A oportunidade histórica de Donald Trump, o “tempo de Trump”, chegou porque estamos num ponto de viragem global: há um mundo que está a acabar e outro que emerge. E os Estados Unidos da América querem continuar com o seu poder militar, económico, cultural e político praticamente hegemónico como nos últimos quase cem anos.
Mas esta propalada “nova” ordem global, que não está a ser desenhada apenas pelos Estados Unidos, já está em curso há algum tempo, e tem que ver com os fundamentos da vida comum à escala planetária. Grande parte da população vive sob um sistema económico capitalista, e é na compreensão dos mecanismos de mudança inerentes ao próprio capitalismo que podemos encontrar sinais para onde nos estamos a dirigir. Dêmos então um passo atrás para reconhecermos os padrões.
Na Revolução Industrial do século XVIII, a mecanização permitida pela invenção radical do motor a vapor aumentou a produtividade média e diminuiu os custos do trabalho. Dada a natureza do espírito humano, foi apenas uma questão de tempo até chegarmos a todas as outras invenções comparativamente incrementais, como o motor de combustão, etc.
Enquanto o vapor torna redundante o esforço físico (como o faz a electricidade desde finais do século XIX), reduzindo profundamente a necessidade de força de trabalho nos sectores primário (a agricultura) e secundário (a indústria), a inteligência artificial torna redundante o esforço intelectual, reduzindo profundamente a necessidade de força de trabalho no sector terciário (os serviços), que, por ser transversal aos outros dois, faz com que a inteligência artificial atinja toda a economia. Todas as tarefas cuja execução requeira o uso da cognição humana segundo regras (é difícil pensar quais não requerem), são passíveis de ser substituídas pela inteligência artificial – e o seu alcance será tanto maior quanto maior for o desenvolvimento da robótica, que conhece igualmente, a cada dia, avanços vertiginosos.
Por isso se estima que tantas profissões, incluindo de professor, de advogado, de contabilista, de gestor, ou até de médico, embarateçam. Os custos unitários do trabalho diminuirão porque será possível fazer o mesmo em menos tempo e com menos trabalhadores, senão mesmo nenhuns.
Parece evidente que quem liderar a revolução tecnológica em curso, terá, por isso, uma enorme vantagem competitiva, e à escala global. Não surpreende, portanto, que o sector tecnológico, em particular o investimento em inteligência artificial levado a cabo sobretudo pelas gigantes Microsoft, Meta, Amazon e Google e, crucialmente, com o alto-patrocínio do governo, represente cerca de 40% do crescimento do produto norte-americano no último ano, de acordo com o Financial Times.
Mas a corrida ao ouro é sôfrega de recursos. A inteligência artificial depende fortemente de terras raras e de outros minerais essenciais para o fabrico de, por exemplo, semicondutores de elevada performance ou do hardware dos colossais centros para armazenar e processar as quantidades abissais de dados que servem para o treino da inteligência artificial. Acontece que a China praticamente detém o monopólio da extracção e processamento e separação destes minérios, bem como da produção de muitos dos componentes electrónicos feitos com aquelas matérias-primas e que sustentam o actual sector tecnológico avançado global – o que confere à China um inusitado poder e cria enormes tensões geopolíticas a nível mundial.
Já aqui neste espaço argumentámos que a preocupação número um dos Estados Unidos da América nos últimos anos, e certamente da actual Administração Trump, é a China e a sua crescente capacidade para disputar a centenária hegemonia norte-americana. Torna-se assim mais fácil compreender o que a actual Administração Trump pede à Ucrânia como moeda de troca para garantir a sua segurança após um eventual acordo de paz com a Rússia, e que inclui a permissão para extrair terras raras, ou o interesse pela Gronelândia, onde existem igualmente reservas importantes daqueles metais. Ou até a intromissão na Venezuela, justificada, em parte, com o controlo das reservas de petróleo daquele país, já que os centros de dados para a inteligência artificial consomem quantidades astronómicas de electricidade (os data centers mais recentes estimam-se precisarem do equivalente ao consumo de um milhão de casas). De acordo com o Departamento de Energia dos EUA, cerca de 60% da electricidade no país é gerada a partir de combustíveis fósseis.
O momento actual aparenta ser trágico para a Europa, e em particular para a União Europeia, ainda em choque com a frontalidade, dir-se-ia, imoral, da Administração norte-americana em exercício, e com o modo como esta esbanja o valor da confiança e abala a aliança que garantiu a paz no velho continente nos últimos 80 anos. Mas é mais fácil manter a calma se fizermos a seguinte pergunta: são a Rússia de Putin ou a China de Jinping os novos aliados de confiança dos europeus?




