A economia mundial continua a revelar capacidade de resistência, mas o cenário mantém-se delicado. Embora o impacto imediato da guerra comercial global tenha sido menos severo do que inicialmente temido, os economistas alertam que os verdadeiros efeitos poderão surgir com atraso. Nem mesmo o recente boom do investimento em inteligência artificial (IA) consegue ocultar a fragilidade estrutural do atual equilíbrio económico.
“A economia mundial demonstrou uma resiliência notável no terceiro trimestre, com o Produto Interno Bruto (PIB) global a expandir-se ligeiramente acima do potencial esperado, apesar de uma série de obstáculos políticos e económicos. Contudo, a transição para uma nova ordem geopolítica e geoeconómica permanece incompleta, deixando o sistema vulnerável a choques tanto externos como internos. Os mercados financeiros estão imersos num clima de elevada incerteza”, afirma Hans-Jörg Naumer, Diretor de Mercados Globais de Capitais e Análise Temática da Allianz Global Investors (AllianzGI)
As elevadas expectativas em torno dos ganhos de produtividade impulsionados pela tecnologia contrastam com o risco crescente de um ciclo de sobre-investimento. Em paralelo, começam a surgir dúvidas quanto à sustentabilidade das valorizações recorde das gigantes da IA, que ainda não demonstraram lucros proporcionais ao seu valor de mercado. Antes de o otimismo em torno de um possível acordo para evitar o shutdown do Governo norte-americano ter animado as bolsas, o setor tecnológico já pressionava negativamente o desempenho dos mercados.
Nos Estados Unidos, surge agora uma divergência invulgar: enquanto o investimento em infraestruturas de IA e produção de semicondutores dispara, alimentando a produção industrial, o mercado laboral dá sinais claros de abrandamento. Historicamente, a evolução do emprego tem sido um indicador mais fiável da trajetória económica, razão pela qual esta discrepância está a ser analisada de perto.
Na zona euro, apesar das pressões externas, começam a surgir sinais ténues de melhoria. Uma política orçamental mais expansionista, o aumento do investimento em defesa e a resiliência do mercado de trabalho estão a dar algum suporte ao crescimento. A médio prazo, um reforço do investimento interno poderá reduzir a dependência europeia das exportações. Contudo, persistem riscos relevantes, como a crise orçamental em França e a contínua paralisia política nos Estados Unidos.
Na Ásia, a China enfrenta novamente a perda de dinamismo após uma breve recuperação. O setor imobiliário continua a ser um dos principais pontos fracos, agravado por elevados níveis de endividamento e por um abrandamento estrutural ligado às tendências demográficas. O Governo chinês está a recorrer a medidas monetárias e fiscais cirúrgicas que poderão permitir uma recuperação modesta em 2026.
Hans-Jörg Naumer explica ainda que a inflação global permanece teimosa, especialmente nos EUA, onde os novos pacotes de tarifas comerciais deverão voltar a exercer pressão sobre os preços. Resta saber quem suportará o custo adicional: consumidores, empresas ou exportadores estrangeiros. O cenário mais provável aponta para uma transferência significativa para os preços finais, abrindo a porta a uma nova vaga de aumentos moderados, mas persistentes, num contexto em que a economia já dá sinais de arrefecimento — uma espécie de “estagflação ligeira”.
Neste ambiente, os bancos centrais optam por uma postura mais prudente. A Reserva Federal norte-americana interrompeu a redução do seu balanço e voltou a cortar as taxas diretoras, com o objetivo oficial de apoiar o crescimento económico.
Apesar dos desafios, a economia global mantém-se de pé — a “dobrar sem quebrar”, como descrevem alguns analistas. Os próximos indicadores económicos, previstos para a próxima semana, deverão oferecer novas pistas sobre a capacidade do sistema em continuar a resistir.














