De Kosovo à Índia: as novas alianças de Israel para escapar ao isolamento internacional

Nos dois anos que se seguiram aos atentados de 7 de outubro de 2023 — que despertaram uma onda inicial de simpatia e solidariedade global para com Israel — o cenário diplomático do país mudou radicalmente. As ações do governo israelita na Faixa de Gaza provocaram um profundo desgaste da sua imagem internacional e alteraram a perceção da opinião pública mundial, incluindo em regiões historicamente próximas de Telavive.

Pedro Gonçalves
Outubro 8, 2025
12:06

Nos dois anos que se seguiram aos atentados de 7 de outubro de 2023 — que despertaram uma onda inicial de simpatia e solidariedade global para com Israel — o cenário diplomático do país mudou radicalmente. As ações do governo israelita na Faixa de Gaza provocaram um profundo desgaste da sua imagem internacional e alteraram a perceção da opinião pública mundial, incluindo em regiões historicamente próximas de Telavive.

Nos Estados Unidos, tradicional bastião do apoio a Israel, uma sondagem recente do Pew Research Center revela que 59% da população tem hoje uma visão negativa do governo israelita, enquanto 39% considera que este “está a ir demasiado longe”. Entre os próprios judeus norte-americanos, um em cada quatro acredita que o que se passa em Gaza constitui um genocídio.

Essa mudança de perceção ficou evidente na última Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro, quando dezenas de delegados abandonaram o hemiciclo enquanto Benjamin Netanyahu discursava. A imagem, amplamente difundida nas redes sociais, foi vista como um símbolo do crescente isolamento de Israel. Mas, ao mesmo tempo, revelou outra realidade: os países que permaneceram na sala — muitos deles fora do círculo ocidental — são precisamente os novos aliados que Telavive tem vindo a cultivar nos últimos anos, numa estratégia deliberada de diversificação diplomática.

Segundo Eduard Soler, professor de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Barcelona, “Israel, perante a situação em que se encontra, tem vindo a apostar numa diversificação das relações com países do Sul Global. Não com todos, mas com alguns”. O académico sublinha que a Índia é “um caso muito interessante”, ao lado dos Acordos de Abraão, da cooperação com a China no porto de Haifa, e da coordenação com a Rússia em temas ligados à Síria. Também em África, acrescenta, Israel tem seguido “uma estratégia consistente de se aproximar de pequenos países, como o Malawi”.

Soler explica que, embora os Estados Unidos continuem a ser o principal garante da segurança israelita, Telavive “está consciente das fraturas crescentes com a Europa, o que pode afetar as suas relações com a União Europeia”. Por isso, há um esforço deliberado para “cultivar relações com outros atores para lá do círculo ocidental”.

Índia e Ásia: de adversários históricos a parceiros estratégicos
Entre os novos parceiros, a Índia representa um dos maiores sucessos diplomáticos de Israel nas últimas décadas. Historicamente alinhada com a causa palestiniana — a Índia opôs-se à partição da Palestina em 1947, reconheceu a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e recusou durante décadas estabelecer relações com Telavive — o país asiático mudou de rumo sob o governo de Narendra Modi.

Modi, admirador assumido da política israelita para com os palestinianos, mantém uma relação pessoal estreita com Netanyahu. Em 2017 tornou-se o primeiro primeiro-ministro indiano a visitar Israel. Desde então, ambos os países consolidaram uma aliança comercial e tecnológica assente sobretudo no comércio de armamento e tecnologias de defesa.

Nos últimos 25 anos, a Índia importou cerca de 5 mil milhões de dólares em armas israelitas. Durante a breve guerra com o Paquistão na primavera passada, drones israelitas participaram em operações, e aeronaves não tripuladas produzidas pelo consórcio Adani-Elbit Advanced Systems, fruto da cooperação entre Nova Deli e Telavive, foram utilizadas em Gaza.

Mesmo no atual contexto de tensão global, a Índia manteve os laços e, em setembro, assinou um novo acordo comercial para facilitar investimentos bilaterais. Hoje, é o segundo maior parceiro comercial de Israel na Ásia, apenas atrás da China.

De acordo com Yoram Evron, professor da Universidade de Haifa, antes dos anos 1990, a cooperação israelita limitava-se “aos países mais pobres da Ásia, dispostos a aceitar assistência de um Estado marginalizado”. Agora, afirma, “os parceiros-chave de Israel incluem a China e a Índia, cruciais para a sua economia, segurança e posicionamento estratégico”.

Balcãs: o caso peculiar de Kosovo e Sérvia
Israel também procurou aliados improváveis nos Balcãs, especialmente em Sérvia e Kosovo. Em 2021, Telavive rompeu uma política de mais de uma década e reconheceu a independência de Kosovo, temendo, até então, que esse gesto incentivasse uma iniciativa semelhante dos palestinianos.

A decisão, tomada após o acordo mediado por Donald Trump entre Belgrado e Pristina, surpreendeu os observadores e desagradou à Sérvia, que reduziu a sua representação diplomática em Israel. Ainda assim, no último ano, as relações voltaram a aproximar-se. Belgrado aderiu a uma declaração liderada pelos Estados Unidos a exigir a libertação dos reféns israelitas em Gaza e, segundo relatórios internacionais, tem vendido armas ao governo de Netanyahu.

O Begin-Sadat Center for Strategic Studies explica esta aproximação pela “proximidade de Belgrado a Moscovo” e pela tentativa sérvia de controlar a política externa da antiga Jugoslávia.

África: o regresso de Israel ao continente
Israel tem vindo a reforçar a sua presença em África, com 13 missões diplomáticas, três representações económicas e um adido militar no continente. Este verão, o ministro dos Negócios Estrangeiros israelita, Gideon Saar, viajou até Zâmbia para reabrir a embaixada em Lusaca, encerrada há mais de meio século. “Israel regressa a África”, afirmou Saar, garantindo que “muitos países africanos estão na fila para receber uma embaixada israelita”.

Nos últimos meses, Telavive também estreitou laços com Nigéria, Sudão do Sul e Malawi. Neste último caso, Israel inaugurou uma embaixada em 2024 e assinou um acordo económico. A ministra dos Negócios Estrangeiros malauiana, Nancy Tembo, declarou durante a cerimónia: “Continuaremos a apoiar Israel, mesmo quando outros não o fizerem”, acrescentando que “nunca presenciou atos tão desumanos como os de 7 de outubro”.

Segundo Eduard Soler, esta aproximação a pequenos países africanos não tem apenas uma dimensão simbólica: “São relações úteis para Telavive, por exemplo, para atrair trabalhadores de países como o Malawi em momentos de escassez de mão de obra, como aconteceu após os ataques de 2023”.

América Latina: uma frente complexa
Na América Latina, a estratégia israelita tem resultados mistos. Embora Israel tenha mantido relações com quase todos os países da região desde a sua fundação, as posições divergem conforme o alinhamento político dos governos. Países como Argentina, Paraguai, Uruguai, Guatemala, Panamá, El Salvador e México têm mantido laços próximos, enquanto Brasil e Chile, sob governos de esquerda, criticam a ofensiva em Gaza sem romper relações.

Por outro lado, Venezuela e Cuba mantêm relações cortadas desde 2009 e 1973, respetivamente, e Nicarágua e Bolívia têm alternado entre ruturas e reaproximações.

O caso mais significativo é o da Colômbia, tradicional aliada de Israel, que rompeu relações diplomáticas em 2024 sob a presidência de Gustavo Petro. Após críticas à atuação israelita, Telavive suspendeu exportações de material de defesa, e Bogotá retaliou com o cancelamento de contratos de armamento. Em maio, Petro anunciou o corte total de relações, substituindo a cooperação militar israelita por negociações com a Suécia para a compra de aviões Saab Gripen.

Na semana passada, depois de duas mulheres colombianas terem sido detidas por Israel enquanto viajavam na Flotilha Sumud, Petro ordenou a expulsão da delegação diplomática israelita do país.

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