Afinal é preciso a(má-la)

Opinião de Pedro Alvito, Professor de Política de Empresa na AESE Business School

Executive Digest

Por Pedro Alvito, Professor de Política de Empresa na AESE Business School

Há resultados de estudos que parecem, por vezes, contraditórios, será assim? Vejamos este caso: um estudo realizado pela Deloitte, em 2021, revelou que 66% dos millennials priorizam a ética empresarial como um critério fundamental ao escolherem a empresa onde querem trabalhar. É bonito, sem dúvida, e diz muito sobre os valores atuais das pessoas face ao mundo do trabalho e às preocupações éticas que devem existir nas empresas. Esta forma diferente de escolher a empresa onde se quer trabalhar deve alterar completamente a nossa forma de ver a ética nas empresas e de fazer gestão. Não vale tudo e sobretudo importa pensar no coletivo (bem comum), mais do que no resultado individual (seja da empresa, seja da pessoa).



Num estudo internacional (EY Fraud Survey 2017), 73% dos inquiridos de um determinado grupo etário afirmou que aceitava que se praticassem comportamentos contrários à responsabilidade ética como forma de ajudar o negócio a sobreviver, de atingir resultados financeiros ou como meio de aumentar os seus próprios benefícios. E o mais preocupante de tudo é o facto de que este valor atinge o seu valor mais alto (exatamente os 73%) na geração mais nova (no estudo considerada como aqueles que têm entre 25 a 34 anos). Espantoso e ao mesmo tempo dá muito que pensar.

Mas afinal o que se passa? Quanto a mim importa analisar vários aspetos: a relação entre empregado e empregador, a importância do ”eu” e, por último, a diferença entre o pensamento e a ação.

A relação entre empregado e empregador alterou profundamente nos últimos anos. Não é só a questão do emprego para a vida que já não existe. É que a empresa passou a ser uma entidade externa para o empregado, à qual ele não se associa, nem veste a camisola. Faz um trabalho e recebe uma remuneração, ponto final. E por isso não se associa a empresas que têm “má” fama, que vendem produtos “fora de moda” ou que trabalham em sectores que não são ecológicos, sustentáveis e com responsabilidade social. Limitam-se a desempenhar uma função e a assumir esses valores positivos como seus porque dão prestígio pessoal e estão na moda.

A importância do “eu” é evidente, numa sociedade que dá sinais cada vez maiores de se tornar cada vez mais egocêntrica. Se for para meu bem, se me beneficiar seja de que forma for e se com isso contribuir para melhorar a minha situação futura então tudo está bem. É o “eu” mereço e o “eu” tenho direito que hoje tanto se repete por aí.

E, por último, a incrível diferença entre pensamento e ação. Os valores existem, mas… Recordo-me de uma entrevista de rua recente, num país estrangeiro, a manifestantes a favor da imigração. O jornalista começou por perguntar sobre o porquê de estarem ali, a que todos respondiam que os imigrantes eram pessoas como nós e que deviam ser ajudados na sua integração. Até aqui muito bem, os valores estão lá. O problema foi quando o jornalista fez a pergunta: e se fosse preciso receberia um imigrante em sua casa? Ninguém, mas ninguém mesmo, respondeu que sim.

A ética é assim, é preciso conhecê-la, interiorizá-la e praticá-la. Não basta ficarmos apenas pela propaganda ou pela moda. Numa palavra apenas, é preciso a(má-la).

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