Bem-vindos ao Metaverso

Num dia normal em 2030, um encarregado de obra opera um rolo compressor num estaleiro de obras na Califórnia.

Ele e o seu colega de trabalho conversam enquanto comandam um robô de construção que coloca asfalto num troço da auto-estrada. De repente, o seu assistente aparece como um holograma no estaleiro, chamando-o para confirmar o resumo das tarefas do dia e para lhe lembrar que está na hora de se encontrar com o inspector municipal por causa de outro projecto. Caminha até ao escritório móvel do estaleiro de construção, coloca o seu aparelho de RV na cabeça e encontra-se no átrio virtual do Departamento de Planeamento Municipal.

O seu assistente de IA reaparece para o dirigir à sala de conferências virtual onde se realizará a reunião. Após a sua entrada, a sala transforma-se de modo a parecer a zona da inspecção (um viaduto completado recentemente), usando imagens em tempo real de um drone no local. Desenhos arquitectónicos do Contractor Cloud do estado da Califórnia são colocados por cima de filmagens ao vivo, e o encarregado e o inspector começam a avaliar o trabalho. Após a aprovação do inspector, ele manda o seu assistente submeter os pedidos da próxima ronda de licenças de construção. Em seguida, retira o aparelho e volta para o estaleiro.

Bem-vindos ao “Metaverse Continuum” – um leque de mundos, realidades e modelos empresariais digitalmente melhorados prestes a revolucionar vidas e empresas na próxima década.

Este continuum está a criar a próxima grande vaga de mudança digital nas empresas, e os líderes precisam de começar a dar grandes passos em frente na forma como pensam sobre os seus negócios – hoje. Em breve, estarão na encruzilhada de muitos mundos novos, da construção de novas realidades físicas e virtuais até à prestação de serviços em ambientes criados por outros. Como no cenário acima, as pessoas viverão activamente e saltarão diariamente entre estes mundos. O nosso encarregado começa o seu dia a construir fisicamente uma estrada num local de construção melhorado em termos digitais e robóticos, e termina num escritório no metaverso, um ambiente virtual criado pelo Departamento de Planeamento Municipal, que lhe permite viajar entre geografias em segundos para inspecções governamentais. E isto é apenas o início.

O mundo físico está a ganhar vida de ambiente a ambiente, cada um com as suas próprias capacidades e regras. Hoje já temos mundos físicos inteligentes em pequena escala, como fábricas inteligentes, navios de cruzeiro inteligentes e portos automatizados – amanhã veremos estes transformarem-se em bairros, cidades e países completamente inteligentes, onde enormes gémeos digitais espelham a realidade física. E o mundo digital também está a expandir-se. Em breve, novos espaços de consumo no metaverso irão transportar- -nos para quase qualquer tipo de mundo que possamos imaginar, permitindo-nos relaxar, entreter, ou socializar a longa distância. E as grandes empresas também deslocarão parte das suas operações para o metaverso, mantendo os seus próprios ambientes virtuais internos para que os colaboradores possam trabalhar a partir de qualquer lugar e colaborar de novas e emocionantes formas. Com a proliferação de oportunidades em todos estes novos mundos, as empresas necessitarão de uma estratégia para operar em todo o espectro de modo a servirem melhor tanto a clientes como a parceiros.

Este modo de vida parece futurista por agora, mas já está a aproximar-se.

Ao ver sinais de mudança profunda, a Accenture Technology Vision viu um grande potencial. As bases do Metaverse Continuum estão a ganhar forma hoje, mas irão reunir-se durante a próxima década para criar uma paisagem empresarial inteiramente nova. A década de 2020 verá empresas ambiciosas a dar forma a estas novas realidades físicas e digitais, bem como mundos co-povoados por pessoas e IA, indústrias tornadas possíveis por novos computadores, e muito mais.


PORQUÊ O METAVERSE CONTINUUM?

Já devem ter ouvido a palavra “metaverso” no último ano, evocando um futuro de ficção científica de um espaço de realidade virtual contínuo e partilhado. A verdade é que, neste momento, muitos dos primeiros metaversos estão a ser criados com muitos focos e ideias iniciais diferentes sobre como fazer tudo correctamente. Alguns são feitos para empresas, outros para consumidores. Cada um tem diferentes plataformas, parceiros e tecnologias como base.

Eventualmente, este espectro de ideias irá convergir numa experiência mais amplamente unificada, mas a gama de áreas de negócio em que terá impacto irá crescer. Tal como a internet evoluiu para além de simples websites para sustentar a maioria dos negócios actuais, seria errado pensar que a experiência do metaverso estará limitada ao espaço digital.

Foi por isso que a Accenture introduziu o “Metaverse Continuum”. A Accenture olha para o metaverso como um continuum em evolução e expansão em múltiplas dimensões:

Engloba diversas tecnologias incluindo extended reality, blockchain, inteligência artificial, gémeos digitais e objectos inteligentes – como carros e fábricas, e edge computing.

Abrange o “virt-real” – a gama de experiências, desde puramente virtuais até uma mistura de virtual e físico.

Descreve o espectro de experiências de consumo emergentes e as aplicações e modelos empresariais em toda a empresa que serão reformulados e transformados.

Para alguns, já está a começar. Uma agência noticiosa chinesa, a Xinhua, apresentou uma redacção virtual com uma pivô de notícias de IA que pode dar notícias de última hora ao público 24 horas por dia.

O Amazon Sidewalk foi activado, criando instantaneamente bairros inteligentes e aumentando o alcance dos dispositivos inteligentes existentes muito para além do seu alcance original. E o Vail Ski Resort, no Colorado, criou um gémeo digital do seu resort, um mundo virtual inteligente que espelha a sua montanha física, incluindo pormenores como queda de neve em tempo real, anos de dados meteorológicos e infra-estruturas fundamentais da montanha. Estão também a automatizar a montanha física, investindo na monitorização remota e em pistolas de neve automáticas que podem ser activadas com base na meteorologia. Com esta estratégia centrada na tecnologia que atravessa o mundo digital e físico, o Vail consegue aumentar a previsibilidade das condições de ski e espera que estes esforços lhes permitam prolongar a sua estação típica em 25%.

À medida que desenvolvimentos como estes desafiam os nossos pressupostos básicos sobre tecnologia e negócios, entramos numa nova paisagem onde ainda não existem regras ou expectativas – criando uma rica oportunidade para construir e moldar os mundos de amanhã.

Considerem isto: as empresas que empregam IA “human- like” não estão apenas a colher os benefícios da automatização, estão a ser pioneiras nas novas formas de colaboração entre humanos e máquinas. Os materiais inteligentes e as capacidades de ponta estão a transformar o que as pessoas esperam dos seus ambientes físicos. As empresas que vendem bens num ambiente metaverso estão a fornecer produtos fundamentalmente diferentes e, para além disso, estão a liderar novos modos de comércio e a criar as melhores práticas para o futuro da internet. Todas as empresas que constroem estes novos mundos e que constroem dentro deles geram ideias e precedentes, dando forma à maneira como as pessoas irão em breve viver, ao local onde as empresas irão encontrar oportunidades e ao que significará ser um negócio responsável nestes ambientes.

Por agora, pode parecer que o futuro para onde nos dirigimos cria mais perguntas do que respostas. Como irão as empresas realizar negócios e vender produtos, e como irão os consumidores comprá-los nestes novos mundos? Como irá a interacção humana desenvolver- se no metaverso, e como irá isso reformular o que procuramos fora dele? Como é o mundo do trabalho quando as organizações se tornam mais distribuídas ou autónomas? Como gerimos uma cadeia de abastecimento que atravessa diferentes mundos físicos onde algumas cidades são inteligentes e outras não? Em muitos aspectos, os novos mundos que as empresas estão a começar a construir não têm história ou legado – nenhuma forma correcta de fazer alguma coisa. Isto representa uma imensa oportunidade, mas também significa que as empresas que estão a ultrapassar estas fronteiras estarão a operar muito à frente das políticas e da regulamentação.

As empresas vão estar na linha da frente para estabelecerem confiança e segurança e definirem a experiência humana nestes novos locais. A confiança será fundamental para a adopção das novas experiências que os líderes estão a começar a construir. As considerações (e as preocupações) que já existem hoje em torno da privacidade, parcialidade, justiça e impacto humano estão a tornar-se muito mais prementes à medida que a linha entre a vida física e digital das pessoas se esbate ainda mais. As empresas que desejarem liderar neste espaço irão carregar o fardo da construção de um “Metaverso Responsável”, e as acções e escolhas que fizerem agora estabelecerão os padrões para todas as que se seguirem.

Isto coloca as empresas num momento crítico para decidirem o caminho a seguir. Estas novas fronteiras da tecnologia irão redefinir todo o contexto de cada negócio, moldando o seu funcionamento e criando valor para as décadas vindouras. As que se afastarem da incerteza que se avizinha, depressa se encontrarão a operar em mundos definidos por outros – a jogar seguindo regras alheias. Mas as empresas ousadas irão abraçar a incerteza e vê-la como uma oportunidade.

A verdade simples é que nunca há tempo suficiente para pensar sobre o futuro, mas isso não impedirá que ele aconteça. À medida que as bases do “Metaverse Continuum” são construídas, os primeiros participantes estão a apostar em posições-chave e parcerias enquanto investem na espinha dorsal tecnológica que assegurará a liderança nesta nova paisagem. Inevitavelmente, todos os executivos terão de perguntar: qual será o meu papel neste novo continuum?

Responder a isto – e agir em conformidade – não será fácil; é uma viagem repleta de incertezas bem fora das normas com as quais a maioria das empresas se sentem confortáveis. Mas a oportunidade de moldar a próxima década de negócios, de construir novos mundos e de explorar os novíssimos mercados que estes mundos criam, não ocorre frequentemente.


ARQUITECTAR O CONTINUUM DE AMANHÃ, HOJE

Em 2021, a Gucci criou o The Gucci Garden Experience para vender produtos virtuais e vendeu um gémeo digital totalmente virtual de uma bolsa Gucci por um preço mais elevado do que o da sua homóloga do mundo real.

Um concerto Travis Scott Fortnite teve 27,7 milhões de participantes únicos – muito mais do que um local típico de concerto consegue acomodar. E nos últimos 12 meses, a Decentraland – um mundo virtual baseado no Ethereum de propriedade do utilizador – viu 21 mil transacções imobiliárias no valor de 100 milhões de euros.

Estes são os primeiros sinais do Metaverse Continuum, e um sinal claro de que as empresas precisam de pensar de forma diferente sobre os negócios de amanhã; é imperativo que dêem ouvidos ao apelo da mudança e comecem a agir hoje. Recorde-se que há 20 anos, muitas empresas perguntavam se precisavam de presença na web – uma questão que parece bizarra hoje, em que as empresas em bolsa complementaram as suas vendas, operações, ou produtos com algum tipo de tecnologia digital. Com o futuro no horizonte, estamos a ouvir ecos dessa questão: O trabalho remoto veio para ficar? Os ambientes físicos precisam de ser inteligentes? Devo preocupar- me com o metaverso?

A resposta a estas e a outras perguntas é um retumbante “sim”.

Tal como nos primeiros anos da web, as empresas estão a dirigir-se para um futuro completamente diferente daquele para o qual foram concebidas. Durante a próxima década, testemunharemos uma transformação completa de quase todos os ambientes em que as empresas actualmente desenvolvem a sua actividade. A forma como a internet funciona e como experimentamos o mundo digital; a tecnologia que se propaga pelo mundo físico e o controlo que nos dá sobre o nosso ambiente; quão humanas, colaborativas e produtivas as nossas interacções com as máquinas podem ser; e até mesmo o próprio limite exterior das capacidades dos computadores – tudo está a ser ultrapassado.

O terreno está a transformar- se sob os nossos pés e muitos dos fossos competitivos e vantagens em que as empresas têm trabalhado arduamente estão a começar a diminuir. Isto não significa que o seu negócio actual esteja a desaparecer – do mesmo modo que uma presença online na web não eliminou a necessidade de locais físicos. Mas tal como as empresas na altura tiveram de criar novos fluxos de receitas, repensar como ampliar as suas operações e enfrentar uma série de concorrentes novos e disruptivos, as empresas de hoje terão também de reimaginar todas as dimensões da sua empresa, dos modelos operacionais à sua proposta de valor central. E os líderes que pensam no futuro estão já a começar.

Vejamos como, em finais de 2021, o fundador da Square, Jack Dorsey, mudou o nome da empresa para “Block”, sinalizando o seu foco no futuro. Pouco tempo depois, a empresa anunciou planos de criar um sistema de mineração de bitcoin aberto, com o objectivo de tornar a mineração de bitcoin mais distribuída e eficiente, e para responder aos desafios habitualmente enfrentados pela comunidade de mineração de bitcoin, como a disponibilidade de plataformas de mineração, os preços elevados e o consumo de energia. Embora a empresa seja hoje uma das maiores soluções de pagamentos digitais no mercado, é claro que acreditam que o futuro dos pagamentos poderá em breve começar a mudar – ou, pelo menos, a tornar-se maior.

Ou pensem na Tesla. Primeiro, conseguiu provar a viabilidade da venda de veículos eléctricos no mercado automóvel actual. Mas agora os seus investimentos e projectos tecnológicos são todos passos para construir peças de um futuro que ninguém está a comprar ainda: um mundo de cidades inteligentes cheias de veículos eléctricos e autónomos. A sua visão do futuro estimula e informa as máquinas que criam e vendem hoje, e os sucessos resultantes no mercado actual são testes beta para a liderança no mundo de amanhã dos veículos autónomos.

À semelhança do início da era digital, as empresas que aceleram na próxima vaga de disrupção tecnológica serão aquelas que prontamente abraçarão as mudanças que o futuro reserva. A boa notícia? Desta vez, as empresas têm um aviso maior do que está para vir e ainda há tempo para avançar – mas precisam de começar hoje a fazer investimentos tecnológicos decisivos. O objectivo é accionar as bases digitais que as empresas têm vindo a pôr em prática: finalmente escolher parceiros para construir um gémeo digital, indo além dos dados e análises para utilizar a IA de forma mais visível e colaborativa, ou lançar o projecto “futurista” que cada vez mais parece vital para a missão. Só com um motor digital maduro e bem oleado é que as empresas estarão preparadas para participar, ou mesmo criar, os novos ambientes e mundos empresariais dos quais todos terão em breve de fazer parte.

No ano passado, a Honeywell lançou a maior empresa de computação quântica do mundo – um novo empreendimento com a Cambridge Quantum chamado Quantinuum. Esta viagem começou há anos, quando os líderes da Honeywell olharam para a tecnologia e para as capacidades de hardware que tinham, analisaram o campo longínquo da computação quântica e tiveram a ousadia de dizer que conseguiam construir esse mundo. Agora, o esforço de incubação está a ser transformado numa empresa independente em que a Honeywell mantém uma participação de controlo. O objectivo é que o esforço se torne a rampa de lançamento de futuras gerações da indústria, dos serviços financeiros às ciências materiais – um novo mundo onde os problemas complexos se tornam possíveis de resolver através das capacidades da computação quântica. A Honeywell ainda mantém e opera o seu negócio principal, mas também é investidora, cliente e fornecedora da Quantinuum – plantando efectivamente as sementes do seu futuro.

As empresas têm hoje a oportunidade de se tornarem líderes empresariais e tecnológicas nas próximas décadas. Mas, tal como a Block, a Tesla e a Honeywell, terão de mudar de uma posição em que ampliam o seu negócio com a tecnologia para uma posição technology-driven e future-forward por design. O que decidirem fazer a seguir é fundamental: vão estabelecer a próxima Blockbuster ou a próxima Amazon?

Sem darem conta, algumas empresas já começaram a adoptar mentalidades de futuro, e no processo criaram as bases que se tornarão o Metaverse Continuum.

Uma nova geração de líderes tecnológicos nasceu na crise da COVID-19. Nos últimos 12 meses, a Accenture identificou uma classe especial de empresas – chamadas “leapfroggers” – que começaram a implementar rapidamente estratégias digitais para lidar com a pandemia. Estas empresas, juntamente com os líderes digitais existentes, descobriram que a vantagem proporcionada pelos seus investimentos em tecnologia levou a um desempenho quatro a cinco vezes superior ao da concorrência no último ano.

Longe de abrandarem, quando enfrentaram novos desafios e constrangimentos, muitas empresas perceberam o que significa arquitectar novos fluxos de receitas e novas formas de trabalho e de vida – e a partir dos seus esforços, os alicerces dos mercados de amanhã estão a começar a ser construídos.

O que as empresas começam a perceber é que no seu esforço de sobrevivência durante a pandemia aceleraram o futuro. As mudanças e alterações que fizeram estão a tornar-se as bases para os novos mundos que ganham forma. Embora os desafios da pandemia ainda tenham muito peso nas empresas, estamos a começar a adaptar-nos à nossa nova realidade, e os líderes estão a adoptar uma abordagem mais deliberada para moldar o que vem a seguir.

Estas empresas e aquelas que se lhes juntarem como líderes irão evoluir e moldar o Metaverse Continuum emergente de formas sobre as quais, por agora, só podemos especular. Cada um tem a sua própria ideia de como é o futuro perfeito, mas seria um erro acreditar que estes esforços são mutuamente exclusivos. Nalguns casos, as ambições das empresas irão chocar irreconciliavelmente, mas noutros irão ampliar-se umas às outras.

Estamos num ponto único no tempo. Não porque tenhamos de dominar novas tecnologias, mas sim porque competir nesta próxima década irá exigir algo mais do que apenas aumentar as competências tecnológicas e de inovação. Exigirá uma visão verdadeiramente competitiva – tanto para o que serão estes mundos futuros como para o que uma empresa precisará de se tornar para ter sucesso neles. A tecnologia aponta-nos na direcção certa, mas o resto depende das empresas.

Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 193 de Abril de 2022

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