutural ligado às tendências demográficas. O Governo chinês está a recorrer a medidas monetárias e fiscais cirúrgicas que poderão permitir uma recuperação modesta em 2026.

Hans-Jörg Naumer explica ainda que a inflação global permanece teimosa, especialmente nos EUA, onde os novos pacotes de tarifas comerciais deverão voltar a exercer pressão sobre os preços. Resta saber quem suportará o custo adicional: consumidores, empresas ou exportadores estrangeiros. O cenário mais provável aponta para uma transferência significativa para os preços finais, abrindo a porta a uma nova vaga de aumentos moderados, mas persistentes, num contexto em que a economia já dá sinais de arrefecimento — uma espécie de “estagflação ligeira”.

Neste ambiente, os bancos centrais optam por uma postura mais prudente. A Reserva Federal norte-americana interrompeu a redução do seu balanço e voltou a cortar as taxas diretoras, com o objetivo oficial de apoiar o crescimento económico.

Apesar dos desafios, a economia global mantém-se de pé — a “dobrar sem quebrar”, como descrevem alguns analistas. Os próximos indicadores económicos, previstos para a próxima semana, deverão oferecer novas pistas sobre a capacidade do sistema em continuar a resistir.

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