“É preciso estar atento e forte para o que virá” no Brasil

A nove meses das eleições presidenciais no Brasil, o escritor brasileiro Itamar Vieira Júnior, em Portugal para celebrar o seu último livro “Coração sem Medo”, espera que o país continue “vigilante” para nunca mais “retroceder” .

Executive Digest com Lusa

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Lisboa, 04 mar 2026 (Lusa) – A nove meses das eleições presidenciais no Brasil, o escritor brasileiro Itamar Vieira Júnior, em Portugal para celebrar o seu último livro “Coração sem Medo”, espera que o país continue “vigilante” para nunca mais “retroceder” .


“Não acredito que estejamos no rumo certo. É tudo muito incerto”, afirmou Itamar Vieira Júnior à Lusa.


“Este ano teremos eleições novamente e já vivemos com artifícios que influem diretamente no debate franco, naquilo que a sociedade precisa (…). O debate já não é mais olho no olho, cara a cara, não é com as pessoas assistindo e tirando suas próprias conclusões”, lamenta. 


Lembrando que o debate está hoje nas redes sociais, em mensagens curtas ou ‘fake news’ que “confundem as pessoas”, o escritor brasileiro observa que nunca “a ficção ultrapassou as páginas dos livros, das histórias, dos romances para fazer parte do nosso quotidiano com tanta frequência”.


Considera, por isso, que a vigilância é o desafio maior: “É preciso estar atento e forte para o que virá e eu acho que o que aconteceu connosco só serviu como um choque para que a gente despertasse, que nada estava dado, que até o último dia das nossas vidas teremos que lutar pelas coisas boas, para todos nós, para a humanidade, e eu tenho certeza que a democracia não vai envelhecer, que daqui a 100 anos ainda vai ser a maneira que encontramos de ter uma sociedade mais equânime, daí a vigilância para preservarmos sempre a democracia, nunca retroceder”.


A prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro e o julgamento dos responsáveis pelo assassínio de Marielle Franco são para o escritor “sinais de esperança”, mas não significa que “as instituições estão funcionando perfeitamente”.


“Houve uma vigilância muito forte da sociedade civil que pediu respostas. Toda a mobilização e comoção que causou a tragédia que se abateu sobre Marielle e sobre nós, porque aquilo era um atentado contra todos nós, fez com que exigíssemos todos os dias que queríamos uma resposta, queríamos um julgamento justo que colocasse os responsáveis, que fossem punidos e que pudessem cumprir sua pena”, frisa.


Da mesma maneira, o ex-presidente Jair Bolsonaro foi julgado e preso pela tentativa de golpe. 


“Isso foi um passo importante, porque nenhum ditador que passou pelo Brasil, e olha que o ex-presidente não era um ditador, embora ele tenha tentado um golpe logo após as eleições, nenhum ditador que se sentou na presidência da república, foi julgado. Estes são sinais de esperança, que vivemos tempos novos, mas a gente não deve se distrair por um minuto. A gente deve estar vigilante para defender sempre e sempre a democracia”.


Em Portugal para encontros com os leitores, a propósito do último romance “Coração sem Medo”, Itamar Vieira Júnior confessa que “é sempre bom regressar” e recorda que foi o prémio Leya em 2018, que lhe abriu as portas do mundo, tendo já conquistado dois prémios Jabuti (o mais alto galardão da literatura brasileira), entre outros.


“Eu sempre coloco o Prémio Leya como marcador do meu tempo, como marcador da minha carreira como escritor, porque foi a partir dali que tudo mudou. Há um antes e um depois, com certeza”, afirma.


“A incapacidade que vamos consolidando de não saber mais coexistir com as diferenças, o romance, a literatura, a arte, elas sempre estão nos convocando a ocupar o lugar do outro, o lugar das personagens, a criar empatia com as dores alheias, algo que não faz parte do nosso quotidiano”, diz sobre o lugar da arte no mundo atual.


O escritor está em Portugal para uma ronda literária que percorre sete cidades, numa celebração do mais recente romance, “Coração Sem Medo”, que encerra a trilogia iniciada com “Torto Arado” e “Salvar o Fogo” e persegue a história dos desfavorecidos e da disputa de território, desta vez saindo do interior para a cidade (Salvador, capital do estado da Bahia).


A volta literária, organizada pela editora Dom Quixote, começou na Correntes d’Escritas, na Póvoa do Varzim, viajou para Cascais e Lisboa (última sessão hoje na Livraria Buchholz), seguem-se Setúbal (dia 05, Livraria Culsete), Porto (dia 06, Livraria Lello) e termina sábado no Festival Literário Húmus, em Guimarães.

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