A tirania do “like”

A opinião de Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Executive Digest

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Todos somos produtores de conteúdos e opinião, em inúmeros pontos de contacto com outros, mas as redes sociais assumem um papel crucial. Recordo que esta é a fonte de informação principal (ou mesmo única) dos jovens entre os 18-24 anos, em que os media tradicionais como fontes e informação desapareceram. Este não seria um problema grave, pois temos todas as outras gerações e ainda alguns anos para criar literacia e capacidade de escrutina. Mas a inércia das soluções é o que me está a preocupar. Seguimos “likes” e não “informação”. Estará errado? Provavelmente não, pois somos consequência do social (e não a causa). Somos limitados nos nossos sentidos (que nos enganam e nos fazem seguir o mais fácil e óbvio: aquilo que vemos e ouvimos, cheiramos, que nos parece certo…), limitados com os nossos hábitos, não reflectimos, não meditamos, não intuímos, e a educação não nos prepara para a democratização da ignorância que se generalizou. Logo não nos prepara para a quantidade de “fake news” e populismo que grassa nas redes sociais. Mais uma vez, nada demais: apenas temos de educar as pessoas para criarem filtros e saberem escolher o que consideram informação (“levando a sério”) e o que consideram imaginação e criatividade (alguma maldosa), que deve ser “levada a brincar”. Porque “fake news” sempre existiram. Galileu era um grande produtor de “fake news”, Copérnico só permitiu a publicação do seu livro depois da morte, pois sabia que estava cheio de erros. Mas Galileu foi fundamental para o Newton fazer a distinção entre o mundo supra e infra celeste. Portanto a criatividade e imaginação consegue gerar conhecimento. O que se verifica agora é que a dimensão e rapidez de divulgação são diferentes, actualmente generalizada e global (“retwitada” inúmeras vezes) e anteriormente não. Portanto tem de existir uma solução que não pode ser criar legislação que limite a liberdade de expressão de forma anti-democrática, fazendo lembrar o célebre lápis azul, símbolo da censura do Estado novo.




A solução está na educação, nomeadamente dos mais jovens; mas também das redes sociais que têm de aumentar o seu controlo de comportamentos menos éticos e factuais. Os programas escolares têm de ser adaptados a esta nova realidade: com disciplinas como TIC a integrar mecanismos de deteção de “fake news”, disciplinas como “cidadania” a reforçar o conhecimento desta realidade, com a criação de sites e páginas por parte dos meios de comunicação social tradicionais que esclareçam a verdade dos factos, com o reforço da disciplina de estatística na educação escolar (permite aferir e relacionar dados), com o ensino a “obrigar” os alunos a seguir a informação dos meios de comunicação tradicionais como forma de ir “buscar informação e conteúdos” para os seus trabalhos da escola, com conferências nas escolas sobre este tema com “opinion leaders” dos jovens, com a formação de professores e alunos sobre o perigo desta realidade, com a formação dos pais, com a inclusão de autores obrigatórios de estudo nos programas escolares como Carl Sagan que foi durante a vida um grande defensor do ceticismo e do uso do método científico (fundamentais para a selecção inteligente), entre muitas outras medidas.


Um novo programa escolar mas também social, menos escolástico e mais realista. Menos orientado para o resultado e apreensão de factos, mas mais para a formação de comportamentos e estímulo à criatividade e à curiosidade. Sempre sem esquecer o resultado, mas avaliando não só as “hard Skills” (notas finais) mas também as “soft Skills”  (curiosidade, crítica, criatividade, relacionamento interpessoal, colaboração, inteligência emocional, poiética, resolução de problemas, respeito pela diversidade, ética, etc etc etc). Só assim deixamos de entender os “likes” como tiranos e resultado da neutralidade da rede para um feedback positivo de algo que pode ser apenas um “trending topic”, por vezes imaginativo e transitório, por vezes “cor de rosa” e simulado, mas também por vezes maldoso e difamador!

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