A Velha Europa, a Bela Adormecida e a Destruição Criadora

Opinião de Paulo Jesus, Professor no Departamento de Psicologia e Educação da Universidade Portucalense

Executive Digest
Novembro 13, 2025
12:09

Por Paulo Jesus, Professor no Departamento de Psicologia e Educação da Universidade Portucalense

O Relatório Draghi sobre o Futuro da Competitividade Europeia (2024) foi um grito de alarme sem precedentes, com impaciência terapêutica, após um diagnóstico brutal. A Europa é a economia mais aberta e mais dependente do mundo: o seu rácio comércio/PIB ultrapassa 50% (quase o dobro dos EUA!). Importa mais de 80% da sua tecnologia digital e consome a energia mais cara do mundo.

Confirmado pelo Competitiveness Compass (2025), o Relatório descreve um continente “rico em potencial e pobre em ação”. As empresas europeias investem 270 mil milhões de euros menos em R&D do que as suas concorrentes americanas. Enquanto a Europa continua dominada por setores industriais do século passado, as empresas campeãs mundiais, born or empowered in the USA, são jovens, algumas pré-adolescentes, como a OpenAI.

Não é por falta de talento: a Europa forma cientistas de classe mundial (com carreiras demasiado precárias!). As ideias morrem na travessia das vidas e das instituições: as pontes quebradas entre o PhD e o posto de trabalho, entre o laboratório e a empresa, entre a patente e o produto. Corolário lógico: 30% das start-ups fundadas na Europa emigram para os EUA, terra de venture capital, escala máxima e burocracia mínima.

O diagnóstico económico encontra um eco teórico nas ideias de novos Prémios Nobel da Economia (2025), Philippe Aghion e Peter Howitt (The Economics of Growth, 2009; cf. também Aghion, Antonin, & Bunel, The Power of Creative Destruction, 2021). Na linha de Schumpeter, explicam que o desenvolvimento depende do processo contínuo de inovação: “destruição criadora”, como as roturas paradigmáticas das vanguardas artísticas!

A crise de competitividade da UE contém uma espiral com quatro carências estruturais: 1. Pobreza universitária (não há universidades europeias no pódio mundial), 2. Pobreza científica (não há investimento estável e ambicioso na investigação), 3. Pobreza financeira (não há capital de risco europeu para acelerar start-ups nem verdadeiro mercado europeu de capitais), 4. Pobreza política (não há agendas europeias bem integradas, mas disparidades norte/sul e este/oeste, sem definição conjunta das prioridades óbvias: inteligência artificial, semicondutores, energias limpas e biotecnologia).

Entre o diagnóstico e a terapia há um abismo político, como se um doente em falência cardíaca aguda fosse calmamente avaliado na triagem das Urgências e lhe dessem uma pulseira verde. O continente onde se inventou a “Crítica da Razão Pura” deve aplicar a crítica às suas próprias instituições num processo de renovação contínua com projetos disruptivos de investigação, empreendedorismo e cidadania.

No entanto, a verdadeira inovação precisa de convicção (o conhecimento é um investimento existencial com retorno exponencial) e de visão (todas as ciências e todas as artes formam um organismo harmónico economicamente vigoroso).

Assim, o renascimento da Europa precisa de cidadania estudiosa, amante de Humanidades e Ciências, Diálogos de Platão e Física Quântica, História de Roma e Inteligência Artificial. A Europa não deve escolher entre a inteligência da Vénus de Milo e a beleza do binómio de Newton, mas unir o improvável e, assim, transcender-se, gerando incubadoras de unicórnios e ateliers de Artes, a inteligência dos algoritmos e a vitalidade dos poemas.

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