Continente: Reduzir emissões e desperdício: caminhos para um modelo mais sustentável

O Continente tem vindo a reforçar o seu compromisso com a sustentabilidade, implementando medidas para reduzir a pegada ambiental e promover práticas circulares.

Executive Digest
Novembro 19, 2025
12:11

O Continente tem vindo a reforçar o seu compromisso com a sustentabilidade, implementando medidas para reduzir a pegada ambiental e promover práticas circulares.

O retalho enfrenta hoje desafios crescentes na gestão ambiental, desde a redução das emissões de carbono até à minimização do desperdício alimentar e à promoção da economia circular. Para responder a estas exigências, as empresas têm vindo a implementar estratégias integradas que combinam eficiência operacional, inovação tecnológica e educação dos consumidores, procurando reduzir a pegada ambiental em todas as etapas da cadeia de valor. O Continente, como um dos principais operadores do sector, tem vindo a alinhar estas medidas com metas ambiciosas de sustentabilidade, promovendo práticas responsáveis não só nas suas lojas e centros logísticos, mas também junto de fornecedores e clientes.

Em entrevista à Executive Digest, Mariana Pereira da Silva, head of Sustainability do Continente, explica as prioridades da empresa, as iniciativas já implementadas, os desafios enfrentados e os objectivos ambientais que pretende atingir nos próximos anos.

Quais são hoje as principais prioridades do Continente no caminho para reduzir a sua pegada ambiental?

No Continente acreditamos que, enquanto retalhistas, devemos promover a democratização do acesso a uma cesta mais saudável e sustentável, actuando como catalisadores da transformação necessária no sistema alimentar, alinhando os nossos parceiros em torno das melhores práticas, promovendo maior transparência e assegurando escolhas mais informadas junto dos nossos clientes.

Este esforço concretiza-se na prossecução de quatro agendas – acção climática, circularidade, produção sustentável e oferta responsável – que se interligam e complementam, com vista à construção de um futuro que respeite as pessoas, o Planeta e as comunidades.

Com a agenda da acção climática, ambicionamos assegurar a descarbonização e adaptação das nossas operações, em linha com o necessário para garantir que limitamos o aumento da temperatura global ao cenário de 1,5°C.

Na circularidade, procuramos assegurar uma maior eficiência no consumo de recursos e o reforço de práticas circulares. Destacam-se aqui a procura por soluções de embalamento mais sustentáveis, a criação de produtos e serviços circulares, o combate ao desperdício alimentar e a optimização da recolha e triagem de resíduos, visando a valorização e reintegração de materiais na cadeia.

Com a agenda da produção sustentável, o foco das nossas equipas está em fomentar, junto dos nossos fornecedores e produtores, a adopção de práticas produtivas com baixa pegada ambiental e socialmente responsáveis.

Finalmente, com o eixo da oferta responsável, pretendemos potenciar a oferta de produtos mais sustentáveis e saudáveis, bem como facilitar a sua escolha por parte do consumidor.

Que medidas concretas já foram implementadas para tornar as operações mais sustentáveis?

Para cada uma das agendas que mencionei anteriormente, temos um plano de acção com medidas específicas, que abrangem toda a nossa cadeia de valor e diferentes partes interessadas. Focando nas operações, as agendas com maior contributo para a mitigação dos seus impactos são a acção climática e a circularidade.

Na acção climática, destacaria o investimento contínuo para assegurar o consumo de electricidade de origem renovável, o que se traduz no aumento da nossa capacidade de produção de energia no local, através da instalação de painéis fotovoltaicos nas nossas lojas e entrepostos. Este investimento é complementado pela negociação de Power Purchase Agreements (PPAs) de fonte renovável.

A optimização da nossa logística, a electrificação do last mile e das nossas viaturas de serviço constituem outro eixo importante de acção. Paralelamente, temos em curso um plano de substituição das nossas centrais de frio, bem como um programa contínuo de promoção da ecoeficiência nas lojas.

No eixo da circularidade, mantemos o foco nas iniciativas de combate ao desperdício alimentar, como o aceleramento do escoamento de produtos e o programa de doações, que em conjunto permitiram evitar cerca de 76 mil toneladas de desperdício em 2024.

O investimento na triagem e encaminhamento dos resíduos gerados na operação permitiu alcançar uma taxa de valorização de 85,3%. Reforçámos também os serviços disponibilizados aos nossos clientes com o novo conceito de Ecospot, um espaço onde podem depositar pilhas e lâmpadas usadas, rolhas, cápsulas de café, óleos alimentares usados e têxteis, garantindo o melhor encaminhamento possível dos materiais.

Os pontos de recolha do futuro Sistema de Depósito e Reembolso (SDR) serão integrados nos Ecospots – um novo fluxo que permitirá melhorar a reciclagem das embalagens de bebidas.

A redução do plástico tem sido um dos grandes desafios do retalho. Como estão a trabalhar este tema?

No Continente procuramos ter uma visão e uma abordagem holística ao tema das embalagens, que são fundamentais para assegurar a conservação e preservação dos alimentos, o seu armazenamento e transporte, bem como a segurança alimentar e o combate ao desperdício.

O desenvolvimento das nossas embalagens tem em consideração as suas funcionalidades e é feito de acordo com os princípios do design for recycling. Procuramos eliminar embalagens ou componentes desnecessários, reduzir a quantidade de material ao mínimo mantendo a preservação e funcionalidade do produto, diminuir o uso de material virgem privilegiando o reciclado e facilitar a reciclagem, optando por monomateriais.

Para envolver os consumidores na transição para um modelo mais circular, criámos, em parceria com a SPV, uma iconografia que indica de forma simples e clara o descarte adequado das embalagens.

Em 2024, esta abordagem permitiu atingir uma taxa de reciclabilidade de 90,1% nas embalagens de plástico mapeadas.

Ainda existem desafios a ultrapassar para atingirmos o nosso objectivo de assegurar que 100% das nossas embalagens sejam recicláveis, pois alguns tipos carecem de soluções industrialmente viáveis que não comprometam a qualidade ou validade dos produtos, bem como da criação de novos fluxos de triagem.

Que papel desempenha a eficiência energética nas lojas e nos centros logísticos?

A ecoeficiência tem um papel central na forma como concebemos e gerimos as nossas operações, permitindo optimizar consumos de água e energia, minimizar o desperdício alimentar e reduzir as emissões de gases com efeito de estufa.

Ao longo dos anos, tanto em contexto de expansão como de remodelação, temos investido de forma contínua na instalação de equipamentos mais eficientes. O Sistema de Gestão Ambiental (SGA) implementado nas lojas e entrepostos tem contribuído de forma significativa para os resultados alcançados, potenciando a adopção das melhores práticas.

Complementarmente, os sistemas de monitorização e acompanhamento asseguram a capacidade de actuação atempada das equipas, reforçada por programas de formação, procedimentos e auditorias que maximizam o retorno dos investimentos realizados.

Como é feita a gestão de desperdício alimentar e quais os resultados alcançados até agora?

O combate ao desperdício é uma das prioridades do Continente. Para o efeito, temos vindo a investir e a implementar um conjunto alargado de iniciativas e ferramentas que permitem melhorar os mecanismos de aprovisionamento, reforçar a formação e o acompanhamento das nossas equipas, bem como acelerar o escoamento de produtos – através, por exemplo, da etiqueta rosa e da Caixa Zero Desperdício – a par do nosso programa de doações.

Além das medidas operacionais, o Continente tem investido na literacia dos consumidores, através de diversas campanhas de sensibilização e da incorporação do selo “Observar, Cheirar, Provar”, em parceria com a Too Good To Go.

Temos igualmente colaborado com os nossos produtores na implementação de medidas que minimizam o desperdício na origem, como a Gama Zero Desperdício e a Feira do Desperdício, criada pelo Clube de Produtores Continente, que visa estabelecer pontes entre produtores e reduzir o desperdício a montante.

Qual a importância da relação com os fornecedores na construção de uma cadeia de valor mais sustentável?

A construção de uma cadeia de valor mais sustentável depende de um esforço conjunto dos diferentes stakeholders que a compõem.

O retalho, por ocupar uma posição central na cadeia, pode e deve ser um agente de mudança, promovendo e reforçando os princípios da sustentabilidade junto de fornecedores e clientes.

No âmbito da Produção Sustentável, trabalhamos com os nossos produtores para reduzir a pegada ambiental dos produtos, assegurar a zero desflorestação nas matérias- primas críticas, a redução da pegada de carbono da nossa cesta e a promoção de uma cadeia justa, que respeite e valorize os direitos humanos.

Os consumidores estão cada vez mais atentos às práticas ambientais. De que forma a empresa responde a essa exigência?

Os consumidores estão cada vez mais atentos à saúde, proveniência e modo de produção dos alimentos. Privilegiam também produtos clean-label, informação clara dos ingredientes e embalagens sustentáveis.

Na Oferta Responsável, queremos potenciar a oferta de produtos mais sustentáveis e saudáveis pela gama, pelo preço e pela disponibilidade e facilitar a escolha, por parte do consumidor com melhor informação, promovendo comportamentos mais saudáveis e sustentáveis e reforçando a literacia para a sustentabilidade. A proximidade com os clientes permite à MC desempenhar um papel activo na divulgação de boas práticas no dia-a-dia.

A inovação tecnológica tem ajudado a reduzir a pegada ambiental? Pode dar exemplos?

A inovação tecnológica tem sido fundamental para reduzir a pegada ambiental das operações do Continente. São inúmeros os projectos que temos em curso. Um dos exemplos é o projecto europeu POCITYF, que visa tornar as cidades históricas mais verdes e resilientes, e que permitiu melhorar a gestão energética da loja Continente Évora através da instalação de equipamentos mais eficientes, capazes de aproveitar a energia fotovoltaica gerada localmente. A loja conta ainda com uma bateria para armazenar excedentes de energia renovável, gerida por um algoritmo de inteligência artificial, que optimiza o seu consumo.

No âmbito da gestão de resíduos, destaca-se o projecto Recicla+, integrado na agenda Sustainable Plastics do PRR, que permitiu criar um novo fluxo de valorização para cápsulas de café pós-consumo. Este projecto transforma o plástico e a borra de café em novos produtos sustentáveis, como biofertilizante líquido, contribuindo para uma economia mais circular.

Como é feita a monitorização e medição do impacto das iniciativas ambientais?

A MC tem vindo a reforçar a monitorização e medição do impacto das iniciativas ambientais através da implementação de sistemas mais eficazes de gestão de consumos e resíduos.

A instalação de contadores com telemetria, a realização de auditorias ambientais e o uso de ferramentas digitais permitem acompanhar, em tempo real, o consumo de energia e água nas lojas e centros logísticos.

A informação é disponibilizada às equipas operacionais através de dashboards interactivos, promovendo a melhoria contínua da performance ambiental e uma gestão mais informada e proactiva dos recursos.

Quais são os maiores desafios internos que enfrentam na implementação de medidas de redução da pegada ambiental?

A implementação de medidas para reduzir a pegada ambiental é um compromisso estratégico para o Continente, mas traz consigo diferentes desafios.

No plano operacional, a transição para práticas mais sustentáveis exige, muitas vezes, alterações de procedimentos, criação de novos processos e coordenação entre várias equipas.

Muitos projectos requerem investimentos iniciais significativos, o que implica uma gestão cuidadosa dos recursos e uma visão de longo prazo. A complexidade técnica e logística associada à remodelação de infraestruturas e à integração de novas tecnologias exige também planeamento rigoroso e execução especializada.

Superar estes desafios é essencial para consolidar operações responsáveis e resilientes, capazes de atingir os objectivos ambientais definidos e responder às expectativas da sociedade.

Que objectivos se propõem atingir nos próximos anos em matéria de sustentabilidade ambiental?

O Continente está comprometido com metas ambiciosas de sustentabilidade ambiental.

Pretendemos descarbonizar totalmente as operações até 2040, com uma redução intermédia de 51% das emissões operacionais até 2032.

Além disso, queremos reduzir as emissões da cadeia de abastecimento em 31% até 2032 e combater a desflorestação até 2030, assegurando práticas responsáveis em todas as etapas da cadeia de valor.

Outro objectivo central é garantir que 100% das embalagens das marcas próprias sejam recicláveis, promovendo uma economia circular eficaz, e reduzir em 50% o desperdício alimentar gerado nas nossas operações.

Estes compromissos reflectem a ambição do Continente em liderar a transição para um modelo de negócio mais sustentável, contribuindo activamente para a neutralidade carbónica, a protecção dos recursos naturais e o bem-estar das comunidades.

Este artigo faz parte do Caderno Especial “Redução da pegada ambiental”, publicado na edição de Outubro (n.º 235) da Executive Digest.

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