Com quase mil mortos em apenas 24 horas, a Alemanha, até agora com um papel exemplar no combate à covid-19, torna-se um dos países mais afetados pelo vírus: passando do limiar de apenas 6.000 contágios para 27. 728 e contando já com 952 mortes num só dia. A Alemanha soma um total de 23.427 mortos, com uma média de 341 casos, por cada 100 000 habitantes, sendo apenas ultrapassada por Itália com uma média de 428 mortos. A revista Der Spiegel descreve a situação como “o maior erro político deste ano”.
Hoje de manhã, o balanço diário do Instituto Robert Koch (RKI) dava conta de 26.923 novas infeções pelo novo coronavírus nas últimas 24 horas na Alemanha, país que permanece em confinamento parcial e que decidiu endurecer, no passado domingo, as regras para travar os contágios com o encerramento de escolas e de todo o comércio não-essencial a partir da última quarta-feira (dia 16 de dezembro) até 10 de janeiro.
Mas o Instituto Robert Koch, autoridade responsável pela prevenção e controlo de doenças na Alemanha, esclareceu que estes dados iniciais não incluíam os registos da região Baden-Württemberg (sudoeste), que contabilizou um total de 3.500 novos casos nas últimas 24 horas.
Os dados de Baden-Württemberg não foram inicialmente contabilizados devido a razões técnicas. Revistos os dados, a Alemanha ultrapassou a fasquia dos 30 mil novos casos diários, um nível que nunca tinha sido atingido no país, nem mesmo na primeira vaga da pandemia, na primavera.
O número de vítimas mortais contabilizado no país nas últimas 24 horas mantém-se inalterado: 698. Em termos totais, e desde o início da crise pandémica, os casos de infeção pelo novo coronavírus recenseados no país ascendem aos 1.406.161. A Alemanha também contabiliza um total de 24.125 mortes associadas à doença covid-19 e cerca de 1.047.600 pessoas recuperadas, segundo os dados do RKI.
Para já não existe uma explicação formal para este problema, como reconhece o Instituto Robert Koch (RKI), mas a opinião pública alemã tem vindo a concordar que o seu país enfrentou esta questão a duas velocidades. Segundo responsáveis do Instituto, “há mais de um mês, quando começou o crescimento exponencial de casos, devia ter havido um esforço conjunto quer do Governo quer dos Estados Federais alemães” para organizar um ‘lockdown’ na altura certa, algo que por pressão destes últimos não aconteceu. “Angela Merkel pedia medidas mais firmes mas alguns länder (estados federais) resistiram, arrastando assim os pés”, escreve, por outro lado, o diário El País.
Para além da falta de medidas concretas, o jornal espanhol aponta a “falsa sensação de segurança que se respirou durante algum tempo”, sobretudo na zona este alemã, onde a primeira onda passou “praticamente despercebida” , como é o caso de Sajonia, na Turíngia, que têm respetivamente 400 e 255 casos por 100 000 habitantes.
Atuar demasiado tarde
Clemens Wendtner, chefe médico do Hospital Schwabing de Munique – local onde se trataram os primeiros pacientes com covid-19 -, acusa as forças políticas: “atuaram tarde, levámos semanas a avisar” e ainda acrescenta que “as medidas de outubro foram muito suaves, os políticos acharam que não viria uma segunda onda no inverno” e “a situação agora é tensa”.
Atualmente o Hospital Schwabing de Munique tem ocupadas 96% das camas dos cuidados intensivos, sendo 25% para doentes covid. Nos cuidados intermédios existe a necessidade de transportar doentes de helicóptero para outras regiões.
Paralelamente, a associação de enfermeiros assinala “a falta de profissionais qualificados”, condição que, nesta crise, se fez sobretudo notar nos lares e nos hospitais, cerca de 100 000, conforme aponta a organização.
Jonas Schmidt-Chanasit, do Instituto Bernhard-Nocht de Hamburgo, vai ainda mais longe e afirma que não houve cuidado suficiente por parte destes e de outros profissionais nos lares e residências, que desde o início deviam ser vistos como “foco de proliferação de casos”.
Só no final de outubro o Governo Federal e os 16 Estados Federados decidiram aplicar verdadeiras medidas de confinamento em todo o país. A partir desse momento, a curva epidemiológica estabilizou. No entanto, o refreamento das medidas, por ocasião dos preparativos para o Natal, levou a outro crescimento, novamente exponencial, fazendo com que os 16 responsáveis pelos Estados Regionais se reunissem de emergência com Merkel, no último domingo. Na sequência desse encontro foi decidido voltar a encerrar todo o comércio e a incentivar o isolamento domiciliário dos cidadãos, sendo permitidas saídas para a rua apenas “quando necessário”.
O Governo alemão, em cooperação com os Estados Federados, recomenda ainda que ninguém viaje para o estrangeiro e obriga a que todos, no regresso, fiquem de quarentena. As férias escolares foram prolongadas até 10 de janeiro e este ano foram abolidos todos os festejos públicos de Natal e Ano Novo.







