Banca: quem vai perder o comboio do digital (à boleia da COVID-19)?

As Fintech são mesmo a “next big thing”, segundo garante José Figueiredo, CEO do ComparaJá.pt.

Executive Digest com ComparaJá.pt

Por José Figueiredo, CEO do ComparaJá.pt

Web Summit. Este nome, tal como o Coronavírus agora, andava nas bocas do mundo há uns meses. Portugal era apresentado como o novo “El Dorado” da tecnologia, um Silicon Valley no Sul da Europa, a nova Terra Prometida para os empreendedores das oportunidades do mundo digital.

No entanto, enquanto em Portugal se discutem possibilidades, lá fora o mundo pula e avança e as empresas tecnológicas há muito que conquistaram o seu quinhão. E já não falo só daquelas que todos conhecem, como o Facebook, Google ou Amazon.

As Fintech são mesmo a “next big thing”, como se vê pelo exemplo da Revolut, que recentemente fez um levantamento de capital de 445 milhões de euros e tem uma avaliação de 4,9 mil milhões de euros, ou a Transferwise que fez um levantamento de capital, em Maio de 2019, de 260 milhões de euros.

Portugal ainda está um passo atrás nesta senda, mas por estar um passo atrás não significa que esteja num marasmo total. A verdade é que, mais tarde ou mais cedo, o consumidor digital de produtos financeiros vai conquistar o mercado, principalmente a nova geração habituada a tomar várias decisões no dia-a-dia através do seu smartphone em termos de alimentação, mobilidade, compras, etc.

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Comparemos, por exemplo, Portugal com o Reino Unido. Apesar de ainda estarmos consideravelmente atrás, a verdade é que a taxa de penetração da banca online por cá aumentou de 31%, em 2017, para 39%, em 2018. Um aumento de 8 pontos percentuais. No entanto, no Reino Unido ascendeu a 69% em 2018, mostrando um crescimento ainda muito significativo em relação aos 63% registados em 2017, apesar de ser um mercado bastante mais maduro que o nosso.

Importa reforçar um ponto: desde os anos 90 que o Reino Unido tem um forte serviço online de comparação de vários serviços, sobretudo a nível de créditos, poupanças, seguros, energia, telecomunicações, entre outros. Actualmente, é raro o cliente britânico que não adquira um produto desta gama sem primeiro o comparar primeiro através de canais digitais, sendo a plataforma Moneysupermarket.com a referência do país neste tipo de serviços.

Já em Portugal foi o ComparaJá.pt o “first-mover” neste negócio, mas só cerca de década e meia depois do seu congénere britânico. Contudo, em cerca de cinco anos, foi possível transformar um paradigma. Abrir a banca à comparação online e o consumidor à confiança na contratação destes produtos por intermédio dum canal digital é um desafio que está a ser cumprido e ultrapassado.

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Se havia quem temesse que as instituições financeiras iriam resistir a uma colaboração com este novo modelo de comparação, teve poucas razões para tal receio. A banca portuguesa, vendo uma oportunidade de crescer num canal ainda pouco maduro – e agora com potencial acrescido pelas restrições derivadas da pandemia à tradicional actividade dos bancos -, tem vindo a tornar-se cada vez mais disponível para oferecer soluções diferentes e adaptadas aos novos consumidores forçosamente mais digitais.

Olhar os comparadores, seja na área financeira como em qualquer outro sector, como um canal complementar é essencial para os fornecedores destes produtos/serviços conseguirem ser mais competitivos e se diferenciarem da concorrência. É que através dos comparadores é possível fazer-se muito mais do que incrementar as vendas. Por exemplo, é possível fazer testes a novos produtos de forma simples e controlada, permitindo depois deste soft launch apresentar já um produto mais adequado às necessidades dos consumidores.

E tendo agora em conta o período económico mais adverso que se espera nos próximos tempos, existe uma mais-valia dos comparadores que importa salientar, a qual é benéfica para o conjunto dos intervenientes no mercado, desde consumidores aos bancos e até supervisores.

Atendendo a que, para além da identificação das propostas mais competitivas, através da comparação das diferentes ofertas existentes no mercado os consumidores podem fazer uma escolha mais ponderada do crédito, nomeadamente garantindo a escolha daquele produto cujas características lhes permite assegurar uma taxa de esforço mais ajustada face a potenciais alterações nos seus rendimentos – desde o LTV, prazo, carência de capital, etc. –, tal irá contribuir, no tempo, para uma menor taxa de incumprimentos nos empréstimos.

Este aspecto é valioso para consumidores e bancos e certamente muito descansará os supervisores que, no seguimento da crise vivida no início da década passada, procurarão garantir ao máximo que a sustentabilidade do sistema bancário não volta a ser abalada pelo crédito malparado.

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Mas no que respeita às mais-valias para as instituições há ainda algo essencial a salientar: através dos comparadores, os bancos podem concentrar as suas propostas de valor sobretudo naqueles segmentos que vão ao encontro da sua estratégia comercial, consolidando as suas carteiras de uma forma mais orientada.

Não me alongando mais, concluo com a certeza de que, face à premente necessidade de aceleração da digitalização da banca portuguesa como consequência da COVID-19, no final desta pandemia se vai verificar, tanto da parte dos bancos como dos consumidores nacionais, uma maior aproximação às dinâmicas do mercado britânico, e isto também no que respeita à adopção dos comparadores de produtos e serviços financeiros.

Os números relativos à penetração do digital e da comparação na banca em Portugal serão, portanto, inevitavelmente muito diferentes dentro de um ano, pelo que as instituições que não apanharem este “comboio” se arriscam a ficar pelo caminho. Veremos quem consegue ser bem-sucedido neste novo contexto.

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