A sustentabilidade deixou de ser uma dimensão paralela do negócio do Continente para assumir um papel central nas decisões estratégicas e operacionais da insígnia e na relação com consumidores, produtores e comunidades. Num contexto em que os critérios ambientais, sociais e de governação ganham peso nas decisões empresariais e no escrutínio dos mercados, a empresa defende uma abordagem em que a sustentabilidade não é um elemento acessório, mas uma componente estruturante da estratégia e da gestão e uma alavanca de criação de valor para o negócio, para as pessoas e para o Planeta.
Mariana Pereira da Silva, directora de Sustentabilidade do Continente, explica que esta visão resulta de um percurso de décadas. A empresa foi a primeira do sector do retalho e distribuição em Portugal a apresentar uma Política de Ambiente, em 1998, tendo depois lançado os primeiros programas de ecoeficiência e publicado um dos primeiros relatórios de sustentabilidade do sector. Hoje, segundo a responsável, a sustentabilidade está cada vez mais integrada na forma como a organização define prioridades, toma decisões e desenvolve iniciativas.
A estratégia assenta em quatro pilares: acção climática, com o objectivo de descarbonizar as operações em linha com a meta do Acordo de Paris de limitar o aquecimento global a 1,5 graus Celsius; circularidade, com uma utilização mais eficiente dos recursos; produção responsável, com a promoção de práticas de menor impacto ambiental; e oferta responsável, assegurando o acesso a uma alimentação mais equilibrada. Esta visão é complementada com a estratégia de Pessoas e Apoio à Comunidade.
Pela posição que ocupa entre produtores e consumidores, o Continente considera ter condições privilegiadas para inf luenciar comportamentos em toda a cadeia de valor. A escala da operação, a proximidade aos consumidores e a relação construída com parceiros permitem promover práticas mais responsáveis desde a produção até ao momento da compra, uma lógica que atravessa as grandes agendas da estratégia.
Acção climática e descarbonização
No plano da acção climática, o compromisso mais visível é a meta de neutralidade carbónica até 2040, que antecipa em dez anos o objectivo definido pela União Europeia. Até 2032, a empresa compromete-se ainda a reduzir em 51% as emissões face aos níveis de 2022.
A execução está assente num roteiro claro e é acompanhada através de indicadores operacionais concretos: a evolução da pegada carbónica das operações é complementada por um conjunto de indicadores como os de eficiência energética, o grau de instalação de centrais fotovoltaicas nas lojas ou a renovação das centrais de frio. A descarbonização é, assim, tratada como um programa de transformação da operação, e não como um compromisso declarativo.
Esta agenda tem uma fronteira cada vez mais tecnológica. A electrificação crescente dos consumos, impulsionada pela descarbonização das operações e pela criação de novos serviços que integram a proposta de valor do Continente, torna o investimento em sistemas de monitorização e informação essencial para manter a eficiência energética no centro da tomada de decisão. Este novo contexto exige abordagens mais flexíveis e informadas, capazes de responder à complexidade de um sistema energético marcado por uma produção cada vez mais descentralizada: a gestão integrada da energia produzida localmente e da energia proveniente da rede, a par de soluções de armazenamento, é decisiva para uma gestão simultaneamente mais eficiente do ponto de vista ambiental e económico, um terreno onde a empresa tem vindo a testar soluções antes de as escalar.
Economia circular: embalagens e gestão de resíduos
A transição para embalagens mais sustentáveis tem sido conduzida de forma pragmática, garantindo que as soluções adoptadas são simultaneamente mais sustentáveis, funcionais, seguras e convenientes para os consumidores. As prioridades passam por aumentar a reciclabilidade, aumentar a incorporação de material reciclado, eliminar materiais desnecessários e promover a reutilização. A taxa de reciclabilidade das embalagens de marca própria atingiu em 2025 os 95%, um indicador que reflecte a integração da sustentabilidade no desenvolvimento dos produtos.
A aposta na reutilização tem vindo a ganhar escala como alternativa às embalagens de uso único. Iniciativas como o Traga Vazio, Leve Cheio, as caixas reutilizáveis nas áreas de take-away e padaria, ou o sistema de reutilização implementado nos restaurantes da Cozinha Continente, em parceria com a Vytal, envolvem directamente os clientes em modelos de consumo mais circulares. O Continente reforçou ainda o investimento em soluções de refill, sobretudo nas categorias de higiene e beleza, com crescente receptividade dos consumidores, e estendeu a lógica à cadeia de abastecimento, com embalagens reutilizáveis no transporte de produtos.
Na gestão de resíduos, para além da optimização e valorização dos resíduos gerados na operação, a empresa assume um papel activo na reciclagem junto dos clientes, através de gestos simples e integrados no quotidiano. O espaço Continente Ecospot, presente em mais de 360 lojas, reúne num único local respostas para fluxos de resíduos sem soluções transversais – cápsulas de café, rolhas de cortiça, pilhas ou lâmpadas – , integra as máquinas do Sistema de Depósito e Reembolso (Volta) e acolhe campanhas sazonais, como a recolha de cadernos no regresso às aulas. No caso das rolhas, a parceria Green Cork, desenvolvida com a Quercus e a Corticeira Amorim, converte a recolha em financiamento para a plantação de árvores autóctones. Em 2025, os clientes entregaram nos Ecospots 1.120 toneladas de materiais, a medida mais directa da adesão a este modelo.
Combate ao desperdício alimentar
É no combate ao desperdício alimentar que a ligação entre sustentabilidade e eficiência operacional se torna mais quantificável. A prevenção assenta numa abordagem integrada que cobre todas as etapas da operação, da previsão da procura aos mecanismos de escoamento em loja. Sistemas de monitorização e análise preditiva acompanham continuamente as vendas e ajustam a oferta à procura real; a rede logística centralizada permite seguir, quase em tempo real, os fluxos de entrada e saída de mercadoria, afinando as quantidades expedidas para cada loja e mitigando rupturas e excessos de stock.
Em loja, a gestão da validade é o segundo pilar: os produtos que se aproximam do fim do prazo, mantendo os requisitos de qualidade e segurança alimentar, são sinalizados diariamente com as Etiquetas Rosa, descontos específicos que aceleram o escoamento. Em paralelo, frutas e legumes próximos do ponto óptimo de consumo são direccionados para modelos alternativos de venda, como as Caixas Zero Desperdício, e a parceria com a Too Good To Go disponibiliza Magic Boxes com artigos de padaria, pastelaria e take-away em mais de 40 lojas. Os excedentes que se mantêm aptos para consumo são encaminhados para instituições sociais e associações de bem-estar animal. No conjunto, estas acções permitiram evitar cerca de 86 milhões de euros em desperdício alimentar, mais 10,3 milhões de euros do que em 2024.
A montante, a intervenção começa no campo. A Feira do Desperdício, desenvolvida com o Clube de Produtores Continente, procura escoar excedentes da produção agrícola que de outra forma não encontrariam destino comercial. Já a Gama Zero Desperdício recupera frutas e legumes que seriam descartados por pequenas imperfeições estéticas, mantendo intactas as características de qualidade e sabor, evitando, segundo a empresa, o desperdício de cerca de 25 toneladas de frutas e legumes por ano.
Cadeia de valor responsável: produção sustentável
No relacionamento com produtores, fornecedores e parceiros, a empresa combina exigência e colaboração: os requisitos de sustentabilidade não são tratados apenas como matéria de conformidade, mas como instrumentos para construir uma cadeia de abastecimento mais resiliente, transparente e colaborativa.
A peça central é o Clube de Produtores Continente, que reúne mais de 360 produtores nacionais. Através desta estrutura, a empresa capacita os produtores e incentiva a adopção de técnicas que reduzem a pegada carbónica e minimizam o desperdício, um modelo colaborativo que melhora o desempenho ambiental da produção e contribui para um sistema alimentar mais equilibrado.
A certificação é o outro instrumento de oferta responsável. A empresa tem vindo a ampliar a gama de produtos certificados, apoiando produtores e fornecedores na adopção de práticas mais sustentáveis e reforçando a transparência da cadeia de abastecimento. Destacam-se as certificações de bem-estar animal, que avaliam as condições reais de criação com base em critérios específicos, e, na pesca e aquacultura, os selos Marine Stewardship Council (MSC) – pesca selvagem sustentável, com stocks saudáveis, impacto minimizado nos ecossistemas marinhos e rastreabilidade total – e Aquaculture Stewardship Council (ASC), que garante uma produção aquícola ambiental e socialmente responsável. A oferta valoriza ainda referenciais como GLOBALG.A.P. ou a Rainforest Alliance.
Consumo sustentável, saúde e bem-estar
A transformação do retalho depende também da capacidade de influenciar hábitos de consumo. O papel da insígnia vai além da disponibilização de produtos: passa por tornar as escolhas sustentáveis mais simples e acessíveis, num contexto em que a sustentabilidade continua a ser, por vezes, um conceito pouco claro para os consumidores. A informação é aqui decisiva e a convicção é prática.
A marca própria é o principal instrumento de democratização: os critérios de sustentabilidade têm um peso crescente no desenvolvimento e posicionamento dos produtos, permitindo alargar o acesso a opções mais sustentáveis sem comprometer a acessibilidade dos preços. Na dimensão da saúde, a gama Continente Equilíbrio – mais de 200 produtos validados por nutricionistas e alinhados com as orientações da Direcção-Geral da Saúde – é apontada como exemplo, a par do trabalho contínuo sobre o perfil nutricional da oferta: redução de açúcar, sal e gordura, eliminação do óleo de palma e aumento do número de produtos certificados.
Impacto social, comunidades e pessoas
A dimensão social está ligada à forma como a empresa se posiciona nos territórios onde actua, respondendo às necessidades das populações e gerando valor económico e social. A doação de excedentes alimentares e o apoio a instituições sociais são os exemplos mais visíveis. Mas o impacto faz-se também pela via económica: a colaboração com produtores nacionais através do Clube de Produtores promove a agricultura portuguesa, apoia projectos inovadores, cria emprego e contribui para a coesão territorial.
Internamente, esta visão articula-se com valores de responsabilidade, inclusão, bem-estar e respeito, procurando reflectir a mesma ambição nas relações com colaboradores, clientes, produtores e comunidades.
Gestão com dados e transparência
A monitorização dos objectivos de sustentabilidade assenta cada vez mais em dados. Para Mariana Pereira da Silva, a sustentabilidade tem de ser gerida com o mesmo rigor aplicado às restantes áreas do negócio – da pegada carbónica das operações à reciclabilidade das embalagens, da redução do desperdício alimentar aos volumes de excedentes doados e ao perfil nutricional dos produtos.
Num contexto de crescente escrutínio público sobre as políticas de sustentabilidade das empresas, a responsável defende que «a comunicação deve assentar na transparência e em resultados concretos: não basta dizer que somos sustentáveis. É necessário explicar as medidas adoptadas, os resultados alcançados, os objectivos futuros, mas também os desafios que permanecem por resolver.» É essa combinação de ambição, execução e prestação de contas que sustenta a tese central da estratégia do Continente: a de que a sustentabilidade, bem gerida, é um motor de competitividade e de criação de valor partilhado.
Este artigo faz parte do Caderno Especial “ESG”, publicado na edição de Junho (n.º 243) da Executive Digest.



