Numa altura em que restam apenas cerca de mil gorilas das montanhas no nosso planeta, com mais da metade a viver no Uganda, onde décadas de intensas ações de conservação deram origem à esperança, os especialistas alertam agora que um aumento nos níveis de caça furtiva devido à Covid-19 pode ter implicações “catastróficas”, arriscando a extinção desta espécie.
Craig Sholley, vice-presidente da ‘African Wildlife Foundation’, em declarações ao ‘The Independent’ explicou que as atividades de combate à caça furtiva em toda a África “diminuíram devido à perda de importantes receitas do turismo, na sequência da pandemia da Covid-19. Mas, para o gorila da montanha, existe ainda o risco adicional de transmissão do coronavírus, que pode ser catastrófico. Pode ser sua morte”.
“Os gorilas da montanha vivem em duas populações relativamente fechadas, o que os torna muito vulneráveis e seu futuro incrivelmente frágil”, reforçou a especialista.
Em junho, a trágica perda de um gorila (batizado de Rafiki) para os caçadores furtivos no Parque Nacional de Bwindi, no Uganda, provocou uma onda de choque na comunidade de conservação, e levou as autoridades do parque a intensificar os esforços para proteger os macacos que ainda restam. Agora, com a pandemia, os próprios guardas florestais representam uma potencial, e fatal, ameaça de contágio para os gorilas.
Os gorilas compartilham 98% do DNA humano e podem contrair doenças respiratórias dos humanos. Uma pesquisa de 2008 revelou a primeira evidência de transmissão de vírus de humanos para macacos selvagens.
Neste momento, os cientistas alertam que a introdução de um novo vírus altamente infeccioso, como a Covid-19, nos gorilas das montanhas, pode levá-los à beira da extinção. Mas ainda não foram encontrados gorilas positivos para o vírus, sendo que um gorila do zoológico da Flórida que morreu recentemente foi testado assim que adoeceu.
Para Gladys Kalema-Zikusoka, fundadora da Conservação pela Saúde Pública, a trabalhar em Bwindi, é de facto “um grande perigo para os macacos no Uganda que qualquer caçador que se aproxime possa ter Covid-19. Já houve dois estudos que mostram que os primatas têm exatamente os mesmos recetores de proteína que os humanos aos quais o vírus se liga”, reforçou.
Apesar do impacto sobre o turismo, j+a em crise devido à pandemia, o Presidente do Uganda, Yoweri Museveni, agiu decisivamente em março, interrompendo todo as atividades turísticas com primatas.
Agora, enquanto o setor de turismo agiliza novas medidas para reabrir, paira um grande ponto de interrogação sobre a suscetibilidade dos gorilas das montanhas ao vírus.







