Como acelerar a mobilidade sustentável e inteligente

Opinião de Pedro Nuno Ferreira, Assistant Professor & CMSO da AESE Business School

Executive Digest

Por Pedro Nuno Ferreira, Assistant Professor & CMSO da AESE Business School

 A mobilidade atravessa uma transformação estrutural. Eletrificação, combustíveis alternativos, digitalização e Inteligência Artificial deixaram de ser tendências isoladas para passarem a redefinir os modelos de negócio, as cadeias de valor e as expetativas dos cidadãos. O desafio já não é escolher uma tecnologia vencedora, mas construir uma visão integrada, ambiciosa e pragmática.



A eletrificação é, hoje, uma realidade incontornável, com um peso crescente nas vendas e nas novas matrículas, incluindo em Portugal. Contudo, a transição não será instantânea. A frota mundial conta ainda com mais de mil milhões de veículos e a sua renovação levará décadas. Insistir numa lógica de “tudo elétrico já” ignora esta escala. A estratégia mais eficaz passa por acelerar os elétricos onde existem condições, infraestruturas, rendimento e incentivos, e, em paralelo, reduzir emissões do parque existente através de soluções alternativas, avaliando a correlação entre o impacto real por euro investido.

É aqui que entram os biocombustíveis, os e-combustíveis e o hidrogénio de baixo carbono. Estes vetores são essenciais para os transportes pesados, de longo curso, marítimos e aéreos, permitindo ganhos ambientais imediatos sem substituição massiva de veículos. O seu potencial é elevado, mas exige investimento focado, certificação rigorosa e viabilidade económica clara.

A transição far-se-á a ritmos diferentes. As áreas urbanas avançam mais depressa; regiões rurais e economias menos maduras enfrentam maiores constrangimentos. Garantir coesão territorial implica redes de carregamento fiáveis, transporte coletivo verde e acessível, incentivos estáveis e formação técnica para a reconversão profissional. A inovação tecnológica só gera valor se for inclusiva.

As novas gerações privilegiam conveniência digital e impacto ambiental. A mobilidade passou para o smartphone, exigindo integração multimodal e pagamento por utilização. Importa, porém, desmontar um mito: o carsharing free-float, tal como foi promovido, revelou-se economicamente insustentável fora de contextos muito específicos. A micromobilidade revelou-se um problema grave dessegurança pública nas grandes cidades e carece de regulação urgente. O que escala é a mobilidade digitalizada e orientada para serviços eficientes, não modelos estruturalmente dependentes de subsídios.

Persistem ainda barreiras à adoção total dos veículos elétricos: confiança no carregamento, preços, mercado de usados e falta de transparência no custo total de posse. Programas eficazes de abate e incentivos dirigidos aos elétricos usados poderiam acelerar decisivamente esta transição.

A Inteligência Artificial será um acelerador crítico da previsão de procura à gestão de energia, desde que suportada por uma governação de dados transparente e responsável. Finalmente, a Europa enfrenta um teste de competitividade: metas ambientais ambiciosas só se traduzem em valor económico com uma política industrial coerente.

A mobilidade do futuro será multifacetada, resiliente e orientada para o serviço. Não se prevê: constrói-se, com ambição, realismo e impacto positivo para a sociedade.

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