Uma semana após a detenção de Liam Conejo Ramos, um menino equatoriano de cinco anos, o caso transformou-se num símbolo da política de imigração da administração de Donald Trump e reacendeu o debate sobre o tratamento de crianças migrantes nos Estados Unidos. O menor foi intercetado por agentes do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) em Minneapolis, quando regressava da escola com o pai, num episódio cujas imagens se tornaram virais e provocaram indignação pública.
A detenção ocorreu a 20 de janeiro último, à porta da residência da família, num subúrbio de Minneapolis. De acordo com o distrito escolar local, os agentes retiraram a criança do veículo antes de este parar completamente e terão pretendido que Liam batesse à porta da casa para facilitar a detenção de outros adultos no interior. Segundo o ‘El País’, durante a operação, um adulto ofereceu-se para ficar com a criança, mas a proposta foi recusada pelas autoridades federais.
Aumento de crianças detidas longe da fronteira
O caso surge num contexto de aumento do número de menores colocados em centros de detenção no interior dos Estados Unidos. Dados compilados pelo ‘Deportation Data Project’ indicam que o ICE deteve cerca de 3.800 crianças com os pais entre janeiro e outubro de 2025, incluindo bebés com apenas um ou dois anos. Mais de 2.600 destas detenções ocorreram já dentro do território americano, uma mudança significativa face à prática anterior, centrada sobretudo na fronteira.
Não existem números públicos atualizados sobre quantas crianças permanecem atualmente sob custódia do ICE. Paralelamente, mais de 2.500 menores desacompanhados encontram-se ao cuidado do Escritório de Reassentamento de Refugiados, responsável por crianças migrantes sem um responsável legal identificável.
Detenções prolongadas e alegadas violações do Acordo de Flores
Apesar de o Acordo de Flores, aprovado em 1997, estabelecer um limite máximo de 20 dias para a detenção de crianças migrantes, um relatório interno do próprio ICE revelou que, em dezembro, pelo menos 400 menores permaneceram sob custódia federal por períodos superiores ao permitido, alguns durante mais de cinco meses. A agência reconheceu que o problema era generalizado, atribuindo os atrasos a dificuldades logísticas, necessidades médicas e procedimentos legais.
Liam encontra-se detido há sete dias no Centro Residencial Familiar do Sul do Texas, em Dilley, para onde foi transferido com o pai após a operação em Minnesota.
Protestos e denúncias sobre condições no Texas
No último fim de semana, o caso desencadeou um protesto dentro do centro de detenção de Dilley. O advogado de imigração Eric Lee, que acompanhou os acontecimentos, descreveu cenas de dezenas de detidos a gritar por liberdade e relatou o que parecia ser o som de centenas de crianças a chorar. Segundo o ‘El País’, Lee descreveu o local como “um lugar horrível”, denunciando água imprópria para consumo, alimentos contaminados e um regime de vigilância comparável ao de prisões para adultos.
O centro de Dilley, o maior do género nos Estados Unidos, foi construído em 2014 com capacidade para 2.400 pessoas. Encerrado em 2024 durante a presidência de Joe Biden, reabriu em março de 2025 após um acordo entre o ICE, a empresa privada CoreCivic e a cidade de Dilley, válido até 2030.
Organizações de defesa dos direitos das crianças têm vindo a denunciar impactos psicológicos graves nos menores ali detidos. Leecia Welch, responsável da organização Children’s Rights, afirma que muitas crianças sofrem de pesadelos, perda de apetite e deterioração da saúde, num ambiente marcado pela escassez de brinquedos, privação de sono e stress constante.
Governo defende atuação, família contesta versão oficial
O Departamento de Segurança Interna defendeu a operação, alegando que o alvo da intervenção era o pai de Liam, que, segundo a versão oficial, tentou fugir. O responsável do ICE em Minneapolis afirmou que os agentes cuidaram da criança após a detenção, levando-a a comer e garantindo o seu bem-estar, uma descrição contestada por testemunhos e pela defesa da família.
O advogado da família, Marc Prokosch, sublinha que os Conejo entraram legalmente nos Estados Unidos em 2024 para solicitar asilo através do sistema então em vigor e que o processo ainda está a ser analisado. A família rejeita a narrativa de tentativa de fuga e nega qualquer antecedente criminal.
No Equador, familiares de Liam afirmam que a migração teve motivações económicas. Após a detenção, a mãe da criança, grávida, sofreu complicações de saúde e teve de receber assistência hospitalar, agravando ainda mais uma situação que voltou a colocar o tratamento de crianças migrantes no centro do debate político nos Estados Unidos.


















