O bilionário tecnológico norte-americano Peter Thiel, aliado de longa data do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, levou a Paris uma conferência centrada na figura bíblica do Anticristo, apresentada num dos mais prestigiados fóruns intelectuais de França. A intervenção decorreu esta segunda-feira, perante uma audiência restrita, na Academia das Ciências Morais e Políticas, segundo relataram participantes presentes no encontro.
De acordo com informações avançadas pela POLITICO, Thiel apresentou uma exposição detalhada baseada numa apresentação de 23 diapositivos, cuja estrutura foi distribuída aos participantes e partilhada com o órgão de comunicação social. O conteúdo incidiu sobre a teoria do Anticristo na teologia cristã, descrito como uma figura enganadora que se opõe a Cristo e personifica o mal absoluto.
O empresário e investidor, uma das figuras mais influentes da transformação ideológica do Vale do Silício, foi convidado pela filósofa Chantal Delsol, membro da academia. A conferência procurou expor uma visão que cruza conservadorismo cristão com libertarianismo radical, uma combinação que tem marcado parte da evolução recente do pensamento político e tecnológico nos Estados Unidos.
Segundo as notas da apresentação, traduzidas para francês, Peter Thiel defendeu que o Anticristo “não é apenas uma fantasia medieval” e que tanto esta figura como o próprio apocalipse estão ligados ao que descreveu como “o fim da modernidade”, um processo que, no seu entendimento, já estará em curso. O empresário argumentou ainda que o Anticristo exploraria medos coletivos associados a cenários apocalípticos — como uma guerra nuclear, as alterações climáticas ou os riscos colocados pela inteligência artificial — para dominar uma “população aterrorizada”.
No mesmo contexto, Thiel voltou a referir, como já fizera noutras ocasiões, a ativista ambiental sueca Greta Thunberg como um possível exemplo de figura que mobiliza receios globais. O investidor, de 58 anos, define-se como “liberal clássico” e “cristão ortodoxo moderado”.
Apesar do peso simbólico do local escolhido, a receção à conferência foi marcada por reações críticas. Dois participantes relataram que a apresentação foi “desarticulada”, enquanto outro afirmou: “Ouvi mais sobre o Anticristo durante aqueles 45 minutos do que durante o resto da minha vida.” Um terceiro participante confessou não ter percebido bem o conteúdo da intervenção, sem especificar o tema abordado.
À porta do edifício, cerca de 30 manifestantes protestaram contra a realização do evento, que ainda assim gerou grande expectativa, tendo em conta o estatuto de Peter Thiel como um dos primeiros grandes nomes do setor tecnológico a apoiar Donald Trump. Cofundador da PayPal com Elon Musk e investidor inicial do Facebook, Thiel é também mentor do atual vice-presidente norte-americano, JD Vance, a quem doou um montante recorde durante a campanha para o Senado.
O empresário é igualmente cofundador da Palantir, empresa de software e análise de dados que presta serviços à Direção-Geral da Segurança Interna francesa, equivalente ao FBI, e ao consórcio aeronáutico europeu Airbus. Durante a sua deslocação a Paris, Thiel reuniu-se ainda com o ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Jean-Noël Barrot.
Um assessor do ministro explicou que o encontro teve como objetivo um debate franco sobre divergências fundamentais. “Tendo em conta o papel que desempenhou na definição da doutrina que orienta parte da administração norte-americana, Jean-Noël Barrot convidou-o para uma discussão sobre as nossas diferenças de opinião em vários grandes temas: regulação digital, democracia liberal, civilização europeia e, em particular, as relações transatlânticas”, afirmou a fonte, sob anonimato, de acordo com as normas profissionais em França.














