Como uma mulher superou uma infeção bacteriana multirresistente com a ajuda de um vírus

Especialistas descrevem agora coomo desenvolveram o tratamento que permitiu tal feito

Teresa Campos

Faz em março cinco anos que a belga Karen Northshield, de 30 anos, ficou ferida quando uma bomba explodiu a poucos metros do local onde estava, no aeroporto de Bruxelas. Reivindicado pelo Estado Islâmico, o ataque terrorista levou à morte de 35 pessoas, incluindo três dos bombistas. Após a explosão, a mulher foi levado o mais rapidamente possível para o hospital. O coração já não batia, mas os médicos conseguiram reanimá-la. Parte da anca acabou por ser amputada, depois de uma operação de emergência que permitiu salvar-lhe a perna.

Quatro dias depois, a situação parecia estabilizada. Mas nada disso. Foi quando o verdadeiro inferno começou. Ou seja, foi quando se soube que uma bactéria da espécie Klebsiella pneumoniae tinha infetado a perna esquerda da mulher, que não estava a reagir ao tratamento feito com nenhum dos antibióticos existentes.



Os médicos perceberam logo que aquele microorganismo poderia ser mais perigoso para a vida de Karen do que a bomba que quase a matou. O incrível relato científico de como se salvou a vida daquela mulher é agora conhecido: foi graças a um tratamento experimental com vírus que se conseguiu acabar com uma infeção bacteriana resistente a todos os antibióticos. Um problema global que mata mais de um milhão de pessoas por ano em todo o mundo.

Último recurso

A bactéria em causa faz parte do ESKAPE, o grupo com as seis espécies de micróbios resistentes a antibióticos mais perigosas, conforme definido pela Organização Mundial da Saúde. São microorganismos que representam uma das principais ameaças à saúde global, com a OMS a estimar que estas infeções em pacientes hospitalizados acabem por levar à morte de mais de 10 milhões de pessoas até 2050.

“Lembro-me que estava de serviço, nas urgências hospitalares, quando a paciente chegou e estive ao seu lado durante três anos”, contou agora a médica Anaïs Eskenazi, primeira autora do estudo agora publicado na Nature Communications e divulgado pelas agências internacionais. Não é para menos: trata-se de uma história literalmente arrepiante. NorthShield foi sujeita a um total de cinco operações, durante as quais lhe retiraram parte do estômago e transplantaram vários tecidos de outras parte do corpo. No fim disto tudo, a tal infeção que não desaparecia de forma alguma, depois de quatro meses de tratamento com todos os antibióticos existentes.

Após alguns meses a questionar o que fazer, a equipa médica do hospital belga decidiu então recorrer a um tratamento experimental geralmente usado como último recurso: ou seja, usar vírus especializados em mater bactérias para combater a infeção.

“Esses vírus estão em toda a parte: nos intestinos, na garganta, na pele, existem num número dez vezes maior do que as bactérias”, acrescentou Jean-Paul Pirnay, biólogo molecular do Hospital Militar Queen Astrid, na Bélgica e líder do grupo mais avançado da Europa no uso destes microorganismos para combater infecções bacterianas impossíveis de derrotar apenas com antibióticos.

A sua equipa analisou o genoma da bactéria que estava a afligir Northshield e começou o micróbio capaz da combater. Acabaram por encontrá-lo na água de um esgoto. Depois de preparado para a terapia, uma combinação muito especial foi administrada à paciente diretamente na área infetada. O certo é que aquele cocktail conseguiu acabar de vez com a infeção.

“Trata-se de um dos tratamentos mais promissores contra bactérias multirresistentes. São micróbios que se acumulam nas camadas mais finas dos materiais cirúrgico ou de tratamento, “Este é um dos tratamentos mais promissores contra bactérias resistentes”, destaca a médica Eskenazi, depois de Pirnay explicar qual o procedimento: cultiva-se uma geração destes vírus uma após outra à mistura com as bactérias que infetam o paciente. Em cada tentativa, selecionam-se os vírus mais agressivos e que matam mais.

“O resultado é uma verdadeira tropa de elite contra esse agente patogénico específico”, remata Pirnay. “A única desvantagem desse tipo de terapia é sua especificidade. Para cada bactéria, é preciso encontrar o microorganismo que pode combatê-la”.

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