Custos dos incêndios superam (mesmo num ano “bom”) o que o Estado gasta atualmente em prevenção

O Estado português já gastou mais de 3,5 mil milhões de euros com incêndios florestais desde 2017, ano trágico que marcou recordes de área ardida, mas os custos das tragédias continuam a superar o investimento feito na prevenção.

Revista de Imprensa
Agosto 26, 2025
9:48

O Estado português já gastou mais de 3,5 mil milhões de euros com incêndios florestais desde 2017, ano trágico que marcou recordes de área ardida, mas os custos das tragédias continuam a superar o investimento feito na prevenção. Apesar de, desde 2021, mais de metade da despesa pública anual nesta área estar a ser canalizada para medidas preventivas, as estimativas de impacto económico revelam que os prejuízos provocados pelos fogos ultrapassam largamente o dinheiro investido. A análise foi publicada pela revista Sábado.

O Presidente da República voltou recentemente a insistir na necessidade de reforçar a aposta nesta área. “É preciso sensibilizar todo o país que aceita facilmente que, para circular numa grande metrópole, 100, 200 ou 400 milhões sejam investidos, [mas] não acha ou não percebe que seja tão urgente investir 100, 200, 300 milhões na prevenção dos fogos”, declarou Marcelo Rebelo de Sousa. Contudo, os dados oficiais revelam que o Estado já ultrapassa anualmente os 300 milhões de euros neste domínio.

Ainda assim, os números confirmam que a despesa é insuficiente para travar o problema. Francisco Moreira, professor no Instituto Superior de Agronomia e especialista em fogos florestais, sublinha que os resultados demoram a surgir e dependem também de fatores externos. “Posso mostrar-lhe um gráfico com a área ardida todos os anos que mostra que 75% do que arde é uma espécie de ‘diz-me qual foi o clima nesse ano e eu digo-te quanto ardeu’”, afirmou, acrescentando que a forte correlação entre área ardida e clima revela que as políticas “não estão a ter efeito ou que estão a ter um efeito muito marginal”.

O especialista defende que só a transformação estrutural da paisagem permitirá resultados duradouros, combatendo o abandono agrícola e promovendo a gestão ativa da floresta. Estudos do Instituto Superior de Agronomia indicam que freguesias com pelo menos 60% da área ocupada por atividades agrícolas ou de pastoreio apresentam menor variação anual na área ardida.

Essa necessidade de intervenção encontra eco no relatório de 2024 do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais, entregue em junho no Parlamento, que destaca a prioridade dada a “despesas de atividades de valorização e gestão do território” e a incentivos à diversificação da economia rural. Marcelo Rebelo de Sousa foi mais longe ao defender que o Estado e as autarquias assumam diretamente a limpeza das matas, já que milhares de pequenos proprietários não têm incentivos económicos para essa gestão.

Mas as contas revelam a dimensão do desafio. O jornalista Pedro Almeida Vieira estima que seriam necessários cerca de 900 milhões de euros anuais para o Estado assegurar sozinho a gestão e limpeza da floresta portuguesa. Em contrapartida, os custos anuais dos incêndios são ainda mais avultados: só entre 2000 e 2016, os prejuízos sociais totais foram calculados em 6,6 mil milhões de euros pela Comissão Técnica Independente, uma média superior a 400 milhões por ano.

Nos últimos anos, as perdas também foram significativas. O Banco Mundial avaliou em 377 milhões de euros o impacto dos incêndios de 2023, mesmo num ano considerado “bom”, com área ardida sete vezes menor do que em 2025. Já a Ordem dos Economistas estima que só este ano os prejuízos ascendam a 2,3 mil milhões de euros. Ainda que difíceis de calcular com precisão, estas contas confirmam que os fogos florestais continuam a representar um encargo muito superior ao investimento feito em prevenção.

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