Por Luís Gil, Membro Conselheiro e Especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros
Ao longo destas minhas crónicas já me debrucei sobre várias formas de energia, vários tipos de tecnologias energéticas, vários vetores energéticos, mas nunca abordei o caso da energia geotérmica. Por isso, vou falar um pouco deste aproveitamento energético, natural e renovável, que tem acompanhado a civilização desde a Antiguidade. Lembramo-nos todos de ouvir falar nas termas romanas (balneoterapia), sendo que são muito referidas as que datam do século V a.C. em Delos e Olímpia, embora as mais conhecidas sejam as de Caracala, mas de que também há bons exemplos em Portugal (ex. Chaves, S. Pedro do Sul…).
Embora habitualmente se pense mais no potencial da energia geotérmica para aquecimento, esta pode ser também aproveitada para arrefecimento e produção de eletricidade. Atualmente, novas tecnologias derivadas da experiência na exploração do petróleo e do gás têm permitido o acesso a novos recursos e baixado os custos, abrindo novos horizontes neste domínio.
A energia geotérmica tem origem no interior da terra. Em termos médios, a temperatura aumenta, com a profundidade, cerca de 33ºC por Km. E este tipo de energia tem a vantagem de ser despachável, podendo compensar a intermitência de outras renováveis em termos de produção de eletricidade, pois as centrais geotérmicas têm a flexibilidade necessária para tal, aumentando também a segurança do abastecimento.
Em Portugal a produção de energia elétrica, com recursos à geotermia, encontra-se limitado ao arquipélago dos Açores, onde existem três centrais geotérmicas (na Ilha de São Miguel e na Terceira).
Segundo a International Energy Agency (IEA), a energia geotérmica satisfaz apenas menos de 1% da procura global de energia, mas esta agênvia prevê que, com os avanços referidos, a produção de eletricidade com base na geotermia possa atingir 15% da procura global de eletricidade em 2050. Em termos de utilização da capacidade instalada, a IEA refere também que a geotérmica teve uma taxa de utilização da capacidade instalada de 75%, enquanto a eólica se ficou pelos 30% e a fotovoltaica pelos 15%.
Para além da produção de eletricidade, a geotermia pode também proporcionar calor de baixa e média temperatura, seja para aquecimento residencial seja para fins industriais. Além disso, usualmente, necessita de menos ocupação do território para a mesma capacidade de produção de eletricidade comparativamente e outras renováveis. Uma outra vantagem, segundo a IEA, é a de que 80% do investimento requerido para um projeto geotérmico envolve capacidades e competências que já existem por serem comuns na indústria dos hidrocarbonetos líquidos e gasosos, permitindo a sua diversificação ou mesmo reconversão de atividade.
Em termos de perspetivas futuras no que respeita à produção de eletricidade por via geotérmica, com a expetativa da baixa de custos devida às novas tecnologias e evoluções esperadas, a IEA prevê para depois de 2035 um valor de 50 USD/MWh para a eletricidade produzida, constituindo este valor um dos mais baixos para fontes despacháveis de baixa emissão.
Pensando a geotermia como indústria, esta pode ser considerada nas três seguintes vertentes: 1 – geotermia clássica, ou tradicional, compreendendo a produção de eletricidade e o aquecimento urbano; 2 – geotermia superficial (de menor investimento)que aproveita o potencial térmico do solo e do subsolo a pequenas profundidades ou da água dos aquíferos superficiais, incluindo o armazenamento de calor e frio nos aquíferos e 3 – geotermia do futuro com sistemas geotérmicos estimulados em meios de elevada temperatura com fracturação hidráulica ou outra.
Uma aposta em novos projetos geotérmicos no nosso país, nomeadamente para a produção de eletricidade, terá que passar pela simplificação dos processos de aprovação e licenciamento, como aliás acontece com outras renováveis. Além disso, a associação com empresas com experiência e tecnologia no domínio da exploração do petróleo e do gás natural, poderia também ser uma possibilidade para catapultar um negócio deste género, com vantagens económicas e sociais associadas e sem a “má imagem” inerente ao negócio dos hidrocarbonetos.
Terá que haver uma maior integração da geotermia na agenda política nacional e definir políticas que permitam assegurem maior certeza futura a nível de remuneração, compensando a despachabilidade e flexibilidade desta tecnologia no apoio ao sistema energético nacional. O mapeamento das necessidades de calor e das indústrias passíveis de poderem utilizar o calor com origem geotérmica, seria também importante e permitiria cruzar esta informação com as localizações ideais para a exploração do calor geotérmico.




