E tudo acabou?

Por Manuel Lopes da Costa, Empresário

Este é o meu último artigo subordinado ao tema COVID, pandemia, vírus etc. Este conjunto de 28 artigos, sob título/tema “Portugal Pandémico – Um olhar diferente sobre os acontecimentos no nosso país durante a pandemia”, que começaram a ser publicados a 12 de Fevereiro de 2021, pretenderam tão simplesmente partilhar com os leitores a minha visão independente sobre tudo o que foi acontecendo. Desde o triste episódio “Então nós íamos mascarados para o 25 de abril? (Ferro Rodrigues in Observador.PT 21/04/20)passando por “DGS diz que não é necessário uso generalizado de máscaras para proteger contra o coronavírus” (in expresso.pt de 4/02/2020) até ao “Uso de máscara é para manter, mas decisão final cabe ao Parlamento” (Mariana Viera da Silva in tsf.pt 20/08/2021) muito se disse e a muito se assistiu mas, sobretudo, muito se sofreu e continuará a sofrer.

De acordo com o eco.sapo.pt de 24/08/2021, “A banca portuguesa cortou mais de 2.000 postos de trabalho e fechou 655 balcões no ano da pandemia.” Mas, infelizmente, não foram só os bancos. Já a 5 de março de 2021 o Publico.pt publicava “Portugal é quinto país da UE com maior impacto da pandemia no mercado de trabalho. Mulheres mais penalizadas”. E a situação só não foi pior durante estes últimos anos porque tivemos o mecanismo do lay-off simplificado. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho, mais de 100 000 empresas, empregando 1,3 milhões de pessoas — perto de um terço do total dos trabalhadores — candidataram-se ao regime de lay-off temporário simplificado o que permitiu às empresas suspenderem temporariamente os contratos de trabalho. Para os trabalhadores, o regime implicou um corte de um terço no salário. Ou seja, quem não ficou desempregado perdeu poder de compra. Fomos muito rápidos e veementes em socorrer a TAP mas esquecemo-nos que o tecido empresarial português é, maioritariamente, constituído por PMEs e, destas, por micro e nano empresas que, muitas sem conseguir o acesso aos apoios devido às regras (muitas delas só passiveis de ser cumpridas pelas grandes empresas), não tiveram outra solução senão fechar. O impacto na faturação fez-se sentir sobretudo nas empresas de acessórios de moda (-98%), seguidas pelos setores da educação (-97%), lazer (-96%), alojamentos turísticos e restauração (-74%).

Mas, agora, parece que tudo acabou. A Sra. Primeira-Ministra (em exercício e claramente putativa: Fernando Medina e Pedro Nuno Santos que se cuidem) veio informar-nos que: “Portugal vai deixar de estar em estado de calamidade devido à pandemia de covid-19 e passa a estado de contingência” ao mesmo tempo que “enfatizou a evolução positiva” (in Publico.pt de 20 de Agosto de 2021). Os países da europa a fechar e nós a abrir. “Average number of new infections reported each day in Germany rises by more than 5,100 over the last 3 weeks, 19% of its previous peak” (in graphics.reuters.com de 23/08/2021). É a nossa sina, andar sempre em contraciclo. Estamos iguais aquela mãezinha que vai ver o seu filhinho desfilar na parada e exclama: “Olha! Todos a marchar ao contrário, só o meu Toni é que está a marchar direito.”

Ajudado por uma jornalista e um diretor pactuantes e com grande eco televisivo, António Costa, hábil como sempre, inteligentíssimo na arte da política, aproveitou o seu tempo de férias para deixar a sua nova delfim no poder e dar uma entrevista de várias páginas enaltecendo os seus seis anos de governação. Não gosto de alimentar teorias da conspiração. Quero por isso crer que os que dizem que este palco mediático que o Expresso e a SIC têm vindo, ultimamente, a dar a vários elementos do governo nada terá a ver com o facto noticiado em março de 2020: “Como vão ser distribuídos os 15 milhões de euros destinados aos media? Esta terça-feira foi publicada a resolução que dá conta de quais são os grupos económicos e órgãos de comunicação social que irão receber o apoio. A maior fatia está destinada ao grupo Impresa, detentor da SIC e do jornal Expresso” (in publico.pt de 19/05/2020). No entanto, e relembrando o aforismo de Bruno Giordano: “Se non è vero, è molto ben trovato”.

Na minha opinião, não estamos bem. E não estamos bem nem muito menos tudo acabou ou está a acabar. A falta de cuidado que a população tem tido nestes últimos dias de estação estival, não augura nada de bom para o próximo outubro. Espero, sinceramente, estar redondamente enganado, que a pandemia vire endémica e que atinjamos a tão almejada imunidade de grupo. Mas, também, não estamos bem porque temos o “Número de funcionários públicos perto do nível mais alto de sempre. Portugal tem mais de 731 mil funcionários públicos, tendo já recuperado os que perdeu nos anos da troika, e poderá superar todas as estatísticas” (in expresso.pt de 20/08/2021) e “restauração, um dos símbolos desta crise, contabilizava em maio (últimos dados) perdas de mais de 20% face a maio de 2019. Mas a queda é muito maior nos transportes aéreos: -61% entre junho de 2019 e junho de 2021, com a diminuição nos passageiros a atingir 66%. Um sinal da crise no turismo. Apesar de alguma recuperação, o número de dormidas em junho ficou 53% abaixo do mesmo mês de 2019, muito penalizadas pela quebra de 72% nas dormidas de não residentes. Quanto ao mercado de trabalho, as colocações efetuadas pelos centros de emprego mostram dinamismo, mas o desemprego registado estava em junho 27% acima do mesmo mês de 2019.” (Sónia M. Lourenço in expresso.pt de 21/08/2020). A meu ver, estamos todos meio anestesiados tal como os que, na praia, olham para o retrocesso abrupto das águas antes de um tsunami na esperança de que nada aconteça. O problema é que acontece. As moratórias estão a acabar, os bancos vão começar a cobrar os seus empréstimos (o que é legítimo, trata-se de um negócio como qualquer outro) algumas tesourarias vão rebentar e, inexoravelmente, iremos assistir a mais casos como o da Dielmar. À pandemia, que já provocou divórcios, danos psicológicos e comportamentos sociais e familiares fora do normal, irá juntar-se uma taxa de desemprego crescente que nos vai lançar desafios empresariais e sociais de grande envergadura e como há muitos anos não tínhamos. Espero que o desespero e a falta de confiança nas instituições não deem lugar à demagogia e ao advento de regimes e doutrinas pouco democráticos. Desejo acordar deste pesadelo num Portugal melhor, mais justo, mais moderno e mais rico. Um Portugal onde todos tenham o direito de escolher entre o fazer pouco e ganhar pouco e o fazer muito e vencer na vida. Onde a riqueza seja vista como um bom exemplo a atingir e não um belzebu a abater. Onde todos, solidariamente, vivam em harmonia. Aguardem pelas minhas “Receitas para um Portugal melhor.”

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