O Hospital Fernando da Fonseca, mais conhecido como Amadora-Sintra, enfrentou tempos de espera sem precedentes no serviço de urgência geral durante o último fim de semana. De acordo com várias fontes hospitalares, doentes classificados como urgentes, com pulseira amarela, chegaram a aguardar entre 31 e 34 horas para serem atendidos. Já os muito urgentes, com pulseira laranja, esperaram entre seis e oito horas. Estes números, que não são oficialmente registados no site do Serviço Nacional de Saúde (SNS), foram confirmados ao Diário de Notícias (DN) por trabalhadores da unidade.
A triagem de Manchester, utilizada nos hospitais portugueses, recomenda que doentes com pulseira laranja sejam atendidos em até 10 minutos, enquanto para pulseira amarela o tempo máximo é de 60 minutos. Contudo, no domingo à noite, o serviço de urgência geral acumulava cerca de 100 doentes à espera da primeira observação.
O Conselho de Administração (CA) da Unidade Local de Saúde Amadora-Sintra reconheceu ao DN que os tempos de espera foram superiores ao recomendado. Porém, assegurou que “houve reforço de equipa para dar resposta à procura existente” e que a situação “ficou estabilizada durante o período noturno”. Sem confirmar os tempos concretos, o CA explicou que “os utentes urgentes mantêm-se sob vigilância e alguns realizam meios complementares de diagnóstico e terapêutica antes do atendimento médico, de acordo com o Protocolo de Triagem de Manchester”.
Apesar do reforço noturno, fontes hospitalares apontaram que o “caos” foi parcialmente resolvido graças ao abandono de muitos doentes que não quiseram continuar à espera. “O esforço das equipas foi incansável, mas muitos pacientes saíram sem serem observados”, disseram ao DN. Os dados sobre o número de altas por abandono não foram divulgados pelo CA, mas, segundo as fontes, “é obrigatório assinalar esta informação no sistema informático”.
No domingo de manhã, os profissionais que iniciaram o turno de 8h00 depararam-se com tempos de espera de 19 horas para doentes urgentes. À noite, o cenário agravou-se, atingindo os tempos máximos registados.
Fontes sindicais relataram que, em alguns momentos, doentes menos urgentes (pulseira verde) tiveram tempos de espera menores do que os classificados como urgentes. Uma dirigente da Federação Nacional dos Médicos (FNAM) afirmou que houve um pedido para que médicos a atenderem casos menos urgentes fossem deslocados para ajudar com os doentes mais graves, mas tal não foi autorizado pela direção clínica.
A mesma dirigente denunciou ainda “pressões sobre profissionais” para que fossem deslocados de outros serviços para assegurar escalas nas urgências externas, o que compromete o funcionamento de outros setores hospitalares.
Carlos Cortes, bastonário da Ordem dos Médicos, classificou os tempos de espera registados como “absolutamente inaceitáveis e desumanos, tanto para os utentes como para as equipas”. Segundo o bastonário, a pressão sobre os profissionais de saúde é “enorme e insustentável”, considerando que os planos de contingência “não estão a funcionar”.
“O Amadora-Sintra é uma das unidades com maiores dificuldades em dar resposta, mas não é caso isolado. Há outros hospitais que já ativaram planos de contingência e que também não conseguem cumprir”, sublinhou Cortes, que defende uma revisão profunda desses planos e mais recursos para a sua execução.
O site do SNS, que divulga tempos médios de espera em tempo real, registou, na manhã de segunda-feira, tempos bastante mais baixos. Para doentes muito urgentes, o tempo médio era de 15 minutos e, para urgentes, 28 minutos. Às 18h00 do mesmo dia, os tempos aumentaram para 1 hora (muito urgentes) e 3h52m (urgentes), com 27 pessoas à espera.
No entanto, as fontes hospitalares afirmam que os tempos reais do fim de semana foram significativamente superiores e que os valores divulgados no site não refletem a realidade. Questionado sobre possíveis falhas na plataforma, o CA do hospital afirmou desconhecer qualquer anomalia no sistema.














