E-mails, fotos e uma amizade envolta em mistério: como o caso Epstein arrastou o ex-príncipe André

Há mais de 1.800 referências ao nome do irmão do rei Carlos III nos arquivos tornados públicos

Francisco Laranjeira
Fevereiro 19, 2026
14:23

Um simples e-mail enviado em 2010 — “Tenho uma amiga com quem acho que você gostaria de jantar” — é hoje uma das peças que ajudam a reconstruir a ligação entre o então príncipe André e o financista Jeffrey Epstein. A troca de mensagens, revelada nos arquivos tornados públicos pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos e analisados pelo ‘El País’, integra mais de 1.800 referências ao nome do irmão do rei Carlos III.

Os documentos reforçam a imagem de uma relação próxima e prolongada entre André Mountbatten-Windsor e Epstein, que morreu na prisão em 2019 enquanto aguardava julgamento por tráfico sexual. O escândalo, que se arrasta há anos, ganhou novo fôlego com a divulgação recente de mais material judicial nos EUA e culminou agora na detenção do ex-duque de York.

Segundo o ‘El País’, a queda pública de André começou em 2019, quando foi afastado das suas funções oficiais após uma entrevista controversa à ‘BBC’. Em 2022, a rainha Isabel II retirou-lhe os títulos militares honorários e o tratamento de “Sua Alteza Real”, depois de ter sido acusado em tribunal nos EUA de abuso sexual quando a alegada vítima era menor. Em outubro de 2025, o Palácio de Buckingham anunciou que Carlos III iniciara o processo formal de retirada dos restantes títulos e distinções.

No centro das acusações está o testemunho de Virginia Giuffre, que afirmou ter sido forçada a manter relações sexuais com André quando tinha 17 anos. Em 2022, o caso terminou com um acordo extrajudicial multimilionário, sem admissão de culpa por parte do ex-príncipe. André sempre negou as acusações e chegou a afirmar que uma fotografia sua com Giuffre era falsa — versão posteriormente posta em causa por novos documentos.

Os arquivos divulgados incluem também imagens e mensagens que sugerem contactos continuados entre André e Epstein mesmo após a condenação do milionário em 2008. Um e-mail datado de 2011 contradiz a declaração do ex-duque de que teria cortado relações em 2010.

O escândalo não se limita às alegações de abuso sexual. De acordo com mensagens reveladas e citadas pelo ‘El País’, André terá partilhado informações financeiras confidenciais com Epstein durante o período em que foi enviado especial do Reino Unido para o Comércio Internacional. A eventual divulgação de dados sensíveis poderá configurar má conduta em cargo público.

Outros relatos dão conta de encontros com altos responsáveis chineses próximos do presidente Xi Jinping, alimentando suspeitas de possíveis ligações a esquemas de influência estrangeira. A polícia britânica investiga ainda a alegada utilização do aeroporto de Stansted por Epstein para transportar mulheres para o Reino Unido.

O nome de Sarah Ferguson, ex-mulher de André, surge também nos arquivos. E-mails indicam que Epstein terá financiado viagens da antiga duquesa e das filhas para os Estados Unidos. Após a divulgação dos documentos, várias organizações cortaram ligações com Ferguson, e a sua própria fundação anunciou o encerramento.

Em entrevista ao ‘El País’, o historiador Andrew Lownie sustenta que a família real tinha sido alertada pelos serviços de inteligência sobre as relações de André e de Ferguson. “É claro que foram avisados”, afirmou, defendendo que os avisos foram ignorados.

O Governo britânico enfrenta agora pressão política. O primeiro-ministro Keir Starmer instou André a depor perante uma comissão parlamentar, enquanto autoridades analisam milhares de páginas de documentos para determinar o alcance das ligações.

O caso Epstein, que já abalou elites políticas, financeiras e sociais em vários países, continua a produzir ondas de choque — e a colocar a monarquia britânica sob um escrutínio sem precedentes.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.