Combater a desigualdade com mobilidade social

Por Paulo Carmona

A riqueza média da metade mais pobre das famílias americanas baixou para valores abaixo de zero nos anos pós-crise financeira, de acordo com o the World Inequality Database. E o que é que isso significa? Significa que metade dos americanos terá mais dívidas do que activos. Entretanto, a riqueza média do 1% dos americanos mais ricos, recuperou plenamente da crise. São agora ricos como nunca foram.

Todos nós ouvimos histórias sobre o divórcio de Jeff Bezos, talvez o homem mais rico do mundo, ou será Bill Gates ou Zuckerberg? Milionários de startups com as suas empresas a atingir avaliações estratosféricas, o valor das suas participações financeiras disparou. E isso com uma enorme ajuda dos bancos centrais. Ao baixar as taxas de juros para combater a crise e uma recessão anunciada, conseguiu os seus objectivos, mas fez disparar as cotações de activos financeiros e imobiliários, detidos pelos mais ricos, agora mais ricos ainda. Essa desigualdade é um preço péssimo a pagar pelo “quantitative easing”, mas que nos poupou a uma crise maior.

Também se verifica que a economia mundial está dominada pela inovação e empreendedorismo que causa violentas disrupções nos rankings dos mais ricos, em países livres e abertos. Tomemos os EUA por exemplo, um país com muitas desigualdades, embora menor que em muitos países da América Latina, África, Rússia, Índia ou China, sem falar das desigualdades sociais existentes nos antigos países socialistas do leste europeu.

Hoje, 43% das pessoas na lista 2018 dos 400 americanos mais ricos, da Forbes, não estavam lá há 10 anos, e 20% nasceram pobres. A riqueza súbita de uma boa ideia, transformada em negócio tecnológico atenta contra a humanização da igualdade, mas permite uma mobilidade que empobrece ricos e enriquece pobres. O contrário é o pântano das economias socialistas, no caos da 2.ª lei da termodinâmica, um lago sem ondas, energia, mobilidade, onde tudo permanece igual para sempre. Atenção que permitir o exercício da ambição e a promoção do enriquecimento não retira a necessidade absoluta de redes e apoios sociais para os mais excluídos da nossa sociedade.

Por cá, estamos mais perto de uma estagnação social. 40 anos após as promessas de Abril, Portugal continua o terceiro país mais desigual da Europa, com um índice de Gini de 33,5 (Eurostat) em 2017 e mais pobre em rendimento relativo per capita. A própria igualdade de oportunidades é um mito. Estamos a criar um país mais desigual, e pior, sem mobilidade social. Apenas os portugueses mais ricos podem escolher a escola dos filhos, e nascer num berço pobre ou num mau bairro diminui as oportunidades de ascensão social. A liberdade de escolha é apenas para alguns e a prometida autonomia das escolas sempre adiada. A educação era a paixão do engenheiro Guterres. Hoje, as listas de espera para o Colégio Moderno, um ensino de qualidade propriedade da família Soares, atingem quase dois anos. É tempo de investir na mobilidade social, na igualdade de oportunidades e na promoção do mérito. Contra o atraso do País e pelo seu desenvolvimento económico e social.

Este artigo foi publicado na edição de Abril de 2019 da Executive Digest.

Ler Mais
Artigos relacionados
Comentários
Loading...