É no Norte do país – mais precisamente entre o Douro, o Tâmega e o Sousa – que se encontram os municípios com maior probabilidade da ocorrência de cheias que possam causar impacto nas populações. As conclusões são projecto Forland, que abrange os 278 municípios do continente, num levantamento levado a cabo entre 2016 e 2019 por uma equipa de 22 investigadores, a que o “Público” teve acesso.
De acordo com o jornal, o Índice de Risco de Cheias, que estabelece a probabilidade da ocorrência de uma cheia que possa ter impacto em pessoas, bens e infraestruturas, tem no seu topo Gondomar, seguido de Marco de Canaveses. Olhando para o cimo da tabela, há também dois concelhos da zona da Ria de Aveiro (Murtosa e Estarreja), mas a maioria é igualmente da área do Tâmega e Sousa, (Castelo de Paiva, Cinfães, Celorico de Basto e Lousada) e também do Porto (Gaia).
Este índice resulta da combinação de três factores, cada um deles calculado a partir de diversas variáveis: perigosidade, exposição e vulnerabilidade.
Ao “Público”, a coordenadora do projecto de investigação, Susana Pereira, do Centro de Estudos Geográficos (CEG) da Universidade de Lisboa (UL), explica que a perigosidade refere-se à probabilidade espacial e temporal da ocorrência das cheias (calculada com base no histórico); a exposição «à presença de população e de actividades económicas que podem ser afectadas pelas cheias» (densidade populacional, ou grau de impermeabilidade dos solos, por exemplo); e a vulnerabilidade «está relacionada com as características dos indivíduos – como idade, nível de instrução, condição económicas», mas também avalia os meios locais de resposta a situações de catástrofe. «Daí que haja municípios exactamente com o mesmo valor de índice de risco, mas a força motriz pode ser diferente», sustenta.
Exemplificando: Golegã, na bacia do Tejo, «tem mais de 80% da sua área ameaçada por cheias». Se este concelho do Ribatejo «tem os valores mais elevados do país na perigosidade, depois, como tem menos população exposta e a vulnerabilidade não é das mais altas», acaba por não estar nos primeiros lugares do índice.
Gondomar, que encabeça a tabela, tem na vulnerabilidade social e na exposição valores mais expressivos que a perigosidade, apesar de o concelho ser atravessado pelo Douro. Aliás, é na órbita do Douro que os municípios apresentam maior grau de vulnerabilidade, sendo que este indicador é tão mais relevante porque, segundo a coordenadora, «potencialmente, quanto mais frágil for a situação socioeconómica das pessoas, a resposta que elas terão numa situação de emergência será pior e vão sofrer mais consequências». Em contraste, a região sul do Algarve, assim como Porto e Lisboa, são das menos vulneráveis.





