Cada vez mais pobres… e a dormir

Só tomando conhecimento do empobrecimento do País e da carga fiscal que distribui essa pobreza por todos, podemos sair deste marasmo. O que fazem os outros países europeus que crescem mais? O que podemos exigir? Onde está a nossa ambição?

Por Paulo Carmona

Durante anos, Medina Carreira avisava os incautos sobre a insustentabilidade do caminho que percorríamos. Cassandra! Exclamavam, dando o exemplo da filha do rei Príamo que ficou como epíteto de alguém que anuncia desgraças. Certo é que Troia caiu e o nosso nível de vida também. Vivemos um paradigma de laxismo que seria impossível de continuar. Acumular défices e dívida, a uma taxa de juro baixa que não nos lembrávamos de ter, deu num aumento de bem-estar falso porque repousado em empréstimos, que nos fazia ter orelhas moucas às Cassandras tipo Medina Carreira. Todavia 2 + 2 são sempre 4 e a gravidade existe.

Na década de 2000-2010, a Europa era demasiado benevolente com os défices públicos, na ressaca da bolha das dot-com, o Euro tinha acabado de nascer e ninguém queria estragar a euforia. A nova moeda, com taxas alemãs muito baixas, a convidar ao endividamento, fez o resto. De repente um país pobre viu-se com um cartão de crédito, emitido por um tio rico. Foi um ver se te havias… Hoje, é diferente. Sem o tal cartão de crédito, voltámos ao que éramos. Olhando para trás vemos que não crescemos economicamente nem aumentámos a nossa produção de riqueza nos últimos 20 anos. Hoje vamos crescendo qualquer coisita, por via dum turismo que caiu literalmente do céu, e que vai dando algum emprego com pouco valor acrescentado e baixos salários, mas mesmo assim emprego, e deixando dinheiro na economia. E os jovens? Quando saí da Faculdade em 88 o primeiro salário que aguardava um jovem era de 120 euros, numa consultora, empresa ou balcão de banco. Hoje o mesmo tem 600 euros à espera. O mesmo que recebe, passados 30 anos, com um custo de vida incomensuravelmente superior. Assim, vão emigrando os mais capazes, ou os que conseguem.

Lá dirão, “mais um a dizer mal…”. Não. É uma chamada de atenção. Não estamos bem, mas podemos ficar melhor. Temos de arregaçar mangas e contrariar a narrativa que nos convida ao entorpecimento até uma nova crise, anunciada, e que, como a outra nos apanhará “desprevenidos”. Só tomando conhecimento do empobrecimento do país e da cada vez maior carga fiscal que distribui essa pobreza por todos, podemos sair do marasmo. O que fazem os outros países europeus que crescem mais?

O que podemos exigir aos políticos? Onde está a nossa ambição? Muitos perguntam se Salazar e o coitadinho do pobrezinho, orgulhosamente só, meio rural, analfabeto e humilde ainda existe. Não creio, somos bons, apenas adormecidos e complacentes. Como dizia Alexandre O’Neill, muitos tratam da vida, os portugueses tratam da sua vidinha. Mudamos ou preferimos empobrecer no canto das sereias venezuelanas?

Este artigo foi publicado na edição de Junho de 2018 da revista Executive Digest.

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